Clubes se cansaram de técnicos que ‘sugerem’ seus filhos como auxiliares. Como Tite faz desde 2015 com Matheus. A situação é incômoda até para os filhos
A moda de treinadores ‘sugerirem’ que diretorias aceitem seus filhos, como auxiliares bem remunerados, irrita os dirigentes. Corinthians, Náutico e Seleção Brasileira seguem como exemplos do que não fazer

Com os dicionários definem nepotismo?
É o favoritismo excessivo dado a parentes ou amigos por pessoa altamente colocada, priorizando laços familiares.
Como se mede o amor de um pai por um filho?
Os dirigentes de futebol estão se cansando dessa relação amorosa, familiar, que afetam sua rotina.
O último caso que foi muito discutido foi no Cruzeiro.
O bilionário Pedro Lourenço queria, no final do ano passado, contratar Tite. Ele viria para preencher a enorme lacuna deixada por Leonardo Jardim.
E ouviu do treinador que ele aceitaria trabalhar em Belo Horizonte, e ‘sugeria’ que seu filho Matheus fosse seu auxiliar.
Lourenço cedeu.
Tite vem fazendo isso desde o Corinthians, Seleção Brasileira, Flamengo.
Desde 2015 é a mesma situação.
Os dirigentes que quiseram Tite ‘aceitaram’ Matheus como seu auxiliar.
O filho de Tite passou alguns meses trabalhando com Paulo Turra, no início da carreira, no Caxias. E um período no Santos.
Somados os dois clubes não dá um ano independente.
Foi um ano no Corinthians, seis na Seleção Brasileira, um ano e meio no Flamengo. E três meses no Cruzeiro. Foram cerca de oito anos e nove meses atrelado ao pai.
Trabalha desde 26 anos no cargo.
Tem 37 anos.
Jamais foi técnico principal.
Mas costuma interferir cada vez mais nos treinamentos do seu pai. O que não é necessariamente o que os dirigentes, por exemplo, do Cruzeiro sonhavam. Longe disso.
Contra o América na semifinal do Campeonato Mineiro, Tite teve de controlar o filho, dando uma forte bronca. Matheus discutia com o árbitro André Luiz Policarpo Bento.
Na Seleção Brasileira, Matheus era o especialista em posicionar os jogadores em bolas paradas.
No Flamengo ele já tinha mais espaço, como no Cruzeiro.
O pai o deixava dar instruções aos jogadores que iriam entrar nas partidas.
O que causava estranheza aos torcedores cruzeirenses.
O mesmo acontecia no Corinthians, com Emiliano Díaz, que era mais tratado como treinador do que seu pai, Ramón Díaz.
Era Emiliano quem tomava a frente nas polêmicas. Dava mais instruções no banco.
A direção corintiana se cansou da situação. E demitiu os dois.
Só que, ao escolher Dorival Júnior, cedeu à indicação de Lucas Silvestre, seu filho, como auxiliar.
Foi uma ‘sugestão’ de Dorival, como faz Tite e Ramón.
O Náutico inovou.
Hélio dos Anjos é o ‘head coach’, termo usado no futebol norte-americano. Ele cuida da gestão do grupo, da estratégia, dá a palavra final. Seu filho, Guilherme é o ‘coach’ ou seja, o técnico, que trabalha no campo com os atletas.
Só que ninguém no Náutico se esquece que são pai e filho.
Mas, de maneira geral, dirigentes estão cansando dessa relação.
Diretorias de Flamengo e Cruzeiro não gostaram da experiência de pai e filho. E vão evitar, garantem setoristas, jornalistas que cobrem os clubes diariamente, que isso se repita.
No Internacional, onde Ramón Díaz e Emiliano foram trabalhar, a experiência foi ruim. Outra vez Emiliano se mostrava mais técnico que o pai.
Ambos foram demitidos com apenas 13 partidas.
E a direção gaúcha não se sentiu confortável em ter pai trabalhando com o filho no futebol.
No Corinthians não há o que fazer.
O comando é de Dorival. Mas Lucas tem conseguido mais espaço com os atletas.
Na Seleção Brasileira, Davide Ancelotti é intocável. Também exigência do seu pai, Carlo.
Ele também interfere nos treinos.
Mas ninguém na CBF cogita questioná-lo.
A ‘sugestão’ do filho quando o pai tem o convite para trabalhar em um clube ou seleção não é natural.
Traz silencioso incômodo.
Os auxiliares costumam ser procurados por jogadores para se queixarem dos treinadores, desabafarem, trocarem confidências, darem apoio a atletas que perderam a posição.
Mas como um atleta pode dizer a um filho que ele está sendo injustiçado pelo pai, por exemplo? Lógico que a queixa chegará ao seu genitor.
A situação tende a se tornar cada vez mais rara.
Clubes grandes já perceberam que não é confortável para ninguém.
E buscam fugir desse tipo de relação.
Por mais que o filho/auxiliar seja competente, jamais será reconhecido.
Sempre será lembrado que está empregado graças ao pai.
E está longe de ser mera ‘sugestão’...














