Churrasco frustrado, refrigerante e depressão. 40 anos de Ronaldinho

Um dos melhores jogadores da história completa 40 anos. Trancado em uma prisão paraguaia. Depressivo, abatido. Paga o preço da alienação

Churrasco frustrado. Preso em uma cadeia do Paraguai. 40 anos de Ronaldinho

Churrasco frustrado. Preso em uma cadeia do Paraguai. 40 anos de Ronaldinho

Reprodução/Marca

São Paulo, Brasil

21 de março.

Dia que costuma ser reverenciado no calendário do futebol mundial.

Há 40 anos nascia Ronaldo de Assis Moreira.

Em uma família humilde, filho de um segurança do Grêmio.

E que se tornaria por duas vezes o melhor jogador de futebol do mundo, graças ao seu talento espetacular.

A explosão muscular proporcionava arrancadas fulminantes, que se juntavam ao improviso de dribles inesperados, espetaculares. E objetivos, buscavam os gols.

"É um privilégio ver Ronaldinho jogar", cravou Pelé, o melhor de todos, em 2004, quando o Gaúcho espantava o mundo, ganhando pela primeira vez a Bola de Ouro. 

A segunda viria no ano seguinte.

Ambas merecidas, sem contestação.

Fez história no Barcelona.

"Ele é uma das minhas maiores referências em campo. Tive muita sorte em ter o seu o apoio e poder ver as mágicas que fazia com a bola nos pés. Foi genial."

O elogio é de Lionel Messi, que foi acolhido por Ronaldinho no início da carreira. E o argentino retribui, acolhendo Neymar.

Pentacampeão com a seleção brasileira, na Copa da Coreia e do Japão, em 2002.

Conquistou a Champions League, a Libertadores da América, bicampeão espanhol, campeão italiano.

Ganhou 31 prêmios individuais. No Brasil, França, Espanha, Itália.

Sua carreira profissional começou em 1998 e foi até 2015.

17 anos.

Um adolescente que não se assumiu adulto fora do campo. Festas e alienação

Um adolescente que não se assumiu adulto fora do campo. Festas e alienação

Reprodução/Twitter

Jogou no Grêmio, PSG, Barcelona, Milan, Flamengo, Atlético Mineiro, Querétaro e Fluminense.

Sempre foi um dos jogadores que mais recebeu por onde passou. Nas trocas de clubes, ganhou muito dinheiro. 

Seu patrimônio ultrapassaria os R$ 200 milhões.

Seu investimento predileto são os imóveis.

Depois da aposentadoria, passou a cobrar 100 mil dólares, R$ 542 mil, por jogos de exibição.

O acordo foi o seguinte: desde a trágica morte do pai, que morreu afogado na piscina da casa da família, Assis assumiu a carreira e a vida financeira de Ronaldinho.

A ele cabia apenas jogar e farrear.

Ronaldinho Gaúcho sempre se assumiu como festeiro.

Em Paris, na Catalunha, em Milão, no Rio, em Belo Horizonte, no México e, principalmente, em Porto Alegre, suas farras sempre foram homéricas.

Elas fizeram sua carreira espetacular ser menor do que poderia.

Solteiro, nunca teve limite.

Seus aniversários, quando estava no Brasil, eram divididos em duas festas.

Uma 'para a família', com dona Miguelina, sua mãe.

E depois da meia-noite, ele partia 'para a sua'.

Ele,  Assis e os inúmeros amigos.

As farras impediram que  Ronaldinho tivesse uma carreira ainda mais espetacular

As farras impediram que Ronaldinho tivesse uma carreira ainda mais espetacular

Reprodução/Twitter

Um pelotão buscando diversão.

E encontravam.

Todas as portas se abriam para Ronaldinho Gaúcho.

Farras de virar a noite, cercado de música e mulheres.

E uísque com energético.

Só que seu compromisso hoje, dia 21 de março de 2020, será muito diferente.

Detentos da Agrupación Especializada, quartel improvisado em cadeia para membros do Crime Organizado, em Assunção, no Paraguai, revelam.

Ronaldinho está depressivo, abatido, envergonhado.

Jamais, no seu pior pesadelo, imaginou passar seu aniversário de 40 anos preso no Paraguai.

Ronaldinho. Noites intermináveis

Ronaldinho. Noites intermináveis

Reprodução/Twitter

Por conta de passaportes falsos que seu irmão Assis providenciou para os dois.

E que a Polícia Federal e a Receita Federal paraguaias investigam. Acreditam que podem ser o indício de uma ligação profunda com uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro.

Assustadas, com a possibilidade real de crime, as autoridades brasileiras deixaram de clamar por um dos maiores ídolos vivos do futebol do país.

Ronaldinho completa seu 16º dia atrás das grades.

Com a anunciada autorização dos militares que controlam a Agrupación Especializada, há a promessa de um 'asado paraguaio'.

Um churrasco típico do país vizinho.

É bem diferente da maneira com que é feito no Brasil.

Em vez de apenas carnes nobres, no Paraguai, partes inteiras do boi são colocadas na brasa. 

Com direito a sucos e refrigerantes.

Aliás, refrigerante ele bem todos os dias.

As visitas estão proibidas por conta do coronavírus.

Antes, para tentar animá-lo, uma partida de futebol de salão.

Tudo muito diferente do que se acostumou.

Nada de champanhe, música ensurdecedora, mulheres.

Amigos, família, alegria...

Conseguiu um churrasco.

Festa de presidiário.

Em pleno caos pela pandemia do coronavírus, o mundo se lembra dos 40 anos de Ronaldinho Gaúcho.

 E vê, constrangido, o rumo que deu à sua vida.

Incapaz de tomar uma atitude adulta.

Entregou seu destino ao irmão Assis.

Agiu de maneira infantilizada.

Algemado, caminhando para a cadeia. Ao lado de Assis. Deprimente

Algemado, caminhando para a cadeia. Ao lado de Assis. Deprimente

Reprodução/Twitter

Com síndrome aguda de Peter Pan.

De alguém que não aceitou as responsabilidades de envelhecer.

Quis ser um adolescente eterno.

Sem noção dos negócios que Assis fazia.

Com quem o irmão se relacionava.

Acabou como símbolo anticorrupção do presidente Mario Abdo Benítez.

Essa é a imagem que deveria ser perpetuada. Um jogador fabuloso

Essa é a imagem que deveria ser perpetuada. Um jogador fabuloso

Reprodução/Twitter

Constrange a família, os amigos.

Envergonha o Brasil.

E aqueles que aprenderam a amar o futebol.

A lógica ordena separar o jogador extraordinário.

Do triste homem alienado.

Trancafiado em uma cadeia paraguaia.

Mas é impossível.

Que Ronaldinho aproveite seus 40 anos.

E pense, como um homem, no restante de sua vida...

(E nem ao prometido churrasco, Ronaldinho Gaúcho teve direito. A direção da Agrupación Especializada voltou atrás, na última hora.

Alegou que a festa seria uma maneira de os detentos acabarem expostos ao coronavírus.

Não houve o churrasco.

Na verdade, seria  uma desmoralização para os militares que comandam o quartel tranformado em presídio...)