Cosme Rímoli Brasileiro ensinou Infantino como inchar Copa e Mundial de Clubes

Brasileiro ensinou Infantino como inchar Copa e Mundial de Clubes

Dirigente copia fórmula criada pelo carioca João Havelange. Federações desprezadas e bilionários apoiam inchaço da Copa e Mundial

Novo Mundial de Clubes, Copa do Mundo Catar, Infantino, Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi

Bilionários grupos financeiros por trás do inchaço da Copa e do Mundial de Clubes

Bilionários grupos financeiros por trás do inchaço da Copa e do Mundial de Clubes

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

Os grandes trunfos na vida do carioca Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange foram sua visão e articulação.

Nadador e jogador de polo aquático em duas Olimpíadas, 1936 e 1952, ele percebeu o quanto seria fácil, graças à sua formação intelectual privilegiada de família milionária, se tornar dirigente no Brasil.

Primeiro dominou a natação, logo passou para os esportes aquático.

Ambicioso, viciado no poder, percebeu que neste país o futebol poderia levar para o 'mundo'. Percebeu que tendo o apoio de políticos influentes e militares faria da CBD (futura CBF) seu reinado.

Comandou com mão de ferro a entidade entre janeiro de 1958 até janeiro de 1975.

Sob seu comando, o Brasil foi tricampeão mundial. Deve, lógico as duas primeiras conquistas, a Paulo Machado de Carvalho. Fracassou em 1966, quando tirou a chefia do paulista. Em 1970, uma junta militar tratou de organizar e comandar o time de Pelé para a conquista definitiva da Jules Rimet.

Durante os 17 anos que comandou a CBD, fez um estudo profundo como funciona a Fifa. E percebeu que era mais amadora do que parecia. As falcatruas que aconteciam no futebol brasileiro o deixaram pronto para seu maior bote.

Viu que nunca houve uma campanha eleitoral de verdade na Fifa. Os europeus combinavam que seria o novo presidente e os demais continentes votavam, quase de cabresto.

O que Havelange fez? 

Patrocinado por Horts Dassler, dono da Adidas, ele fez campanha, de corpo a corpo, com federações esquecidas pela Fifa: as africanas e asiáticas. Conseguiu também os votos das sul-americanas. 

Emplacou derrota inesquecível contra o estupefacto Stanley Rouss. O britânico havia assumido a Fifa em 1961. E sob seu comando, a Inglaterra sediou e venceu a única Copa de sua história, em 1966, na polêmica final diante da Alemanha. 

Havelange cumpriu as promessas que fez para os dirigentes dos países desprezados pela Fifa. Ele admitiu 66 novas federações. Entre elas, a China, que estava afastada por pressão política. Lógico que virou dono desses votos para sempre. Assim como os que já havia conseguido.

Esperto, garantiu a fidelidade de duas maneiras. Criando outros campeonatos mundiais importantes: infanto-juvenil, juvenil, juniores e feminino. Era um presente para inúmeros países sem estrutura para organizar uma Copa. Poderiam ter mundiais no seu quintal.

Sua jogada de mestre foi multiplicar o número de países que disputariam as Copas do Mundo.

Em vez de 16, quando assumiu em 1974, na Alemanha, conseguiu elevar esse número para incríveis 32 países, na França.

O nível técnico da competição baixou com a entrada de seleções árabes, orientais, da Oceania.

João Havelange e a foto que melhor representa sua passagem pela Fifa

João Havelange e a foto que melhor representa sua passagem pela Fifa

Reprodução/CBF

Havelange deu um presente bilionário para seu velho parceiro Dassler, responsável pela criação da agência ISL, que cuidava da transmissão, dos patrocínios envolvendo as Copas. 

Acabou de vez a ingenuidade da Fifa.

Havelange, único presidente não europeu, deixou a entidade bilionária.

Era tratado como chefe de estado, tinha tanto respeito quanto um presidente de uma grande nação.

Teve 24 anos de total poder.

Fez seu secretário-geral, Joseph Blatter, seu sucessor.

O auge da história de vida de Havelange foi resgatado hoje por um motivo simples.

O suíço/italiano Gianni Infantino decidiu repetir a mesma estratégia utilizada pelo carioca João Havelange.

O ex-braço direito de Michel Platini na UEFA, é classificado como um homem frio, ambicioso, calculista e manipulador.

Não é por acaso que ele decidiu aumentar o número de países que deverão disputar a Copa do Mundo de 2022. Ele luta com toda a possibilidade de inchar a competição para 48 times.

Não está nem um pouco preocupado em baixar o nível do futebol.

E muito menos em terminar com a emoção, competitividade das Eliminatórias.

Na América do Sul, em vez de cinco vagas, serão 6,5. Ou seja, seis diretas e o sétimo classificado disputará a chance de ir ao Catar disputando dois jogos na repescagem.

A Europa, 16 vagas. A África, 9,5, Ásia, 8,5, Concacaf, 6,5 e Oceania uma, para chamar de sua.

Esse formato movimentará mais dinheiro de transmissão, mais publicidade.

Assim como o novo Mundial que ele anunciou ontem e quer fazer seus ex-companheiros da UEFA engolirem. Um torneio de quatro em quatro anos para substituir a falida Copa das Conferações. Oito times da Europa, seis da América do Sul e as demais divididas entre os demais continentes.

Torneio disputado no meio do ano, logo após o final da Champions.

E com início em 2021.

Houve uma revolta dos grandes clubes. Eles estão muito mais interessados em seguir focados na Champions League e nos seus torneios nacionais. Não têm a dedicação, a obsessão, a loucura por conquistar 'Mundiais' contra sul-americanos, africanos, asiáticos. Sabem que os melhores elencos estão no Velho Continente. Até por conta do dinheiro.

Só que, com seu ídolo Havelange, Infantino resolveu comprar a briga.

Ele tem apoio de grupos bilionários interessados tanto no aumento de times nas Copas como nos Mundiais.

E já antecipou que a Fifa lucrará mais de US$ 400 milhões, cerca de R$ 1,5 bilhão só com o torneio do Catar tendo 48 times. A mais do que conseguiu na Copa da Rússia. O New York Times, a partir de documentos fiscais da Fifa, revelou o lucro de US$ 6,1 bilhões (ou R$ 23,3 bilhões) com direitos de transmissão, contratos de patrocínio com grandes marcas e royalties.

O Mundial de Clubes, no atual formato. tem sido um fracasso para os sedentos cofres da Fifa. O que rendeu mais dinheiro foi o de 2017, nos Emirados Árabes. A entidade conseguiu um lucro líquido de 16 milhões de dólares, R$ 61 milhões.

Daí a pressão por mudança.

Na busca de pelo menos 116 milhões de dólares, R$ 444 milhões, com 24 equipes.

100 milhões de dólares a mais, R$ 383 milhões.

Infantino se cerca dos políticos mais poderosos do mundo. E faz o que quer

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Fifa

A Fifa já tem essa garantia com o apoio aos dois projetos de empresários bilionários.

Como o esperto Havelange, Infantino tem o apoio de todas as federações para as mudanças. Não precisa do apoio, já negado por antecipação, da Uefa. Principalmente quanto ao Mundial de Clubes.

Se Havelange acabou com a ingenuidade, o espírito amador, Infantino quer tornar de vez a Fifa uma entidade ainda mais poderosa e rica. Que não aceita contestação de qualquer outra federação.

Sorrindo, quer dominar com mão de ferro.

Deixar sua marca com 48 seleções em todas as Copas.

E um Mundial de clubes, de verdade, em quatro em quatro anos.

No mesmo palco onde acontecerá a Copa, como um aperitivo.

A exceção deverá ser o Catar pela altíssima temperatura no meio do ano.

As mudanças anunciadas oficialmente ontem em Miami, deverão ser confirmadas no Congresso da Fifa, marcado para junho, em Paris.

Infantino não irá recuar, mesmo diante da ameaça de boicote dos grandes clubes.

Repetindo Havelange em 1974.

Infantino exige 48 seleções já na Copa do Catar. E tem tudo para conseguir

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Fifa

Por trás dele existem as federações que são desprezadas pela Europa.

E muito dinheiro.

45 anos, a história se repete.

Vale destacar o que Infantino escreveu sobre a morte do brasileiro, em agosto de 2016.

"Durante os 24 anos que esteve como presidente da FIFA, transformou o futebol num esporte verdadeiramente global, alargando-o a novos territórios a todas as partes do mundo.

"O futebol mundial deve estar grato a João Havelange."

É esse o epitáfio que Infantino sonha ter em sua morte...