Após triunfo de Cyborg, UFC quer duelo entre brasileiras
Cosme Rímoli|Cosme Rímoli

São 12 anos de invencibilidade no MMA. Nunca havia precisado chegar a cinco rounds para vencer uma luta. Foi apenas a segunda vez que deixou a decisão para os jurados. Mas Cris Cyborb havia feito a leitura com competência. Sabia que teria a sua mais difícil adversária em Holly Holm. E foi o que se viu em Las Vegas, a vitória foi da brasileira, por decisão unânime, mas sem a costumeira contundência, explosão muscular, nocaute, graças à sua mortal combinação de jab e direto.
Não foi a vitória da paciência, apenas. Foi da maturidade, da estratégia, da razão. Cris sabia que não poderia se expor. Estava diante de uma das maiores lutadoras de boxe de todos os tempos. Que já está no Hall da Fama graças aos seus sete anos invicta. E excelente no kickboxing. Seu impressionante chute alto encaminhou Ronda Rousey para a aposentadoria. Amanda Nunes apenas terminou de arrumar as malas de Ronda.
E apesar da torcida de Las Vegas estar toda favorável a Holly, Cris soube se impor. A brasileira sabia que tinha vantagem física na disputa. Naturalmente ela é mais pesada e seus golpes são muito mais potentes que Holm. Cyborg é campeã das penas, até 65,8 quilos. A americana, não. É galo, até 61,2 quilos. Isso até na sexta-feira, dia da pesagem, quando atingem a marca artificialmente. Nesta madrugada, as lutadoras costumam recuperar até seis, oito quilos. Com certeza, Cris lutou com mais de 70 quilos. Holm não chegou a tanto.
A americana enfrentou a paranaense porque não há adversárias do nível de Cyborg entre as penas. E movida à um pedido, acompanhado de uma gorda bolsa, de Dana White, Holly se submeteu à luta que sabia ter remotas chances de vencer.
Seu treinador Mike Winkeljohn deixou escapar que Holly 'chocaria o mundo' ao derrotar a favoritíssima brasileira. Estava claro que só haveria uma possibilidade para Holm. Usar sua maior agilidade, rapidez nos primeiros assaltos, quando ainda não deveria estar machucada, abalada pela contundência das pancadas de Cyborg.
Foi o que Holly tentou fazer. Bater e sair, em uma movimentação frenética. Tentando controlar a distância, fugir da troca escancarada. O primeiro round foi o seu melhor momento, quando, em alguns momentos, conseguiu surpreender, por sua coragem e fluidez nas combinações.
Mas Cris Cyborg além de mais forte, estava muito bem preparada. E tecnicamente ela soube controlar o ímpeto da norte-americana. Holly tem o coração de campeã. Um atrevimento que conseguiu ir além do esperado. Procurava socar, chutar e, em seguida, apelar para o clinch, agarrar a brasileira, imprensá-la nas grades.

Só que a partir do segundo round, Cris começou a acertar seus jabs e diretos. Com certeza, o jab da brasileira era da mesma potência dos diretos de Holly, tamanha a força de Cyborg. Os diretos começaram a estragar o rosto da norte-ameriacana. Seu olho esquerdo foi 'fechando' de tão inchado. Sua boca e nariz também foram ficando marcados, deformados.
Do terceiro round em diante, Holly tratou apenas de sobreviver. Enquanto isso, Cris batia mas não se expunha. Sua guarda seguiu alta do início ao final da luta. A brasileira apenas errou ao não tentar levar Holm para o chão. Seu jiu-jitsu é muito superior. Assim como seu ground and pound. Mas Cyborg preferiu se manter em pé, trocando socos e chutes. Sabia que a vitória seria sua.
Inteligente, a brasileira não se desesperou, tentando o nocaute como tanto seus fãs desejavam. Ela queria era vencer, na sua primeira defesa de cinturão nos penas, categoria que foi criada para ela, entre as mulheres do UFC. Seu nível de concentração acabou sendo invejável.
No final, vitória unânime. Mas deixar para os jurados é sempre preocupante. Os três deram a vitória para a brasileira. Mas a contagem foi muito mais apertada do que foi o combate. Derek Cleary marcou 49 a 46. Dave Hagen 48 a 47 e Chris Lee também, 48 a 47. Não há dúvida que os juízes foram muito complacentes com Holly. A norte-americana teve de ir de ambulância a um hospital depois do combate, tantos foram os golpes que ela tomou.
Na entrevista tradicional após a luta, Cris pediu que o próximo combate fosse na Austrália, contra Megan Anderson. Uma adversária fácil. E que deveria até ter enfrentado Cyborg se não tivesse tido um problema no passaporte.

Só que Dana White e o UFC têm outro plano. Querem Cris contra Amanda Nunes. Um combate entre brasileiras. Para essa luta acontecer, Amanda terá de repetir o que fez Holly, subir o peso. O que será grande vantagem para Cyborg.
O que deverá ser uma pena para o Brasil. Porque os únicos dois cinturões que possui no UFC são das duas mulheres. Os homens não têm sequer um. No total, no feminino e no masculino, o domínio norte-americano é total. São nove títulos. Contra um australiano, Robert Whittaker, e um irlandês, Conor McGregor.
Na luta anterior à disputa do cinturão dos penas feminino, o brasileiro Edson Barboza tentou a sorte com o russo Khabib Nurmagomedov. O confronto foi como se esperava. Nurmagomedov é muito mais técnico. E tratou de derrubar e imprensar Barboza nas grades. Diminiu sempre a distância para escapar da única arma mortal do brasileiro, seus chutes. Não se expôs. Em outra luta estratégica e previsível, o russo venceu por unamidade.
Com um cartel invicto, com 25 vitórias, Nurmagomedov tem todo o direito de decidir o cinturão dos leves, até 70,3 quilos. Tony Ferguson é o campeão interino. O real dono do cinturão é Conor McGregor. Mas, como Nurmagomedov declarou com sabedoria. O irlandês só está preocupado em gastar o dinheiro que ganhou na luta contra Floyd Mayweather. E Fergusou é o adversário real. Com toda a vantagem para o russo.
















