Cosme Rímoli "Alguns têm problema com droga, bebida. Eu tenho com comida"

"Alguns têm problema com droga, bebida. Eu tenho com comida"

Bolachas recheadas, doces, sanduíches sabotaram a carreira do hábil Walter. Athletico dá última chance. Mas ele terá de perder mais de dez quilos

  • Cosme Rímoli | Do R7

Walter: bolachas recheadas, doces, sanduíches. 1m78. 106 quilos

Walter: bolachas recheadas, doces, sanduíches. 1m78. 106 quilos

Reprodução Twitter

São Paulo, Brasil

"Cosme, não posso falar.

"Não estou podendo dar entrevista.

"Não posso falar nada."

Foi, assim, com esse tom de preocupação que Walter respondeu à ligação, no início desta tarde.

O motivo é simples.

Ele assinou contrato com o clube mais fechado do Brasil, o Athletico Paranaense. Walter não está preocupado pela maneira com que os jogadores são absolutamente controlados pela cartilha do ditatorial Mario Celso Petraglia.

Suas preocupações são três.

A primeira é com a balança. 

"Tem gente que tem problema com droga, bebida.

"Eu tenho com comida.

"O problema nem são as refeições. São as besteiras. Como muito à noite, antes de dormir.

"Muita bolacha recheada, doce.

"Quem briga com a balança sabe o quanto é difícil", costuma repetir.

Nascido em uma família muito pobre, no violento bairro de Coque, no Recife, ficou traumatizado.

Viu pessoas sendo assassinadas na sua frente, agonizando até morrer. 

Uma delas, seu irmão Waldemir.

Walter tinha sete anos.

Passou muita fome.

Magro, com Falcão Garcia, no Porto. Se deixou levar pelas guloseimas

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Reprodução Twitter

Daí, quando se tornou profissional, caiu na tentação de descontar a privacidade que enfrentou como menino.

E se viciou em bolacha recheada, chocolates, refrigerantes, sanduíches de fast food, batatas fritas.

O cardápio infantil revela que suas vontades não satisfeitas quando garoto o perseguem de forma compulsiva.

Com 1m78, já entrou em campo com 106 quilos, o que é inaceitável para um atleta profissional.

Daí a eterna camisa estufada na barriga, a gordura travando a velocidade, o fôlego. Sabotando a ótima técnica com a bola nos pés.

E as piadas nas arquibancadas.

Técnicos cansaram de implorar para que se controlasse, parasse de comer.

Mas sempre faltou um trabalho psicológico profundo.

Os traumas que viveu o marcaram demais.

Na sua primeira passagem pelo Athletico, entre 2015 e 2016, ele conseguiu ficar  com 92 quilos.

Nesta segunda, ele tem um contrato de apenas três meses.

A avaliação final se seguirá no clube será feita no dia 6 de agosto.

Daí a necessidade do jogador de 30 anos, de emagrecer. 

A cobrança é forte na Baixada da Arena.

A segunda preocupação com Walter é financeira. Ele ficou suspenso por dois anos. Furosemida e matabólitos de sibutramina foram encontrados no seu exame antidoping. São substâncias presentes em remédios para emagrecer.

Walter diz que recebeu um medicamento no CSA. Ele acreditou que não haveria problemas. 

Errou feio.

Foi suspenso, primeiro por um ano. Depois foi confirmada a pena de dois anos.

Ficou depressivo, perdeu o entusiamo para treinar. Engordou mais ainda.

Sem contrato, passou por dificuldades financeiras.

O atacante é o responsável financeiro por quatro famílias.

Renato Gaúcho fez de tudo para tentar recuperar Walter. Não conseguiu

Renato Gaúcho fez de tudo para tentar recuperar Walter. Não conseguiu

Reprodução Twitter

Teve de vender um apartamento para sustentar a todos.

Sua suspensão termina no dia 5 de julho.

Seu contrato no Athletico é basicamente uma ajuda de custo. Só em agosto, se comprovar ter emagrecido e ter força física para se integrar ao grupo, assinará um contrato com valores dignos de jogador de time grande.

A terceira preocupação de Walter é recuperar a credibilidade.

Aos 30 anos, ele vive a situação de  'tudo ou nada'. 

O atacante que já passou por Internacional, Porto, Cruzeiro, Goiás, Fluminense, Atlhetico, Paysandu e CSA, estava altamente decadente.

Ele passou por um período cotado para ter uma chance até na Seleção Brasileira, em 2015.

Neste ano, chegou a jogar na várzea. Equipes fortes varzeanas costumam pagar um pequeno cachê para atletas profissionais.

Por morar em Goiânia, chegou a flertar com o Goiás, que permitia nos últimos meses, que ele apurasse sua forma no clube. Mas os dirigentes insistiam que não tinham compromisso algum em contratar Walter.

Muito mais de 100 quilos no Paysandu

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Reprodução Twitter

Sua credibilidade no futebol nacional estava seriamente abalada.

Até que Dorival Júnior mudou essa situação.

O treinador do Athetico sempre admirou o futebol técnico de Walter. A lembrança de Claudiomiro, atacante e também sempre acima do peso, do Internacional é recorrente.

Dorival Júnior se recuperou de um câncer.

E decidiu apostar mais no ser humano.

A direção do Athletico tem duas experiências em recuperar atacantes desacreditados.

A primeira deu muito certo, com Washington, que havia sofrido operação no coração.

A segunda, um fracasso, com Adriano Imperador.

Walter irá se juntar ao elenco, quando a pandemia permitir o retorno aos treinos. Não há ainda a menor previsão.

Mas o atacante tomou uma decisão que mostra a seriedade com que ele encara a chance de voltar a jogar.

Tem o apoio de personal trainer, nutricionista e fisioterapeuta.

Está treinando forte, diariamente.

Se seguir comendo cachorros quentes, como em 2018, não volta ao Athletico

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Reprodução Instagram

Já conversou com Dorival Júnior e sabe: a situação é simples.

Conseguiu ter estrutura física de jogador de futebol da elite, até 5 de agosto, problema resolvido.

Terá de perder mais de dez quilos.

Se não conseguir, não ficará no Athletico.

A chance está nas suas mãos.

Ou melhor, na sua boca...

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