Cosme Rímoli A mais delicada exclusiva de Rincón. Ao deixar a cadeia, acusado de lavagem de dinheiro do tráfico

A mais delicada exclusiva de Rincón. Ao deixar a cadeia, acusado de lavagem de dinheiro do tráfico

Ele passou quatro meses preso. Respondia pela acusação de ligação com traficantes internacionais da Colômbia. Nada foi provado. Ao sair da cadeia, revelou sua revolta, seu sofrimento

  • Cosme Rímoli | Do R7

Rincón na lista dos procurados da Interpol. Acusado de lavagem de dinheiro

Rincón na lista dos procurados da Interpol. Acusado de lavagem de dinheiro

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

Entre as várias entrevistas que tive a sorte de fazer com Rincón, esta foi a mais delicada. Ele havia acabado de deixar a cadeia.

Ficou preso acusado de tráfico, lavagem de dinheiro.

Passou quatro meses preso.

Sem provas, o caso foi arquivado no Brasil.

Em 2021, o governo do Panamá reabriu a investigação.

E a Interpol o colocou na lista de procurados.

Minha matéria foi publicada no extinto Jornal da Tarde, em setembro de 2007.

'A maior alegria da minha vida agora é poder abrir a porta da minha casa', diz Freddy Rincón. Depois de 123 dias preso na cela 1 da ala B do setor de custódia da Polícia Federal, o ex-jogador passou a ter muito prazer nas pequenas situações cotidianas que um ídolo do futebol não costuma valorizar. Como entrar e sair do seu apartamento ou abraçar a todo momento, a filha Ana Clara, de um ano e meio.

'Estava com medo que ela esquecesse quem é o pai dela. A Priscila, minha mulher,espalhou meus retratos pela casa para que se lembrasse quem eu era.'

Beneficiado por um inédito habeas corpus em um processo de extradição conseguido por seu advogado Eduardo Nunes de Souza, Rincón pode circular por São Paulo.

Ele é acusado de lavagem de dinheiro e tráfico pelo governo do Panamá. Mas por duas horas e meia Rincón não se negou a falar e deu sua primeira entrevista exclusiva desde que saiu da cadeia. E revelou as suas memórias do cárcere. Que misturam lágrimas, marmitas, fotos autografadas, novela Paraíso Tropical, o frio que doía nos ossos do beliche de cimento, carregar galões de água para a privada da cela e a leitura do Jornal da Tarde.

JT - Como foi sua vida na cadeia?

Rincón - É uma situação terrível. Ficar privado da liberdade de uma hora para outra não dá nem para descrever. Eu nunca pensei em passar por isso, mas enfrentei de cabeça erguida porque sou inocente. Criei uma rotina para mim para não pensar na vida fora da cela. Foi o que me ajudou a viver. Ainda mais porque eu estava sozinho na cela.

Como era essa rotina?

Pouco antes das 8 horas, a cela era aberta para o café. Eu ia encher galões de água para a descarga. Depois do café ia para o banho do sol. Banho de sol é maneira de falar. Ele só entra em uns pedacinhos do pátio. É triste não ver nem o sol inteiro. Para esquecer começava os exercícios físicos e corrida. Perdi nove quilos na cadeia. Levava outros presos para correr. As mulheres dos presos pediam para eu levá-los. Um gordinho perdeu 14 quilos na minha mão. Depois almoçava. Jogava cartas. Depois o campeonato de futevôlei que organizei. Depois eu corria para tomar banho frio porque a fila para o quente era enorme. Aí, o jantar. Aí vinha a novela Paraíso Tropical, em que fiquei viciado. E depois eu ia ler o jornal. Por coincidência um agente assinava o Jornal da Tarde. Eu dormia lendo o JT.

Já dormiu nos melhores hotéis do mundo. Como foi dormir na cadeia?

Quem fica preso tem de dormir nos beliches de cimento com um colchão fino que é padrão. Passei muito frio na cadeia. E olha que a minha mulher levava cobertores. Eu tive uma vida de preso igual aos outros.

O que tinha vontade de comer?

Ah, o que eu mais gosto é peixe. Mas na cadeia, nem sonhar. Comia a marmita que me davam e pronto. O único peixe que eu vi nesses 23 dias era o que estava nas fotografias do jornal.

Você chorou alguma vez?

Eu tinha prometido a mim mesmo que não iria chorar porque sou inocente. Chorar para mim significava o reconhecimento da culpa. Mas teve um dia em que não agüentei. Chegou uma carta de o meu irmão mais velho da Colômbia. Eu o considero quase como o meu pai, que já morreu. Sua opinião tem muito peso. Ele dizia que ele e a minha família confiava em mim acima de tudo. Aí, eu desabei. Chorei calado. Mas cada lágrima que saiu dos meus olhos será vingada. Sou inocente.

Quando você começou a escrever suas memórias?

Depois de 15 dias de prisão. Tive sorte porque na minha cela havia ficado uma pessoa doente que tinha de ser vigiada quase 24 horas. Então, a luz não se apagava. Eu passei a escrever antes de ler o jornal. Eu vou lançar um livro mostrando a tristeza da vida na cadeia e toda a minha carreira.

Rincón nunca mais foi o mesmo depois da prisão. Se tornou amargurado, revoltado

Rincón nunca mais foi o mesmo depois da prisão. Se tornou amargurado, revoltado

Reprodução/Instagram

Você escreveu também uma carta ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe?

Sim. Tinha de me explicar para ele. Sou um ídolo no meu país. E ainda embaixador da ONU para a questão da fome na Colômbia. A carta foi recebida pelo presidente e publicada nos principais jornais colombianos. Eu tenho a confiança da presidência da Colômbia porque toda a minha vida foi investigada e não encontraram nada de errado. Nada.

Muitos amigos sumiram?

Sumiram. Gente que eu pensei que fosse minha amiga para a vida inteira. Gente que eu ajudei, dei dinheiro. A maioria é gente do futebol. Esse povo pensou que eu iria ficar preso muito tempo. E pessoas que freqüentavam minha casa não tiveram a decência nem de ligar para dar força à minha esposa. A cadeia serviu para peneirar quem é quem. E não vou dar segunda chance a esses falsos amigos.

Como foi a sua volta para casa?

Foi uma maravilha. Acordei o Leonardo que tem sete anos e a Clarinha. Abracei muito os dois. E depois falei com a minha mãe que tem 81 anos e vive na Colômbia. Ela agradeceu chorando a todos os santos que ela conhece. Ela é uma mulher muito católica. E foi maravilhoso ficar de novo com minha mulher.

Você ficaria irritado com que o considera ingênuo por ter se envolvido com o Pablo Rayo que é traficante?

Não aceito ser chamado de ingênuo. Não sabia que ele era traficante. Eu pedi um conselho de investimento financeiro e ele me indicou a Nautipesca do Panamá. Como tive a confirmação até da ex-presidente do país (Mireya Moscoso) que o negócio era seguro, fiz o investimento. Era impossível saber que estava sendo usado. Queriam a minha fama como jogador para desviar a atenção de gente poderosa do Panamá se o tráfico de drogas que havia na empresa fosse descoberto. Foi o que aconteceu.

Não foi ingênuo em perder dinheiro no Café Rincón?

Como ingênuo? Gislaine Nunes (advogada) tem mil caras. Ela enganaria qualquer pessoa. Me tratava como um filho, me apresentou o projeto do Café Rincón. E me fez perder uma fortuna. Só falo que as pessoas que me prejudicaram vão pagar.

Qual está sendo a reação das pessoas quando o vêem na rua?

Meu filho foi jogar futebol e fui muito bem tratado pelas pessoas. Os meninos fizeram fila para pegar o meu autógrafo e para tirar foto comigo. Sei que ainda vou encontrar gente ignorante, que vai querer aparecer. Mas se alguém me ofender, ou ofender a minha família não vai ficar sem resposta. Não vou ficar marcado por ter sido preso por uma coisa que eu não fiz.

Você quer ir para algum lugar especial com sua mulher Priscila?

Sim. Eu gosto muito de comer massa na Famigilia Mancini ou no restaurante Ecco. E eu vou com a cabeça erguida porque não devo nada para ninguém. Minha vida é limpa. Fui grampeado pela Polícia Federal e investigado pelo DEA (Drugs Enforcement Administration) dos Estados Unidos. Não há nada contra mim. Não devo nada à sociedade.

Você acha que há preconceito contra o povo colombiano?

Sim. Infelizmente. Tem gente que pensa que todo colombiano é traficante.

E toda mulher brasileira é prostituta.

Isso é coisa de gente pequena que não merece a minha atenção...

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