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Depois da pausa: o que ninguém te conta sobre voltar a correr

É preciso ir expondo o próprio corpo ao esforço devagar, quase como um reencontro

Corrê|Renata LouresOpens in new window

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A pausa pode ser desafiadora, mas o caminho de volta pode ser mais curto do que você imagina Arquivo pessoal

Tem um momento silencioso na vida de quem corre. Não é a largada. Nem a chegada. É a pausa.

Às vezes ela vem por um problema de saúde. Às vezes, por cansaço, desânimo, rotina que atropela. Às vezes, sem motivo, sem aviso. Quando a gente vê, o tênis ficou parado mais tempo do que o planejado e a energia já não parece a mesma.


E aí vem aquela pergunta de milhões.

“E agora… como é que eu volto?”


Aconteceu comigo recentemente. Uma questão de saúde me obrigou a diminuir a velocidade e deixar o corpo se recuperar primeiro.

Por muito tempo, achei que disciplina fosse NUNCA parar. Era seguir firme, sem falhar, sem quebrar a sequência. Mas a corrida, como a vida, não funciona assim.


Constância, eu aprendi na pele, não é sobre nunca parar, mas também sobre saber voltar. E é sobre isso que quero falar hoje com você.

Recentemente, conversando com o meu treinador, Euclides Júnior, que me acompanha há cerca de um ano e meio e foi fundamental na minha evolução, eu levantei exatamente essa dúvida. Afinal, depois de um tempo parada, o certo é voltar de onde parei?


A resposta veio rápida e talvez não seja a que a gente quer ouvir.

“Quase nunca”, ele me disse.

Júnior me explicou que o corpo até guarda memória do que já foi construído. Mas isso não significa que ele esteja pronto para retomar exatamente do mesmo ponto.

Euclides Junior em ação Reprodução/Arquivo Pessoal

Quando a gente para de treinar, algumas capacidades começam a regredir, principalmente o condicionamento cardiovascular, que é a capacidade do coração, dos pulmões e da circulação de levar oxigênio para os músculos de forma eficiente durante o esforço.

Em poucos dias sem treinar, já há uma queda leve. De duas a três semanas, essa perda fica ainda mais evidente. Mas nem tudo se perde na mesma velocidade.

“A força muscular e a memória motora permanecem por mais tempo. Por isso, quem já treinou antes costuma voltar mais rápido do que alguém que está começando do zero”, explicou.

Ou seja, você não volta à estaca zero, mas também não exatamente de onde parou. E é aí que mora o risco.

A gente sabe aonde já chegou com a corrida, por isso, a tentação de retomar o ritmo antigo, a distância antiga, o pace antigo… tudo de uma vez, é enorme! Como se o corpo ainda estivesse lá. Mas… admita, não está. É o que estou vivendo agora.

“Voltar ao mesmo nível de antes é um dos principais fatores de lesão. O ideal é fazer uma reintrodução progressiva, respeitando o momento atual do corpo”, disse o treinador.

Na prática, isso significa dar alguns passos atrás para conseguir avançar de forma consistente depois. Reduzir volume. Diminuir intensidade. Alternar com caminhada, se sentir que é necessário. Ouvir o próprio corpo e ir expondo-o ao esforço devagar, quase como um reencontro mesmo.

Falei de ouvir o próprio corpo porque ele fala. Cansaço excessivo, dores que não passam, falta de recuperação entre os treinos. São o corpo dizendo: “Ei, calma aí, você está voltando rápido demais”.

A boa notícia é que o caminho de volta costuma ser mais curto do que o de ida. Ufa! Ao menos isso.

“Dependendo do tempo parado, em poucas semanas já é possível retomar um bom nível de condicionamento. Mas isso varia muito. O importante não é a pressa, é a progressão.”

Que difícil! Entender que não é preciso provar nada. Para o relógio, para o Strava, para si mesmo. A gente foca em repetir o que já fez, mas deveríamos mesmo prestar atenção em reconstruir, quem sabe, com até mais consistência que antes.

Hoje, tentando voltar ao ritmo depois de um descanso forçado, repito para mim mesma que os passos atrás, a maratona que ainda vai precisar esperar mais um tempo, não são fracasso. São só uma parte do processo da vida real.

Correr não é sempre uma prova na Marginal Pinheiros, quase toda em linha reta. Há dias de avanço, dias de pausa. E dias de recomeço.

Difícil correr sem nunca chutar o balde. Mas tudo bem. É só voltar e buscar.

Euclides Júnior, preparador físico com 31 anos de experiência na área

Quem é Euclides Júnior

Preparador físico com 31 anos de experiência, Euclides Júnior é especialista em Ciência e Prática nos Esportes de Alto Rendimento pelo NAR, o Núcleo de Alto Rendimento, e Triathlon pela Unicamp.

Professor de ciclismo para a formação de treinadores na FPA. CEO da Target Pro e presidente da ONG Target Tri, projeto voltado para crianças e adolescentes de periferias

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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