Correr todo dia é disciplina ou cilada? Veja o que diz especialista que acompanhou Ronaldo
Treinar diariamente não é um selo definitivo de quem leva a sério a atividade física
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Tem uma pergunta que sempre aparece quando alguém descobre que eu corro: “Mas você corre todo dia?”. E ela vem quase sempre com uma certa admiração, incredulidade, com a certeza de que a resposta certa é um sonoro “sim”.
Como se correr todos os dias fosse o selo definitivo de quem realmente leva a sério a atividade física.
Eu já pensei assim também. Hoje, não mais.
Na minha rotina possível, que não é a perfeita, é a real, eu tento correr de duas a três vezes por semana e encaixar outros dois ou três treinos de força.
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Nem sempre o trabalho, as viagens para gravações do Domingo Espetacular ou outros deveres da vida adulta me permitem isso. Houve uma época em que eu corria 10 km todos os dias, certa de que era o melhor para mim. Mas, curiosamente, foi quando parei de tentar correr todos os dias que comecei a correr melhor.
E isso não é só percepção. É a ciência que diz.

Para entender melhor, eu conversei com o professor doutor Daniel Portella. Ele é especialista em esporte e saúde e tem mais de 25 anos de experiência em medicina esportiva. A primeira coisa que ele me disse foi quase um alívio.
“Muita gente acredita que correr todos os dias vai fazer evoluir mais rápido, mas isso não é verdade para a maioria das pessoas. O que realmente faz alguém melhorar não é só treinar mais, e sim treinar bem e descansar o suficiente.”
A explicação é menos intuitiva do que parece e mais interessante também. Quando a gente corre, o corpo sofre um estresse controlado. Microlesões musculares, impacto nas articulações, desgaste energético. É justamente esse “desconforto” que sinaliza para o corpo: “Preciso me adaptar.”
Só que a adaptação não acontece durante o treino. Olha que louco! Acontece depois, quando o corpo está descansando.

”É nesse momento que ele se recupera, repõe energia e se fortalece para suportar melhor os próximos treinos. Se a pessoa treina de novo sem ter se recuperado, ela não evolui como poderia e ainda pode acumular cansaço. Por isso, o descanso não é opcional, ele faz parte do treino”, explicou o professor.
Ou seja, treinar todo dia, sem dar tempo para o corpo se recuperar, é como tentar evoluir sem deixar o organismo assimilar o que você fez. É treino demais e progresso de menos. E tem mais.
A prática diária, sem pausas adequadas, aumenta significativamente o risco de lesões. “As mais comuns são as dores na canela, chamadas de canelite, dor no joelho, problemas no calcanhar, como fascite plantar, no tendão de Aquiles e até pequenas fraturas por esforço repetido”, disse o doutor Portella.
São nomes que todo corredor conhece ou aprende a conhecer, às vezes da pior forma.
O corpo dá sinais antes de lesionar. Cansaço, piora no desempenho, dores. Mas, quando a pessoa insiste em manter uma frequência alta sem variar estímulo ou descansar, ela ignora isso.
E é aí que entra um ponto que muito corredor tem dificuldade de aceitar. Treino de força é fundamental.
Se correr é o que a gente ama, fortalecer é o que sustenta.
A musculação (ou qualquer outro treino de força bem orientado) deixa o corpo mais preparado.
“Músculos mais fortes ajudam a correr melhor, com mais eficiência e menos esforço. Outro benefício é que os treinos de força reduzem o risco de lesões. Um corredor mais forte corre melhor. Para a maioria das pessoas, fazer treino de força duas vezes por semana já é suficiente para ter bons resultados”, enfatizou.
Na prática, isso significa correr melhor e por mais tempo.
Hoje, quando alguém me pergunta se eu corro todo dia, eu respondo sem culpa com um sonoro “não”. E talvez o mais importante seja isso. Tirar o peso da ideia de que mais é sempre melhor.
Correr é sobre consistência, não sobre exaustão. É sobre construir, não sobre esgotar.
No fim das contas, o corpo não entende de planilha bonita ou de disciplina cega. Ele responde mesmo a equilíbrio. Treino, descanso, força, repetição.
Às vezes, evoluir na corrida não é correr mais. É saber também quando o melhor é não correr.
Quem é Daniel Portella

Daniel Portella tem 26 anos de experiência em performance esportiva e saúde. Doutor em Educação Física pela Unicamp. Professor e pesquisador da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Professor da Universidade Católica Delim Maule, do Chile. Colaborador científico do ambulatório de medicina do exercício e do esporte do Hospital do Servidor Público Estadual. Consultor científico da área da Fisiologia do Esporte na Loud Sports Club, time da King’s League.
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