Mudanças nos times e parte física transformam volta do Paulistão em incógnita

O Campeonato Paulista retorna nesta quarta-feira com grande expectativa e enorme incógnita para os 16 times participantes. O jogo de reabertura será às 16h30, no Canindé, entre Ituano e Ferroviária, para encerrar a espera de quatro meses de paralisação por causa da pandemia e expor as equipes ao mistério sobre como lidar com tantas condições diferentes e inusitadas. Dúvidas sobre condição física, mudanças nos elencos, partidas sem público e até a nova regra de cinco substituições fazem a continuação do Estadual ser uma absoluta incerteza.

A única garantia neste reinício é que o futebol paulista será algo bem diferente. O principal Estadual retorna cercado de cuidados com o novo coronavírus. Fora os portões fechados, as partidas só serão disputadas em municípios em que a situação da pandemia está mais controlada, segundo análise do governo estadual. Por isso, somente a Grande São Paulo e a cidade de Santos vão receber jogos.

A interrogação sobre o torneio aumenta porque a duas rodadas para o fim da primeira fase, as vagas para as quartas de final e a fuga do rebaixamento continuam em aberto. "Serão dois jogos importantíssimos e, considerando o tempo que os atletas estão sem jogar e o caráter de decisão das partidas, qualquer detalhe, qualquer lance, pode mudar tudo", comentou o técnico do Guarani, Thiago Carpini.

Para piorar, os próprios times têm poucas informações sobre os adversários, pois não há jogos recentes para se usar como referência. As equipes do interior tiveram amplas reformulações, enquanto os grandes do Estado perderam jogadores importantes e terão desfalques até por causa de casos confirmados do novo coronavírus, como o do corintiano Cantillo.

"Está todo mundo voltando agora e sem condição e ritmo de jogo", resumiu o goleiro Júlio César, do Red Bull Bragantino. "A parada veio em um momento em que estávamos muito bem. Espero que a gente possa voltar na medida do possível jogando bem", disse o colega de time, o atacante Ytalo, artilheiro do Estadual com sete gols.

O "novo" Paulistão será para os quatro principais clubes do Estado uma chance de se preparar para o Brasileirão e reconstruir os times titulares. O trio de ferro da capital passou por mudanças grandes. O Palmeiras perdeu Dudu, o São Paulo está sem Antony e o Corinthians conta a vinda de Jô, mas teve as saídas de Pedrinho e Vágner Love. No Santos a instabilidade é maior principalmente depois de Everson e Eduardo Sasha terem saído do clube amparados por ações judiciais por atraso no salário.

Líder geral na pontuação antes da pandemia, o Santo André perdeu dez atletas desde março, quatro deles titulares. A equipe havia assinado com todo o elenco contratos curtos, válidos somente até o fim do Paulista, e teve de fazer uma reformulação. "Será um campeonato bem diferente. Os jogadores ficaram muito tempo parados, sem treinar com bola, e agora vão ter de jogar partidas decisivas sem torcida, o que é bem diferente também na questão de ambiente e de concentração", afirmou ao Estadão o diretor executivo do clube, Edgard Montemor.

A retomada do torneio vai testar até a estratégia dos treinadores. A Federação Paulista de Futebol (FPF) acatou a recomendação da Fifa e vai permitir a realização de até cinco substituições por jogo, desde que sejam feitas em no máximo três paralisações para cada time. A medida é uma forma de compensar a longa paralisação e evitar que os atletas se desgastem demais.

Apesar de nos últimos meses os jogadores terem cumprido treinos em casa e realizado atividades nos clubes, todos admitem sentir falta de disputar partidas oficiais, mesmo que em condições tão diferentes do normal. "Foi um período difícil. É ruim ficar longe de algo que você gosta e é o seu trabalho", disse o zagueiro Léo, do Ituano.

ANÁLISE - "O futebol tem uma responsabilidade neste momento. A volta do futebol é um momento festivo e ao mesmo tempo de muita responsabilidade profissional dos atletas neste momento. Eles têm de ter isso na cabeça. O futebol vai transmitir uma responsabilidade social, que pode ser negativa pelos comportamentos. Os jogadores servem como exemplo e devem ter isso em mente ao respeitar as recomendações do protocolo de saúde e não trocar camisas, beijar a bola e descumprir as orientações", disse Moisés, diretor-médico da Federação Paulista de Futebol (FPF).

"A ideia é voltar o campeonato e transmitir uma imagem positiva, de cuidado e de respeito. O protocolo médico é como um tabuleiro de xadrez, cheio de peças e todas elas têm importância para o trabalho dar resultado. Se um jogador não cumprir, vai tudo por água abaixo. Em nenhum momento a Federação fez pressão para os jogos voltarem rápido. Tudo foi seguido de acordo com o governo estadual e seguimos à risca estudos médicos e recomendações. Nós passamos uma imagem social positiva e queremos que isso continue", concluiu o especialista.