Lance Treinador da Wand Fight Team, Michael Costa fala sobre o seu trabalho voltado para crianças com problemas comportamentais nas escolas públicas de Las Vegas

Treinador da Wand Fight Team, Michael Costa fala sobre o seu trabalho voltado para crianças com problemas comportamentais nas escolas públicas de Las Vegas

Ex-atleta da Chute Boxe se aposentou do MMA em 2013 e hoje dá aulas na academia de Wanderlei Silva, realiza palestras motivacionais e trabalha no projeto chamado Pay-Back

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Ex-lutador de MMA, Michael Costa fez parte da lendária academia Chute Boxe, onde treinou com nomes como Wanderlei Silva, Maurício Shogun, Anderson Silva, Murilo Ninja e muitos outros grandes nomes que fizeram história nas artes marciais mistas. Nascido no Rio de Janeiro, Michael começou no Jiu-Jitsu com o professor André Negão na academia Gracie Nova Iguaçu. Aos 17 anos, após fazer uma luta de MMA sem luvas, ele decidiu que era aquilo o que ele queria e entrou em um ônibus rumo a Curitiba. Na Chute Boxe ele foi recebido pelo mestre Rafael Cordeiro e deu o início a sua trajetória na equipe fundada e liderada por Rudimar Fedrigo.

“Eu tinha 17 anos quando fiz uma luta casada sem luva contra um atleta do Boxe dentro da academia. Foi depois dessa experiência que me despertou o interesse em lutar MMA, pois até então eu não sabia nada a respeito de outra modalidade que não fosse o Jiu-Jitsu. Na época eu trabalhava no Rio de Janeiro como office boy em um escritório de contabilidade. Eu queria me tornar um atleta de MMA e poder viver da luta, então em 2001 eu peguei um ônibus na rodoviária e fui parar em Curitiba na academia Chute Boxe e o Mestre Rafael me recebeu de braços abertos”, relembrou Michael Costa.

O carioca chegou com um sonho na bagagem: lutar no Japão. Na época o Pride era o maior evento de MMA do mundo e era onde os ídolos de Michael Costa lutavam. Depois de muito treino e aquela famosa peneira que os lutadores brasileiros enfrentam nos eventos nacionais, ele chegou em 2008 ao evento Sengoku, que foi criado para tentar ocupar o espaço deixado pelo Pride, que havia sido vendido para o UFC no ano anterior. Mas uma luta antes de entrar no Sengoku, Michael Costa quebrou a mão e desde então teve que conviver com a lesão mesmo após passar por três cirurgias.

“O meu sonho era lutar no Japão, país na época era onde lutavam todas as minhas referências do esporte. Em 2007 eu lutei em Brasília, contra um atleta da BTT, o Gerson Conceição. Eu venci essa luta por nocaute no segundo round, mas quebrei a minha mão. Essa luta foi o meu passaporte para a minha carreira internacional. Mas a verdade é que a minha carreira nunca mais foi a mesma desde essa lesão. Eu quebrei a minha mão no total de sete vezes e passei por três cirurgias na mão. Eu lutei no Japão, China e na América e em todas as vezes eu quebrei a minha mão. Eu treinava em Las Vegas com o Wanderlei Silva e também dava aulas em sua academia. O Wanderlei me acompanhou em duas lutas, uma na China e outra nos EUA, e em ambas as lutas quebrei a mão novamente. Eu me lembro de nocautear um atleta no Texas e correr até meu corner e dizer meio que sem graça para o Wanderlei: quebrei a mão novamente (risos)”, relembrou.

Michael Costa chegou a assinar contrato com o Bellator em 2012, mas acabou nunca lutando pela organização por conta da lesão na mão. “Minha carreira internacional foi muito conturbada. Eu iria lutar contra o Lyman Good e machuquei minha mão em um sparring uma semana antes da luta. Em 2013 foi a gota d’água e resolvi me aposentar do MMA. Fui lutar no Japão e novamente quebrei a minha mão aos 30 segundos do primeiro round. Essa foi minha sétima lesão e tive que passar por mais uma cirurgia, e hoje carrego uma placa de titânio e seis parafusos na mão direita”, revelou o ex-lutador.

Mudança para treinador e convite para o TUF

Após ser forçado a se aposentar do MMA por conta das lesões, Michael Costa decidiu virar treinador, função que ele já vinha exercendo desde que se mudou para os Estados Unidos para treinar e dar aulas na Wand Fight Team, em Las Vegas. Mas não foi um processo fácil. Michael revela que sofreu de depressão por quase um ano antes de realmente estar preparado para o novo desafio de sua vida.

“Eu aceitei o que o destino tinha reservado para mim e entendi que parar de lutar era a decisão mais sensata a se tomar naquele momento. Eu entrei em um processo de depressão e fiquei quase um ano assim. Mas foi nesse período que passei a me interessar por treinar atletas. Eu precisava me sentir útil e a minha saúde mental retornou nesse processo de ajudar outros atletas. Eu tive a oportunidade de trabalhar com muitos atletas renomados e também de participar de quatro edições do TUF como treinador. Tive o privilégio de trabalhar com atletas como o Khabib Nurmagomedov, Rafael dos Anjos, Cris Cyborg, Fabrício Werdum, Maurício Shogun, Wanderlei Silva, entre muitos outros”.

A velha frase “há males que vem para o bem” parece cair como uma luva para Michael Costa. A depressão despertou outros interesses e ele chegou a fazer cursos de oratória, treinamentos de comportamento humano e contratou até um mentor do instituto Dale Carnegie para treiná-lo. Com isso, ele passou a desenvolver outros trabalhos como palestrante de liderança em empresas, realizou trabalho com crianças com problemas comportamentais em escolas públicas de Las Vegas e também passou a ajudar crianças com síndrome de down e com problemas de obesidade.

“O meu interesse por esse trabalho foi crescendo cada vez mais e, quando menos percebi, eu estava exercendo o que tinha aprendido. Deixei de me interessar apenas por atletas e passei a me interessar mais por pessoas. Participo de trabalhos nas escolas públicas de Las Vegas em um projeto chamado “Pay-Back”. São escolas públicas que cuidam de crianças que têm sérios problemas de comportamento devido ao ambiente de onde vieram. Crianças de 12 anos que foram pegas roubando, outras que tem pais que traficavam ou se prostituíam etc. Eu tinha o trabalho de ajudar essas crianças a construírem uma nova história e novos paradigmas, pois a maioria dessas crianças tem uma autoimagem muito ruim a respeito de quem são. Por terem vindo de ambientes hostis, elas inconscientemente se sentem predestinadas ao fracasso”, explicou Michael Costa.

“Fiz trabalhos também com uma das maiores instituições de crianças com síndrome de down aqui da América. A instituição se chama “Opportunity Village”. Esse, sem dúvida, foi um dos projetos que mais me orgulho de ter trabalhado. As crianças com síndrome de down são super sinceras a respeito dos seus sentimentos e eu jamais imaginei que elas pudessem se sentir excluídas por outras crianças. Faço muitos outros trabalhos com os alunos da Wand Fight Team e nunca cobrei um centavo. Eu fiz um treinamento chamado “The Road Success”. O programa tinha duração de quatro semanas com quatro horas de treinamento diário, sendo duas horas de condicionamento físico e duas horas de treinamento de desenvolvimento pessoal, para que eles pudessem definir melhor os seus objetivos, pudessem ter melhores hábitos e assim começarem a planejar as suas carreiras”, concluiu Michael Costa, que em breve vai lançar no Brasil e nos Estados Unidos o livro “Manual do atleta de MMA - Como construir uma carreira sólida no esporte”.

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