Pesquisador resgata importância do Flu na história olímpica do Brasil

Na semana em que se celebra o centenário das primeiras medalhas do país, em Antuérpia, COB relembra papel-chave do Tricolor, que foi pioneiro em estruturas esportivas na época

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Na semana em que se celebra o centenário das primeiras medalhas olímpicas do país, em Antuérpia-1920, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) resgatou a importância do Fluminense nos primeiros capítulos da história do país no evento.

Logo no primeiro dia de participação dos brasileiros em uma edição de Jogos Olímpicos, foram conquistadas as duas primeiras medalhas com Afrânio Costa, prata na pistola de tiro livre, e o bronze por equipes na mesma prova. No dia seguinte, foi a vez do ouro de Guilherme Paraense, na pistola rápida 30m. Os dois medalhistas individuais eram atletas do Fluminense. Mas se engana quem pensa que essa é a única ligação do "Tricolor das Laranjeiras" com o início do esporte olímpico brasileiro.

Foi no recém-fundado estande de tiro do clube que a equipe de tiro finalizou a preparação para Antuérpia 1920. E isso indo contra a grande parte da opinião pública.

- Na década de 1910 começou a se organizar o olimpismo brasileiro. O escritor Coelho Netto, cadeira de número 2 da Academia Brasileira de Letras, foi fundamental na difusão desse movimento. Ele era um entusiasta do desenvolvimento do esporte no país. Em suas crônicas, sempre defendeu o crescimento do futebol e de outras modalidades esportivas, pois acreditava que a prática era importante para a construção de valores morais e educativos na sociedade - explicou o jornalista e pesquisador do Fluminense, Dhaniel Cohen.

- Outros intelectuais, porém, como Lima Barreto e Graciliano Ramos, eram críticos ferozes. Graciliano, por exemplo, defendia apenas a promoção de esportes genuinamente nacionais, como porrete, cachação, queda de braço, entre outros - completou.

O início da organização do Movimento Olímpico no Brasil se dá, por exemplo, pela fundação do Comitê Olímpico do Brasil em 1914, a pedido de Raul do Rio Branco, embaixador e membro do Comitê Olímpico Internacional. No mesmo ano surgiu a Federação Brasileira de Sports, que dois anos depois passou a se chamar Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e que foi responsável por organizar a missão brasileira na Bélgica.

A concepção simultânea das duas entidades evidenciava o sentido complementar de suas funções: centralizar e coordenar os esportes em âmbito nacional e representar o Brasil no cenário esportivo internacional, não somente para os Jogos Olímpicos, mas para as competições do calendário das Federações Internacionais. Nesse cenário, o Fluminense, fundado por Oscar Cox em 1902, se tornou pioneiro em estruturas esportivas, incluindo o Estádio das Laranjeiras, o primeiro de cimento da América Latina.

- Entre 1916 e 1931, o clube teve como presidente Arnaldo Guinle, que ao longo de sua gestão fez inúmeras obras, construindo estádio, ginásio, piscina, quadras, tudo com o objetivo de incentivar a prática de inúmeros esportes pela sede - revelou Cohen.

Em 1919, pouco depois da realização do Sul-Americano de Seleções (atual Copa América) no Estádio de Laranjeiras, houve a inauguração de um moderno estande de tiro no Fluminense. Assim, alguns dos melhores atiradores do país, como Guilherme Paraense e Afrânio Costa, começaram a treinar no clube a partir de agosto de 1919. A preparação da equipe olímpica contou ainda com a presença dos gaúchos Sebastião Wolf (alemão radicado em Porto Alegre) e Dario Barbosa e de Fernando Soledade.

O resultado da preparação é bastante conhecido, três medalhas, sendo as duas individuais para os atiradores do Fluminense. No retorno ao país, a maior cerimônia em homenagem aos feitos extraordinários dos brasileiros não poderia ser em outro local: o belíssimo Salão Nobre das Laranjeiras.

- Epitácio Pessoa, presidente da República, e Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense, deram uma placa para cada um reconhecendo o grande feito dos atletas para a imagem do Brasil - contou Cohen.

Uma prova da importância do Fluminense foi dada pelo próprio Afrânio, que foi o chefe da equipe de tiro e depois diretor da modalidade no clube. Ele pediu que seu acervo fosse doado ao Tricolor e, por isso, as medalhas de prata e bronze e as pistolas utilizadas na competição por ele estão expostas na Sala de Troféus na sede do clube.

- Ele era um torcedor apaixonado, sempre dizia que fez tudo pelo Fluminense e que o troféu era do clube. O Fluminense pode se orgulhar de ter a primeira medalha olímpica do Brasil porque, pelo que ele dizia, as medalhas eram do Fluminense e não dele - disse Cristina Balthazar, sobrinha neta de Afrânio.

Mas essa história não para por aí. Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência e era preciso um grande evento para marcar a data. O governo brasileiro, estimulado pelo sucesso do Sul-Americano de Seleções em 1919 e também empolgado com as primeiras medalhas olímpicas do país conquistadas em 1920, solicitou que o Fluminense organizasse os Jogos Olímpicos Latino-Americanos, precursor dos Jogos Pan-Americanos. A competição teve a aprovação do COI.

- O Fluminense já tinha as instalações esportivas mais modernas do continente, mas precisaria adaptar o seu espaço para o megaevento. O Governo se comprometeu a ajudar financeiramente, mas não arcou com nada e coube ao próprio Fluminense realizar todos os investimentos para viabilizar os jogos, que foram um sucesso, contando com dezenas de milhares de torcedores presentes para acompanhar as competições - explicou Dhaniel.

A competição contou com a participação de 500 atletas de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, no período de 27 de agosto a 15 de outubro, disputando 12 modalidades esportivas, juntamente com mais 700 de outros eventos esportivos internacionais paralelos, com um público total de 162.000 espectadores. Durante o evento fez-se um acordo histórico internacional no sentido de se criarem outros Comitês Olímpicos Nacionais na América do Sul, contando inclusive com a presença do Conde Henri de Baillet Latour, vice presidente do COI.

O sucesso da competição foi tão grande que dois dos principais organizadores, Arnaldo Guinle, então presidente do Fluminense, e José Ferreira Santos, que viria a ser presidente do COB, foram eleitos membros do COI (21ª Sessão, Roma) no ano seguinte. Mais uma prova da fé do Movimento Olímpico no esporte do Brasil, que começou com o convite do Pierre de Coubertin a Raul do Rio Branco para integrar o COI em 1913 e teve grandes personagens, como Afrânio Costa e Arnaldo Guinle, e clubes, como o Fluminense, como propulsores das atuais 129 medalhas olímpicas.