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O fantasma do LCA: por que a lesão que frustrou Júlia Kudiess assombra o vôlei feminino

Jogadoras de vôlei têm maior incidência de rupturas do ligamento cruzado anterior que outros atletas

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Lance|Do R7

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Julia Kudiess pela seleção brasileira Reprodução/Instagram

A nova lesão sofrida por Júlia Kudiess durante a VNL (Liga das Nações) reacendeu um alerta frequente no vôlei feminino: a alta incidência de rupturas do LCA (Ligamento Cruzado Anterior) entre atletas da modalidade. Para a central da seleção brasileira, o diagnóstico teve um peso ainda maior por se tratar da mesma lesão que interrompeu seu sonho olímpico em 2024.

Na temporada passada, a jogadora sofreu a ruptura do LCA do joelho esquerdo durante a VNL. Após meses de recuperação, cirurgia e retorno gradual às quadras, Kudiess retomou espaço entre as titulares de José Roberto Guimarães e voltou a se destacar entre as melhores bloqueadoras da competição até sofrer uma nova lesão, desta vez no joelho direito.

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O histórico recente da central ajuda a dimensionar a gravidade da contusão. Considerado um dos principais estabilizadores do joelho, o ligamento cruzado anterior é fundamental para movimentos de mudança de direção, impulsão e aterrissagem, sendo extremamente exigido em modalidades como o vôlei. O mecanismo mais comum da ruptura acontece justamente no momento da queda após um salto, quando o joelho se aproxima da extensão e sofre movimentos de rotação e deslocamento para dentro, muitas vezes sem qualquer contato com outra atleta.

Em entrevista ao Lance, o médico ortopedista e cirurgião do joelho Dr. Ricardo Soares, do Hospital Ortopédico AACD, explica que o retorno ao esporte costuma acontecer apenas a partir do nono mês após a cirurgia, o que pode demorar ainda mais dependendo da recuperação funcional da atleta e da presença de lesões associadas.

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Casos recentes mostram impacto das lesões na seleção brasileira

O caso de Júlia Kudiess está longe de ser isolado no vôlei brasileiro. Nos últimos anos, outras atletas que passaram pela seleção brasileira também sofreram rupturas do ligamento cruzado anterior e precisaram interromper suas carreiras temporariamente.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Carol Gattaz. Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio e uma das referências da posição, a central rompeu o LCA do joelho direito em 2023, quando ainda defendia o Minas. Após cirurgia e nove meses afastada das quadras, retornou ao alto rendimento em 2024.

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Em março de 2025, no entanto, sofreu uma nova ruptura, desta vez no joelho esquerdo, durante partida entre Praia Clube e Brusque pela Superliga. O lance aconteceu após uma ação de bloqueio, quando a atleta aterrissou e sofreu a torção no joelho, mecanismo bastante semelhante ao observado na maioria das lesões da modalidade.

Outro nome recente é o da central Lara Nobre, que também sofreu ruptura do LCA durante o ciclo da seleção brasileira e precisou passar por um longo período afastada das quadras.

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A coincidência entre os casos de Carol Gattaz, Lara Nobre, Júlia Kudiess pode levar à impressão de que as centrais estariam mais expostas ao problema por participarem constantemente dos bloqueios e realizarem um grande número de saltos durante as partidas. No entanto, o especialista descarta uma relação direta entre a posição e a maior incidência da lesão.

— Os estudos não demonstram que a posição de central apresenta risco significativamente maior do que ponteiras ou opostas. O principal fator de risco está relacionado às aterrissagens e mudanças rápidas de direção, independentemente da posição da atleta — explicou Dr. Ricardo Soares.

O histórico do vôlei brasileiro reforça essa avaliação. Atletas de outras posições também já sofreram lesões semelhantes ao longo da carreira, como a ponteira bicampeã olímpica Jaqueline Carvalho, mostrando que a vulnerabilidade está ligada às exigências da modalidade e não exclusivamente às centrais.

Questionado sobre o número de casos registrados recentemente na seleção brasileira feminina, o especialista destacou a influência da carga física acumulada ao longo das temporadas.

— A lesão do LCA é multifatorial. Além dos fatores já citados, o calendário intenso, o grande volume de treinos e jogos, a repetição de saltos e a fadiga acumulada aumentam o risco de lesão.

Por que mulheres sofrem mais lesões de LCA?

A literatura médica aponta que mulheres apresentam maior incidência de rupturas do LCA em comparação aos homens em esportes que exigem saltos, rotações e mudanças rápidas de direção, como vôlei, futebol, basquete e handebol.

Estudos indicam que fatores anatômicos, hormonais e biomecânicos ajudam a explicar essa diferença. Entre eles estão diferenças no alinhamento entre quadril, joelho e tornozelo, além da maior laxidão ligamentar e dos padrões de movimento durante aterrissagens e desacelerações.

— As mulheres apresentam um risco aproximadamente de duas a oito vezes maior, dependendo do esporte. Os principais fatores associados são anatômicos, hormonais, biomecânicos e neuromusculares — afirmou o ortopedista.

O chamado valgo dinâmico, quando o joelho se desloca para dentro durante a queda após o salto, é considerado um dos mecanismos clássicos da ruptura do LCA e aparece com frequência em lesões do voleibol feminino.

Levantamento publicado pela Revista Brasileira de Ortopedia mostrou que, entre 240 lesões intra-articulares do joelho analisadas em atletas, a incidência de lesão isolada do LCA foi de 0,33 a cada mil horas de jogo, enquanto as rupturas associadas ao menisco chegaram a 0,47 a cada mil horas de prática esportiva.

No recorte específico do voleibol, o estudo identificou que mulheres representaram parcela significativa dos casos analisados, o que reforça a preocupação crescente das equipes médicas com a prevenção desse tipo de lesão.

Questionado se o vôlei está entre os esportes com maior incidência desse tipo de contusão entre mulheres, Dr. Ricardo Soares foi direto:

— O voleibol está entre as modalidades femininas com maior incidência de ruptura do LCA, ao lado do futebol, basquete e handebol, devido às características dos movimentos exigidos pelo esporte.

Por isso, clubes e seleções têm investido cada vez mais em programas preventivos voltados ao fortalecimento muscular, ao treinamento neuromuscular e à correção dos padrões de aterrissagem e movimentação das atletas.

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