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No futebol de hoje, Mendonça seria reverenciado e milionário

Ex-craque, que era um meia clássico, morreu quase esquecido, em uma época em que jogadores com muito menos talento são celebridades

Botafogo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Mendonça era um jogador acima da média
Mendonça era um jogador acima da média

A bola vinha do alto, silenciosa, como se atravessasse o céu da tarde carioca, para cair no peito de Mendonça, meia clássico do Botafogo dos anos 70 e 80. Era o porto mais seguro que poderia cair naquele Rio de Janeiro tão romântico quanto o futebol daqueles tempos.

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A jogada, no entanto, não havia terminado. A plateia, sempre composta de pelo menos 135 mil pessoas, voltava-se toda para aquele momento. Deixava de lado a cervejinha, passava a mão na testa para espantar o calor das arquibancadas, mas não tirava o olho da cena.

Se houvesse celulares com fotos, elas estariam se multiplicando em mensagens instantâneas do WhatsApp, para eternizar e confirmar o testemunho do momento épico. Mendonça amortecendo uma bola.


E Mendonça então, a deixava deslizar à sua frente, como se a controlasse com o magnetismo de seus olhos, para dominá-la antes de cair no chão, no peito do seu pé, apresentando-a com suavidade ao gramado, e, com um toque elegante, como se lustrasse o sapato, a transferisse, de trivela, de chapa, para o companheiro na cara do gol.

Muitas vezes, era ele mesmo quem tinha de fazer, neste caso, o trabalho limpo. Livrava-se ele do marcador, com uma ginga elegante, dava mais dois ou três tapas nela, como se moldasse uma escultura de barro, e tocava para as redes. Foi assim que ele fez com Júnior, no terceiro gol do Botafogo contra o Flamengo, em abril de 1981, naquele gol que ficou conhecido como "Baila Comigo", música de Rita Lee que era sucesso na época.


Quem viu Mendonça jogar, como eu, portanto, sente uma pontada de dor quando fica sabendo da maneira com que ele morreu. Internado por meses em um hospital, após tropeçar. Ele caiu de uma escada da estação de trem Guilherme da Silveira, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro. Distante dos holofotes.

Distante daquele passado. Com suas passadas esquecidas, seus pés rendidos ao descontrole do mundo, ao contrário do que fazia quando era jogador, controlando as jogadas e, com isso, as atenções da multidão. 


Ele morreu quase esquecido, aos 63 anos. Com pouco dinheiro. Sem conseguir driblar o alcoolismo. Atualmente, jogadores que atraem muito menos pessoas ao estádio, em um futebol muito menos romântico, sem gol com nome de música, recebem milhares, milhões de dólares por mês, por ano, para desafogar a fama em baladas ou em futilidades sem limites.

Até o Botafogo, hoje fragilizado, parece ressentir-se da ausência de um Mendonça, um jogador de estirpe que também simbolizou uma era.

As cifras evoluíram, ou melhor, incharam em um mundo cada vez mais robotizado, obediente a padrões de marketing, de gestões estratégicas, de target. Quando o talento vem acompanhado de uma série de interesses. E muitos medianos úteis têm vez.

No Botafogo, clube pelo qual mais jogou, entre 1975 e 1982, ele fez 116 gols em 340 jogos. Ainda atuou pela Portuguesa, Palmeiras, Santos, Al Saad (Qatar), Grêmio, Internacional de Santa Maria (RS), Fortaleza, América (RN) e Barra Mansa (RJ). 

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Ficou longe de se tornar milionário. Como seria hoje um media kit a respeito de Mendonça? O seu press kit seria dos mais repletos. Seria fácil para uma assessoria gerar mídia espontânea sobre ele.

Pena que jogou em outra fase. Ele não teve tempo de ser um bom "produto". E, como diria Chico Buarque, morreu na contramão atrapalhando o trânsito. Se fosse hoje, uma empresa assinaria o naming right por tudo que Mendonça fez, pagando-lhe milhões. E ele, ainda, teria todo o direito de exigir royalties, para sempre.

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