Jesus generaliza, mas não erra de todo sobre técnicos ultrapassados
Tem muito treinador se sentindo ameaçado, incomodado ou no mínimo enciumado com o sucesso de Mister e Sampaoli - e isso é uma maravilha
Futebol|Eduardo Marini, do R7

O técnico do Flamengo, o português Jorge Jesus, fez declarações polêmicas à revista francesa So Foot. A entrevista foi veiculada dias atrás, mas ele a concedeu em 2018, quando comandava o Al-Hilal, da Arábia Saudita, e não havia sinais, ao menos públicos, de que treinaria o rubro-negro ou outro clube brasileiro.
Disse Jesus: "o treinador brasileiro foi um pouco ultrapassado em tudo o que diz respeito ao treinamento. Você acha que isso acontece por quê? Porque sempre tiveram grandes jogadores, que resolviam sozinhos os problemas táticos. Os treinadores não foram obrigados a pensar e a criar ideias coletivas. Por isso, acabaram ultrapassados. Agora começa a mudar. Querem todos vir para a Europa entender nossa metodologia de treinamento. Mas as crianças brasileiras continuam a jogar na rua - e é na rua que a gente cria os talentos".
Como era de se esperar, as declarações desencadearam alguns contra-ataques em direção ao Mister. “Não me sinto ultrapassado. Essa pergunta poderia ser feita a ele hoje, com maior conhecimento maior do futebol brasileiro (...). Acho que agora seria uma maneira melhor de falar”, afirmou Cuca, treinador do São Paulo. “Falou por ouvir falar. Acho que não conhecia o futebol brasileiro”, emendou o agora comentarista Muricy Ramalho.
“Jesus ganhou apenas o campeonato português, com o Benfica. Joguei lá cinco temporadas. É obrigação de qualquer treinador e jogador. Jorge não foi campeão, por exemplo, da Taça Uefa e da Champions. Passou longe disso”, bateu ainda mais forte Argel Fucks, do CSA.
Jesus peca pela generalização. Isso faz muitos condenarem seu raciocínio na íntegra, a começar, convenientemente, por suas partes dolorosamente verdadeiras. Mas, para além do erro, é difícil não concordar com algumas verdades históricas embutidas em sua opinião.
Uma delas: a histórica abundância de craques no Brasil gerou, como irônico efeito colateral, uma acomodação em grande parte dos treinadores brasileiros de ponta na busca de esquemas e propostas táticas mais ousadas e envolventes. A defasagem identificada por Jesus é filha direta dessa acomodação. Como consequência, a maionese desanda quando o conjunto de pé de obra não consegue fazer sozinho a diferença.
O fenômeno nem é novo. Zagallo, ousadíssimo ao montar em 1970 um esquema ofensivo, recheado de craques “da camisa dez” em seus clubes, na maior equipe que o mundo viu jogar, foi surpreendido e atropelado taticamente quatro anos depois, sem dó nem piedade, na então Alemanha Ocidental, pelo holandês Marinus Jacobus Hendricus Michels, o General Rinus Michels, comandante da seleção de seu país naquela copa, na vitória de 2 a 0 sobre os brasileiros, considerado por muitos o maior técnico da história.
Outra: não é verdade, como defendem Vanderlei Luxemburgo e muitos de seus colegas, que os técnicos estrangeiros não trazem ensinamento aos brasileiros. Não só ensinam como aprendem. Trocam vivências e informações.
Jesus admitiu que deveria ter consultado auxiliares brasileiros no Flamengo com maior profundidade antes de ter escolhido os batedores de pênalti na disputa perdida para o Athletico-PR na Copa do Brasil. Totalmente integrado aos locais de sua comissão, o argentino Jorge Sampaoli consulta fartamente a turma no Santos.

Não fosse assim, seria difícil entender porque Luxemburgo e praticamente todos os seus contemporâneos dedicaram períodos de observação na Europa para conhecer a estrutura de grandes clubes e, claro, acompanhar por algum tempo a rotina de trabalho de alguns treinadores.
Mais uma: o raciocínio de que técnicos brasileiros devem continuar a monopolizar o mercado do País (como se isso ainda ocorresse em qualquer outra atividade no mundo que funciona) porque os estrangeiros que estiveram por aqui não fizeram grande coisa é igualmente equivocado – e, em alguns casos, desonesto.
Há bons exemplos de treinadores de fora com belas carreiras no País. Portugueses, russos, haitianos, holandeses ou brasileiros, existem os seguintes tipos de treinadores por aqui e em todo o mundo: os acima da média, os bons, os medianos e os ruins. Em treinamentos, jogos e em qualquer outra atividade, os primeiros nessa lista qualitativa sempre farão muito bem ao Brasil e a qualquer ponto do planeta em que estejam.
O futebol brasileiro entrou numa espiral de chatice nos últimos anos. É esvaziado de seus craques a cada abertura de janela estrangeira. Com o que fica por aqui, técnicos montam retrancas insossas, “casinhas fechadas”, mesmo com elencos qualificados, para preservar antes o emprego do que a posição das equipes nas tabelas. Insuportável.
A bola solta, bonita, dinâmica e agressiva jogada nas últimas semanas por Santos e Flamengo está dando uma chacoalhada nessa preguiça de conveniência, no sapato esgarçado para não apertar o calo.
Técnicos adeptos da passividade e dos esquemas mesquinhos começam a perceber que algo está mudando. E que poderão ser atropelados caso não respondam à postura corajosa e elogiável de Sampaoli e Jesus com um mínimo de ousadia.
A necessidade faz o sapo pular. É um ditado comum no Estado do Rio e em outros pontos do País. À beira do rio, na pedra gelada, à fresca da sobra, com comida ao alcance do golpe de língua, os sapos e as rãs saltam da imobilidade confortável exclusivamente quando um ser humano, cobra ou outro os ameaça ou incomoda. É o que parece ocorrer agora com os técnicos brasileiros.
Que venham outros como Sampaoli e Jesus. É uma maravilha perceber técnicos brasileiros ameaçados, incomodados ou ao menos com ciúme do que veem os gringos fazerem de bom. Tomara que continuem a ter sucesso.
O futebol melhorará muito em nossos campos. E a gente terá bons motivos para agradecer.
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Por conta da quarentena instaurada no Brasil por causa da pandemia de coronavírus, ao menos uma notícia os grandes clubes do Brasil receberam. Isso porque um levantamento feito pelo IBOPE Repucom, a maioria das equipes ganhou seguidores nos últimos dias. Mas quem será que lidera a disputa? O R7 traz a classificação dos clubes em número de seguidores no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube. Confira:




































