Futebol Goleiros surgiram há 150 anos para desafiar a lógica do futebol 

Goleiros surgiram há 150 anos para desafiar a lógica do futebol 

Posição nasceu oito anos após a invenção do futebol na Inglaterra. Dia do goleiro é comemorado nesta segunda-feira (26)

  • Futebol | Paulo Guilherme, do R7

Banner do Museu do Futebol explica que a posição de goleiro surgiu em 1871, há 150 anos

Banner do Museu do Futebol explica que a posição de goleiro surgiu em 1871, há 150 anos

Paulo Guilherme/R7

Ser goleiro não se refere só a futebol. É uma lição de vida. Afinal, os goleiros desafiam a lógica do esporte. Todo mundo assiste jogo para ver gol. E os goleiros não vão deixar a bola entrar. Nesta segunda-feira (26) se comemora o Dia do Goleiro.

Aprendi isso quando me debrucei sobre o tema para escrever meu primeiro livro, "Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1" (Editora Alameda), lançado pouco antes da Copa do Mundo de 2006. Naquela época, só se falava no "quadrado mágico" (Ronaldo Fenômeno, Adriano Imperador, Kaká e Ronaldinho Gaúcho), no Real Madrid dos galáticos, no surgimento de Messi e Cristiano Ronaldo. Quem é que queria saber de goleiro?

Nem os ingleses que inventaram o futebol queriam saber. Lançaram o futebol em 1863 sem goleiro. Todo mundo atacava e não tinha ninguém para defender. Era uma bagunça. Ninguém podia pegar a bola com as mãos. Aquilo não ia ter futuro. Levou oito anos desse futebol capenga para, em 1871, aparecer a figura do goleiro. Há 150 anos.

Livro sobre a história da posição de goleiro foi lançado em 2006

Livro sobre a história da posição de goleiro foi lançado em 2006

Divulgação

E desde então o futebol foi mudando suas regras para deixar a vida do goleiro ainda mais difícil. A bola ficou mais rápida, a grama mais escorregadia, a regra do impedimento tirou zagueiros que protegiam o goleiro. Quiseram até aumentar o tamanho das traves, que medem 2,44 metros de altura por 7,32 metros de largura. Mas esses heróis da resistência não se deram por vencidos e aprenderam a virar protagonistas.

Ser goleiro é ser super-herói. São 29 itens que um bom goleiro precisa cumprir: peso proporcional, estatura adequada, presença, elasticidade, saber saltar, saber cair, velocidade, habilidade, flexibilidade, treinamento, agilidade, coordenação, ritmo de jogo, reflexo, equilíbrio, força, resistência, firmeza, valentia, tranquilidade, decisão, capacidade de atenção múltipla, golpe de vista, visão, confiança, força de vontade, responsabilidade, inteligência e sorte. E ainda precisa evitar 7 pecados capitais: a preocupação, o medo, a superstição, o desdém, o pânico, a soberba e a insegurança.

Esses atributos foram definidos pelo professor Raul Carlesso, que desenvolveu um método de fundamentos que ajudou na formação de diversos arqueiros brasileiros e foi o primeiro preparador de goleiros a ser inserido na Comissão Técnica da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo, no Mundial da Alemanha de 1974. Carlesso e Reginaldo Bielinski decidiram criar o Dia do Goleiro para ser comemorado e a partir de 1976, sempre no em 26 de abril, em uma homenagem ao goleiro Manga, que na época era o campeão brasileiro pelo Internacional.

Cássio defende chute de Diego Souza e se eterniza na memória do Corinthians

Cássio defende chute de Diego Souza e se eterniza na memória do Corinthians

Alex Silva/Estadão Conteúdo - 25.03.2012

Pergunta para qualquer corintiano se no título da Libertadores de 2012 ele lembra mais do gol do Sheik contra o Boca ou da defesa do Cássio contra o Diego Souza, do Vasco? A um palmeirense, se o São Marcos não é o grande herói do Palmeiras com os pênaltis que pegou e até os frangos que tomou? E ao sãopaulino, com o Rogério Ceni com suas defesas impossíveis e os gols de falta que o transformaram no M1TO?

O escritor Conan Doyle, antes de criar o Sherlock Holmes, foi o primeiro goleiro do Portsmouth, da Inglaterra. Outros dois escritores, Albert Camus (de "A peste") e Vladimir Nabokov ("Nikita") também jogavam no gol. O presidente Café Filho foi goleiro do Alecrim de Natal. E o Che Guevara também ficava no gol.

O primeiro ídolo do futebol brasileiro não foi o Friedenreich nem o Leônidas da Silva. Nosso primeiro herói foi um goleiro, Marcos Carneiro de Mendonça, carregado pela torcida depois de fechar o gol na decisão do Campeonato Sul-Americano de 1919, o primeiro título internacional importante do futebol brasileiro.

Barbosa queimou as traves do Maracanã depois de ser apontado como culpado pela derrota na final de 1950, mas sua carreira não acabou ali. Ao contrário, seguiu sendo um grande craque e só não foi o goleiro do Brasil no Mundial de 1954 porque quebrou a perna seis meses antes.

Félix, goleiro do tri, provou ao mundo que era digno de jogar com Pelé, Rivellino, Tostão e Jairzinho. Disputou cinco jogos da Copa de 1970 sem usar luvas. Deixou para usá-las só na final para calar a boca dos críticos.

Leão mostrou que goleiro pode sim ter o maior salário do time, porque é a figura mais importante do elenco. Tem de saber falar bem, aproveitar que usa o uniforme diferente para valorizar sua imagem. É um líder dentro e fora de campo.

Waldir Peres, depois do frango que levou na estreia do Brasil na Copa de 1982, ensinou que é só uma bola que passou, é preciso estar atento para não deixar a próxima passar.

Taffarel e o pênalti perdido pelo italiano Baggio na final da Copa de 1994

Taffarel e o pênalti perdido pelo italiano Baggio na final da Copa de 1994

Paulo Guilherme/Arquivo pessoal

Jaguaré, goleiro do Vasco no final dos anos 20, foi para a Europa, brilhou no Olympique de Marselha, e espantou o mundo como excelente cobrador de pênalti. Muitos anos depois vieram Chilavert, Higuita e Ceni, os goleiros-artilheiro.

Gylmar dos Santos Neves quase foi mandado embora do Corinthians pouco antes de ser bicampeão do mundo. Castilho, ídolo do Fluminense, mandou amputar o dedinho da mão para não ter de operar e desfalcar seu time. Goleiro é resistência.

Banner no Museu do Futebol fala sobre a origem do 'frango' do goleiro

Banner no Museu do Futebol fala sobre a origem do 'frango' do goleiro

Paulo Guilherme/R7

Grosics, camisa 1 daquela seleção fantástica da Hungria, vice da Copa de 1954, foi perseguido pelo governo acusado de traição. Enquanto seu colega Puskas já tinha fugido do regime comunista para ganhar dinheiro no Real Madrid, Grosics jamais abandonou sua pátria. Resiliência.

Taffarel foi o rei da superação. Mudou de nome (era chamado de Cláudio) depois de levar um ‘frango’ em um Gre-Nal no início de carreira. Defendeu pênalti, ganhou o tetra e ficou desempregado, treinando com padres na Itália. Não se abateu e voltou à seleção. Conquistou a Europa e abriu portas para outros brasileiros brilharem. Goleiro ninguém derruba.

Marcos jogou toda a campanha do penta com o triplo da concentração. Não podia repetir o erro que cometeu atuando pelo Palmeiras na decisão no Mundial de Clubes de 1999, quando falhou ao tentar cortar o cruzamento e levou o gol do Manchester United.

Enquanto o peso de ser a camisa 10 levou a craque Marta a perder pênalti na Olimpíada Rio 2016, Bárbara, a goleira da nossa seleção, foi lá e defendeu. Weverton também pegou pênalti na conquista do ouro olímpico. Todo mundo pode errar, menos quem está no gol.

Assim resumi o que aprendi com esses craques o que é ser goleiro: "A cada dia, a todo instante, no trabalho, no amor, na vida em família, todos nós estamos sujeitos a levar um gol inesperado, a tomar um frango, ou a fazer uma defesa milagrosa. O goleiro que falha na quarta-feira é o mesmo que defende um pênalti no domingo. Ele não se destrói pelo erro nem se ensoberbece com o triunfo. O segredo da vida que todo goleiro conhece como nenhum outro personagem do futebol é saber se manter equilibrado na linha do gol, que separa a glória do fiasco. Porque a bola não para de rolar".

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