Futebol Futebol brasileiro tem um episódio de violência a cada quatro dias

Futebol brasileiro tem um episódio de violência a cada quatro dias

Só neste ano, foram 15 casos de invasões de campo, brigas entre torcidas e ônibus atacados. Jogadores e técnicos se posicionam

Agência Estado - Esportes
Um dos casos foi um ataque contra o ônibus do Bahia, que quase deixou Danilo Fernandes cego

Um dos casos foi um ataque contra o ônibus do Bahia, que quase deixou Danilo Fernandes cego

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O futebol brasileiro registrou cerca de 15 casos de violência só neste início de ano, entre ônibus atacados, invasões de campo e brigas entre torcedores dentro e fora dos estádios, segundo levantamento feito pela reportagem. Ou seja, um episódio a cada quatro dias. As cenas lamentáveis fizeram o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, e o atacante Willian, do Corinthians, se posicionarem nos últimos dias cobrando medidas das autoridades.

"Hoje entrei aqui nessa coletiva de imprensa, me disseram que tinha havido uma rixa num jogo, inclusive acho que morreu uma pessoa. É preciso morrer quantas mais? Os organismos, quer sejam os do futebol, quer sejam extrafutebol, têm de assumir, dar as caras, exercer os cargos que têm. Pelo bem do futebol brasileiro. De todos nós. Que se juntem a CBF, quem organiza estaduais, o Ministério Público, mas que se tomem medidas", disse Abel Ferreira, que já trabalhou em Portugal e na Grécia, dois locais que também conviveram recentemente com episódios de violência.

Em pelo menos quatro episódios de violência neste ano, os jogadores foram as vítimas diretas da agressão. Os ônibus das delegações de Grêmio e Bahia foram alvo de atentados em que dois jogadores acabaram atingidos. No clube gaúcho, o atentado gerou um traumatismo craniano no paraguaio Villasanti. No caso da equipe baiana, o goleiro Danilo Fernandes ficou ferido pelos estilhaços e precisou passar por um procedimento em um dos olhos.

No fim de fevereiro, a torcida do Paraná invadiu o gramado aos 40 minutos do segundo tempo e agrediu os jogadores. O resultado rebaixou o time para a segunda divisão do campeonato estadual. Na súmula da partida, o árbitro Leonardo Ferreira Lima informou que, ao conversar com o comandante da Polícia Militar Marcos Roberto, o oficial disse que "não teria condições de garantir a segurança para o prosseguimento da partida".

O presidente em exercício da Federação Nacional de Atletas (Fenapaf), Alfredo Sampaio, criticou as entidades esportivas por não chamarem a responsabilidade para o problema e afirmou que o órgão enviou à CBF uma lista de sugestões para combater os atos de violência como parte de um ofício em que é cobrado mais rigor nas punições aos responsáveis pela onda de violência. Também fez contato com o governo federal.

"Todo mundo fala, fica indignado, só que ninguém toma atitude. Já enviamos um ofício ao STJD e à CBF com toda a nossa indignação do nosso medo de um dia chegar em um homicídio e sugerindo medidas imediatas. Não tivemos resposta ainda", protesta Sampaio.

"Uma das sugestões é que os ônibus que transportam os atletas sejam blindados. São medidas que podem soar absurdas, mas precisam ser feitas. Jogo que tenha risco de rebaixamento não pode ser em estádio pequeno. Clubes que tiverem esses tipos de agressão já, de cara, ficam seis meses sem jogar com público. O clube não é 100% culpado disso, mas precisamos punir o clube para punir o torcedor. Precisamos pedir que as federações e a CBF sejam responsáveis por essa violência. Nem quando alguém morrer vai parar. Vai virar estatística", completa.

Antes vice-presidente, ele assumiu o cargo após o afastamento do presidente e vai ficar na vaga por quatro meses até a convocação de novas eleições.

CBF CRIA COMISSÃO DE COMBATE À VIOLÊNCIA NOS ESTÁDIOS

A Assembleia Geral Extraordinária que ratificou as mudanças feitas no estatuto da CBF também serviu para os cartolas iniciarem — ainda que timidamente — uma movimentação contra a violência nos estádios. Os dirigentes decidiram criar um grupo de estudos e convocar representantes de diferentes segmentos da sociedade para debater o tema. Por ora, essa é a medida mais efetiva tomada pela entidade máxima do futebol brasileiro para tentar diminuir as cenas de barbárie vistas neste início de temporada.

"Não só os clubes da Série A, mas os das Séries B, C e D, imprensa, OAB, STJD e todos os outros segmentos, inclusive internacionais (serão chamados), para que possamos trabalhar sempre no sentido de combater a violência nos estádios. Isso tem prejudicado muito o futebol em todo o mundo, principalmente nestas últimas situações aqui no Brasil", sustentou Rodrigues.

SINDICATO DE JOGADORES E FEDERAÇÃO DE TÉCNICOS COBRAM MEDIDAS

Washington Mascarenhas, ex-jogador e presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Município de São Paulo (Siafmsp), disse que os atletas estão bastante assustados com as cenas de violência.

"Eles ficam preocupados. Como ele vai jogar dessa maneira? Se ele perder o jogo, ele vai sair do estádio preocupado com o que pode acontecer. Tenho conversado com vários atletas. As postagens e notas das entidades são pouco. A gente depende da CBF, das federações e dos clubes. É preciso criar dispositivos para proteger os atletas. Não adianta a gente ficar nessa discussão toda vez e nada muda. Aconteceu um ano atrás, dois anos atrás, três... Na minha época de jogador também acontecia. Está aumentando cada vez mais. A coisa está ficando séria."

O vice-presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, Vagner Mancini, foi outro a condenar os graves episódios recentes e pediu às autoridades urgência para coibir a violência. "Eu penso nisso com muita seriedade. Quem trabalha no futebol não está seguro. Não está seguro nos CTs, não está seguro nos aeroportos, não está seguro nas ruas. Vivemos num país onde 'somos reféns da impunidade'. Ou a Justiça altera rapidamente a lei e começa a punir os envolvidos/culpados ou logo estaremos lamentando algum desastre."

Casos de violência não são novidade no futebol brasileiro. Diferentes medidas para coibir a violência nos estádios já foram utilizadas. Policiamento reforçado, jogos com portões fechados, torcida única em clássicos e proibição de entrada de material de torcida, como instrumentos e bandeirões. Mas episódios que mancham o esporte voltam a acontecer repetidamente.

TECNOLOGIA DE RECONHECIMENTO FACIAL NO MINEIRÃO

Antes da partida entre Atlético-MG e Cruzeiro pelo Campeonato Mineiro realizada no último domingo (6), um homem foi morto baleado em uma briga entre dezenas de torcedores em um bairro a 11 km do Mineirão. Até o momento, ninguém foi preso.

No clássico, o Juizado do Torcedor teve ajuda de uma tecnologia de reconhecimento facial para combater atos de violência. A ferramenta foi desenvolvida entre o Tribunal de Justiça de Minas Gerais e a empresa Biomtech para fazer o controle de comparecimento periódico dos presos em regime aberto. Recentemente, a companhia foi procurada pelo Juizado do Torcedor para expandir a tecnologia para eventos esportivos. Todo torcedor que estivesse no estádio ou ao redor dele e fosse pego praticando qualquer ato ilícito seria encaminhado à delegacia do estádio para fazer seu cadastro facial.

No clássico, três pessoas foram detidas por atos ilícitos. O primeiro pulou a catraca e aceitou o acordo de transação penal, tendo que comparecer ao fórum de Justiça durante quatro meses em dias de jogos do Atlético-MG em Belo Horizonte. Nele, fará o reconhecimento facial para comprovar que estava fora do estádio. Um segundo torcedor foi encaminhado ao Juizado do Torcedor por briga com os seguranças e não recebeu essa opção, pois já respondia por outros dois antecedentes. Ele também abriu processo contra os seguranças. Já o terceiro foi acusado de tumulto, mas não aceitou o benefício por se considerar vítima e responderá a processo.

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