'Furacão da Copa', Jairzinho diz: 'Fui o mais decisivo'

Ex-atacante falou ao R7 sobre a conquista da Copa de 70, que completa 50 anos neste mês, e ressaltou sua importância naquele time mágico

Jairzinho fez gol em todos os jogos da Copa

Jairzinho fez gol em todos os jogos da Copa

Agência estado/03-06-1970

Quando um furacão passa por uma cidade, deixa telhas caídas, postes arrancados, emaranhados de fios elétricos, águas nervosas. Do rastro da destruição, nada mais parecerá emergir inteiro.

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Na mente de Jairzinho, no entanto, quase tudo se manteve intacto, 50 anos depois dele ter arrastado defesas com arrancadas, dribles, cruzamentos e gols naquele mês de junho de 1970, quando o Brasil levou o tricampeonato mundial na Copa do México. E ele ficou conhecido como o "Furacão da Copa", por sua velocidade e ímpeto.

"Entrei para aquela Copa totalmente focado e preparado. Não mudei minha característica de partir para cima. Sempre fui ofensivo, não jogava de lado. E era o momento maior para mostrar isso. Quem entra em uma disputa como um Mundial tem que entender que está preparado para ganhar de quem quer que seja. Foi isso que passou pela minha cabeça e isso que me levou a ir bem e conseguir o que consegui", revela ao R7 o ex-craque. 

Os anos fizeram as rajadas de vento se transformarem no sopro de uma terna lembrança. Jair Ventura Filho, o carioca Jairzinho, aos 75 anos, se mantém ligado ao futebol, acompanhando os jogos e a carreira de seu filho, o treinador Jair Ventura.

Do alto de sua experiência, ele mostra que uma conquista não chega da noite para o dia. Vem amadurecendo após aprendizados anteriores. Jairzinho mesmo vivenciou isso ao observar craques como Garrincha, Nílton Santos, Didi e Quarentinha logo que chegou às categorias de base do Botafogo, aos 15 anos, em 1959.

Sobre aqueles anos iniciais, Jairzinho conta que o Pan-Americano de 1963, em São Paulo, no qual fez dois gols, foi fundamental para ele se acostumar a jogar com a camisa do Brasil, contra rivais de nível. A conquista do ouro naquela ocasião foi um prenúncio de sua consagração na seleção, apesar do tropeço brasileiro na Copa de 1966.

"Ter participado daquele Pan-Americano foi muito importante. Fui elogiado, escolhido como um dos melhores, após enfrentar rivais tão difíceis como em um Mundial: Argentina, Uruguai. Essa vivência eu adquiri ainda jovem, naquele Pan. E desde então nunca deixei de entrar com personalidade em qualquer jogo que fosse. Aquela experiência me ajudou na conquista do tri", revela.

Sem receio

Basta ver os melhores momentos do jogo entre Brasil e Inglaterra naquele Mundial para constatar o que Jairzinho diz. Ponta-de-lança no Botafogo, ele se adaptou rápido à função de ponta-direita na seleção. Fez o gol da vitória contra os ingleses, além de ter sido um tormento para o lateral Terry Cooper.

Logo aos 9 do primeiro tempo, quando o Brasil ainda observava os ingleses, seguindo a estratégia de Zagallo, ele protagonizou um dos lances mais bem construídos da história do futebol.

Carlos Alberto dá um lançamento espetacular, com efeito, em paralelo, e encontra Jairzinho correndo nas costas de Cooper. Ele ganha na corrida e ainda dá um drible no marcador. Depois, em velocidade, com perfeição, cruza para Pelé.

O Rei sobe como se flutuasse no ar, cabeceia de uma maneira que se tornou referência. Para o chão. E o gol só não aconteceu porque, para interromper uma jogada assim, só mesmo uma defesa milagrosa, como fez o goleiro Gordon Banks.

"Mas o Félix também fez uma defesa sensacional (em cabeçada de Lee), minutos depois. A atuação do setor de defesa do Brasil também foi importante. Vocês jornalistas botam defeito em tudo. É a cultura do brasileiro. Alguém dá moral? Sempre tem algo de errado", ressalta.

Quando a seleção deixou o Brasil, no início de maio, pairavam mesmo desconfianças. O time foi vaiado nos amistosos contra a Bulgária e a Áustria. É verdade que os torcedores lotaram o aeroporto do Galeão para a despedida, mais em função do que a seleção simbolizava do que da crença na vitória.

Nelson Rodrigues, em uma coluna, até escreveu, em tom de ironia. "A melhor coisa para a Seleção foi deixar o Brasil. Terminou o exílio do escrete..."

As dúvidas só serviram para unir o grupo. Jairzinho considera que a partida contra a Inglaterra, a segunda do Brasil naquela Copa, foi o teste de fogo para a seleção.

"Não tive receio ao entrar para aquela partida. Esse tipo de comportamento não é para mim. E com certeza não era para o grupo todo. A nossa vitória elástica na estreia, contra a Tchecoslováquia (4 a 1) nos deu moral. Os ingleses eram os últimos campeões, mas entrar em campo vindo de uma vitória como aquela faz a confiança aumentar, independentemente do adversário", comenta.

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Artilheiro da seleção

A equipe inglesa teve uma atitude de "fair play", horas depois. Com Bob Charlton, Bob Moore e Alan Ball no time, não acreditavam, inicialmente, que iriam perder a disputa, mesmo com o adversário tendo Pelé, Rivellino e companhia. A frustração pela derrota, porém, foi substituída por uma admiração pela seleção brasileira, conta Jairzinho.

"Depois do jogo, estávamos no restaurante do hotel. O segurança veio perguntar se poderia deixar a delegação inglesa entrar, eles queriam nos cumprimentar. Claro que a entrada foi permitida, paramos de comer para cumprimentá-los e conversar. Eles tiveram uma atitude maravilhosa, educativa", revela o ex-atacante.

Jairzinho foi um dos mais requisitados pelos ingleses. Mas ser chamado de "Furacão da Copa", para ele, não retrata com exatidão a maneira com que foi visto por alguns críticos.

Tendo feito gols em todos os jogos daquela Copa, um total de sete, ele terminou como o artilheiro do time. Jairzinho, contudo, acredita que deveria ter tido um reconhecimento ainda maior.

"Depois que o Brasil ganhou, falou-se muito de Pelé, Rivellino. Mas o Jairzinho foi o jogador mais decisivo. Fez gols nos momentos mais importantes. Contra Tchecoslováquia definiu o placar, fazendo o terceiro e o quarto. Contra a Inglaterra, fez o gol da vitória. Fez gol contra a Romênia. Contra o Peru, estava 3 a 2, Jair fez gol que deu um desânimo a eles. Contra o Uruguai, estava empatado e Jairzinho fez o segundo, que deu maior tranquilidade. E na final, fez o terceiro, ampliando o placar", diz.

Mesmo inconformado com alguns comentários, ele guarda com orgulho aqueles momentos. E isso é o mais importante.

"Alguns falam em sorte. Isso é qualidade. Alguns reconhecem, outros não. Mas o importante é o que ficou para a história. É por isso que em momentos comemorativos como esse (50 anos do tri), somos muito procurados. Estamos agora novamente vivendo a alegria que levamos para o futebol e para o mundo".

A satisfação pelo dever cumprido, para Jairzinho, é que deve ser o foco. Ou melhor, o epicentro.

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