Disputa Braz/Bap ameaça jogar no lixo o projeto de hegemonia do Fla

Vices prolongam disputa por poder e candidatura à presidência em meio a ciumeira, vaidade e primadonismo periférico. Tudo o que os rivais querem

Temperamental Bap (esq.) festejou com Pelaipe, mas teria pedido sua cabeça

Temperamental Bap (esq.) festejou com Pelaipe, mas teria pedido sua cabeça

Alexandre Vidal/CRF

Disputas por poder com ferramentas grotescas, punhaladas pelas costas, surtos de primadonismo periférico e muita, muita vaidade e ciumeira.

A equação, filha direta das gestões amadoras no futebol brasileiro, até as reforçadas por profissionais das diretorias para baixo, implodiu todos os projetos de hegemonia que a sorte e o que sobrou de boa conduta deram a clubes em diferentes momentos.

Para lembrar os mais recentes, o São Paulo, em meados dos anos 2000, o Corinthians e o Palmeiras, na década de 1990, viram a supremacia escapar pela porta da cozinha quando picuinhas e instabilidade política invadiram a casa pela sala.

A crise gerada no Flamengo pela dispensa dos serviços do gerente de futebol Paulo Pelaipe, com elementos dessa equação destruidora, pode ser o início do processo de autossabotagem de tudo o que o rubro negro da Gávea construiu em 2019 e, pior, do que poderá realizar nos próximos anos com o seu poderio.

Apesar dos bastidores efervescentes, Pelaipe, legal e tecnicamente, não foi demitido. Seu contrato acabou e o clube optou por não mais renová-lo. Algo diferente da demissão clássica, com rescisão de carteira assinada ou contrato em vigor e a admissão, pelo contratante, de todas as despesas legais ou multas contratuais.

Não foram os casos, mas nem é esse o ponto da discórdia. Os problemas vieram com a forma como os serviços do gerente foram deixados de lado e, acima de tudo, com quem estaria por trás da decisão.

Pelaipe estava sob o guarda-chuva profissional do vice-presidente de futebol, Marcos Braz. Em dezembro, na volta do Catar, após a decisão do Mundial, recebeu de Braz a informação de que teria o contrato renovado.

Chegou a tratar detalhes da próxima temporada num jantar, em Portugal, com o técnico Jorge Jesus. Como Braz, Pelaipe é admirado pelo Mister e o elenco. Um dos medos dos torcedores e mesmo de dirigentes e profissionais do clube é que a dispensa de Pelaipe ajude Jesus a decidir pela não renovação de seu contrato, que termina em maio de 2020.

Na segunda-feira (6), véspera da apresentação dos jogadores que disputarão o Campeonato Carioca, e com o elenco principal e o presidente do clube, Rodolfo Landim, ainda em férias, Pelaipe foi surpreendido por um e-mail, enviado pelo departamento de recursos humanos do clube e não pelos superiores, informando que ele estava fora dos planos para 2020.

Braz e Spindel disseram-se surpresos. Alegaram não terem sido informados sobre a decisão. “Minha relação com Bap é boa. Não há problema. Não fui e nem sinto-me diminuído com a não renovação. Foi uma decisão do presidente, como ocorre em vários contratos não renovados no futebol a cada final de ano. Mas confesso que não soube dela antes de Pelaipe receber o e-mail. Se querem saber se gostei disso, confesso que não”, declarou Braz.

Momentos depois do envio do e-mail, surgiu a informação de que a desistência de renovação do contrato teria tido o dedo do vice de relações externas, Luiz Eduardo Baptista, o Bap. Com o apoio do vice de comunicação, o publicitário Gustavo Oliveira, Bap teria atravessado Braz e Spindel e convencido Landim a abrir mão de Pelaipe.

“A decisão foi do presidente Landim. Não tive participação. Defendi a volta de Braz ao futebol do Flamengo. Ele faz um bom trabalho. Agora, não posso dizer que não gostei da decisão”, admitiu Bap na quinta-feira (9) em entrevista à ESPN Brasil.

A torcida do clube, que considera Braz vencedor pé quente e negociante sedutor na tarefa de trazer craques, baixou o guatambu em Bap. Nas redes sociais, “Fora Bap”, “Deixe o Braz em paz” e “Fora vaidoso” eram os pedidos e gritos de ordem mais leves. Sobrou até para Landim, chamado de “frouxo”, “banana” e de coisas do ramo por supostamente ter-se deixado influenciar por Bap ao abrir mão de Pelaipe.

Braz tem apoio da torcida na disputa com o poderoso Bap, que os dois disfarçam

Braz tem apoio da torcida na disputa com o poderoso Bap, que os dois disfarçam

Alexandre Vidal/CRF

Engenheiro civil, Bap foi um dos criadores da Chapa Azul, em 2012, que incluía o ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello. É um executivo respeitado. Presidiu a operadora de tevê por assinatura Sky por 15 anos, até setembro do ano passado, inclusive na condução da fusão da marca com a DirecTV. Carrega a fama de ter temperamento forte, arroubos frequentes de vaidade e ego denso e volumoso o suficiente para ocupar uma segunda cadeira ao seu lado nos lugares em que se acomoda.

Embora Bap e Braz mordam os lábios e se esforcem para desmentir publicamente, há consenso até entre os urubus que sobrevoam os gramados da Gávea de que os dois não se bicam. Ou, no mínimo, disputam espaço e poder no Flamengo com objetivos pessoais inalienáveis distintos.

O mandato presidencial no Fla é de três anos, com possibilidade de reeleição. Ao assumir, Landim declarou não pretender outro mandato seguido. Braz e Bap sonham em presidir o Flamengo. E agora, claro, disputam a bênção do presidente vencedor para ser o candidato dos Azuis ao final de 2021 ou três anos depois, caso Landim decida disputar o segundo mandato.

A tentativa de ocupação dos mesmos espaços por Bap e Braz começou ficou mais evidente nos primeiros meses de 2019, quando o vice de futebol venceu a batalha pela saída do treinador Abel Braga. Mesmo apoiado por Bap, entusiasta de sua contratação, Abel foi substituído pelo português Jorge Jesus, nome que teria surgido no clube por indicação de Pelaipe.

Com o belo trabalho e os títulos sob o comando de Mister, as cotações de Braz e Pelaipe subiram entre os torcedores e nos corredores rubro negros. As coisas pareciam amenizadas até vazar, no Qatar, a informação de que Landim, a diretoria e jogadores estavam em conflito sobre a forma de divisão dos prêmios milionários pelas conquistas do ano. Os atletas queriam 70% para o elenco e 30% aos funcionários. Presidente e dirigentes achavam muito para os trabalhadores. Prevaleceu algo mais próximo do desejo dos jogadores.

Pelaipe foi acusado por integrantes da diretoria de ter vazado a informação a informação sobre a polêmica dos prêmios, o que poderia ter causado instabilidade no grupo momentos antes da partida contra o Liverpool.

Diante da suspeita, os curtos-circuitos voltaram a surgir na relação entre Braz e Bap. O vice de relações externas teria convencido Landim de que fora Pelaipe quem realmente entregou o caso aos jornalistas, o que teria gerado a má notícia recebida por Pelaipe na volta das férias.

Braz tem estrela e sabe conquistar bons corações e mentes para o clube. Faz um bom trabalho e sua participação decisiva no sucesso visto em 2019 é inegável.

Bap, apesar das recaídas de egos e das insinuadas pulsões por atropelamentos em pistas alheias, tem reconhecidas influência, capacidade de captação de bons negócios, contratos e parceiros, algo fundamental para qualquer clube brasileiro neste momento.

Possui ainda todas as condições de ajudar o clube a continuar a crescer, tornar-se cada vez mais viável em termos estruturais e financeiros e, como consequência, conquistar mais títulos.

O ambicioso Flamengo de hoje precisa dos dois com intenções e ocupação de espaços complentares, e não um em rota de colisão, como se percebe agora apesar das tentativas de ambos de disfarçar o clima.

Mesmo porque, como foi dito, é exatamente assim que sempre se começou, nos clubes brasileiros, a se destruir o erguido e a deixar de erguer o que se pretende construir.