Deseja que seu time não seja vítima de mala branca? Exija competência
Uma parte não vê mal em pagar para vencer. Outra acha antiético. Mas, acima de tudo, o que derruba time grande é gestão ineficiente e boicote de boleiro
Futebol|Eduardo Marini, do R7

Desde a adoção dos pontos corridos no Brasileirão, em 2003, uma questão é colocada todo ano na reta final dos campeonatos: haverá mala branca, o incentivo financeiro de um clube para que outro ganhe de um terceiro, ajudando quem liberou a grana a ser campeão, beliscar uma vaga na Libertadores ou, sobretudo, escapulir do rebaixamento?
Em 2019, o título foi decidido a favor do Flamengo na 34ª rodada. O Athetico-PR tem vaga na Libertadores por ter conquistado a Copa do Brasil. Santos, Palmeiras e Grêmio também estão garantidos na fase de grupos e tudo indica que a sexta vaga do pelotão será do São Paulo.
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No outro extremo da tabela, Avaí e Chapecoense estão matematicamente despachados para a Segunda Divisão em 2020. O CSA, em 18º com 32 pontos, tem 99% de chances de também cair, atesta o site Infobola.
Neste cenário, a duas rodadas do final da competição, as especulações sobre a lubrificação de bolsos e irrigação de mãos como incentivo para vitórias concentram-se na batalha entre o desesperado Cruzeiro (86% de possibilidade de queda) e o Ceará (15% de chances) para ver quem conseguirá fugir da última vaga ainda escancarada no elevador da decepção rumo ao Z4 e à Segundona.
Por enquanto, quem está com a guilhotina no pescoço, em 17º lugar, com 36 pontos, é o Cruzeiro. Além da incômoda desvantagem de dois pontos em relação aos cearenses, o time mineiro vai encarar dois ossos duros de roer nessa reta final: o Grêmio, na quinta-feira (5), em Porto Alegre, e o Palmeiras, no domingo (8), em casa, no Mineirão. O Ceará, em 16º com 38 pontos, terá missão teoricamente menos dura: pegará o Corinthians na quarta-feira (4), em casa, e o Botafogo no domingo (8), no Engenhão, no Rio de Janeiro.
Para escapar do rebaixamento, olhando de perto o Ceará despencar no abismo, o Cruzeiro precisará vencer suas duas partidas e torcer por ao menos uma derrota do Vozão. Ou vencer uma delas e esperar que os cearenses percam as duas. Se o Ceará empatar uma vencer a outra, somando quatro pontos, o rebaixado será o Cruzeiro ainda que a equipe mineira ganhe de goleada as duas partidas, pois em número de vitórias, o primeiro quesito de desempate, o Vozão tem quatro a mais do que o time mineiro.
Será que o gigante Cruzeiro, um dos poucos clubes brasileiros sem visita à Segundona no histórico, chegará junto com mala branca para incentivar jogadores do Corinthians e/ou do Botafogo a vencerem o Ceará?
Neste ponto cabe lembrar a diferença entre as malas preta e branca no esporte.
Mala preta é quando um clube ou alguém oferece dinheiro para outra equipe ou atleta perder do próprio time que fez a oferta ou de um terceiro adversário. Aqui não há discussão: trata-se de crime grosso, jogo sujo, postura inaceitável dos dois lados, atitude vergonhosa que justifica punição esportiva grave e penas judiciais cíveis e penais.
Mala branca é quando um clube ou indivíduo oferece grana para outro dar de tudo para vencer uma terceira equipe. Há quem não veja nela problema ético pelo fato de incentivar a busca da vitória, e não a entrega à derrota. Consideram um incentivo a mais para que atletas se esforcem em atingir o êxito, ou seja, exatamente a meta para a qual são pagos por suas equipes.
De outro lado, uma boa parcela não vê com bons olhos também a mala branca. Para esse grupo, o esforço adicional gerado pelo combustível extra do incentivo de terceiros é igualmente injustificável. O argumento é o seguinte: se uma equipe colocou em campo um adicional de sangue e dedicação em um nível não exibido durante toda a temporada, e ganhou uma partida difícil que talvez não vencesse sem o alegrete, como aceitar a situação sob os pontos de vista ético e esportivo?
A questão é procedente. Requer uma discussão muito apurada, rigorosa e equilibrada. De qualquer forma, para equipes e torcedores que chegam à reta final na situação de Cruzeiro ou do Ceará, antes de propor o debate sobre a validade ética da mala branca, o melhor é exigir de seus grupos competência suficiente para marcar ao menos os pontos que livrem os clubes da guilhotina do Z4.
Mesmo porque, ao final das contas, a culpa pelo rebaixamento é menos do incentivo e mais da incompetência de um time de respeito que chega à 38ª rodada na zona da confusão.
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