Cruzeiro parece ter executado tudo milimetricamente pensado para cair

No futebol, terminar errado o que começa errado é didático. Que a B ensine a não mais apostar que o erro será premiado e ainda permitirá rir dos corretos

Thiago Neves foi a estrela às avessas de um ano de equívocos da Raposa

Thiago Neves foi a estrela às avessas de um ano de equívocos da Raposa

Reprodução/Twitter

O Cruzeiro, seus cartolas, jogadores e torcedores parecem ter se unido num esforço conjunto hercúleo, sobrenatural, para, juntos, fazerem tudo, rigorosamente tudo o que fosse possível, milimetricamente pensado, para estrear em grande estilo, em 2019, no cada vez mais gordo clube dos gigantes rebaixados na história. A Raposa sequer fez sua parte e perdeu para o Palmeiras neste domingo (8), na última rodada do Brasileirão.

Como no futebol brasileiro, na suprema maioria dos casos, é didático e saudável terminar errado o que começou errado, resta torcer para que a Segundona traga ao clube de maior torcida de Minas Gerais um aprendizado minimamente útil ao seu futuro.

Poucas vezes um grande clube brasileiro cometeu tantos erros, em praticamente todas as suas frentes, em uma única temporada. A caminha conjunta rumo ao caos começou a apresentar resultados concretos no final de maio, quando explodiram denúncias de irregularidades na gestão.

Entre as principais estão negociações ilegais de atletas com agentes não legalizados na CBF, transações de direitos econômicos de jogadores da base muito abaixo da idade mínima permitida pelas leis do País, e pagamento de torcidas organizadas para defender o clube e seus cartolas. As revelações custaram ao então todo poderoso Itair Machado seu cargo de vice-presidente de futebol.
A essa altura, ainda reinava como treinador Mano Menezes, contratado em julho de 2016. Foi o primeiro dos quatro na temporada. Depois vieram, pela ordem, Rogério Ceni, Abel Braga e Adilson Batista. A alta rotatividade de treinadores, sem o devido respaldo para tomar as decisões mais duras, foi outro erro decisivo no embarque no elevador da Segundona.

A essas trapalhadas se juntaram o atraso de salários e a inaceitável falta de ação efetiva diante da escancarada, pouco amigável e quase assumida resistência a Ceni exercida por Tiago Neves e boa parte do elenco.

O ano em que a infelicidade foi azul caminhou para o fim com o vazamento de um áudio constrangedor. Nele, Tiago Neves cobra do presidente do conselho deliberativo e gestor do futebol do Cruzeiro, Zezé Perrella, o pagamento de 60% por cento de um salário pendente.

Perrella sofreu na gestão com denúncias, atraso de pagamento e birra de boleiro

Perrella sofreu na gestão com denúncias, atraso de pagamento e birra de boleiro

Reprodução/Twitter

E, em aparente tom conciliatório, daqueles que a rigor funcionam ironicamente como um xeque-mate para minar a autoridade de quem deveria reagir do outro lado, o jogador condiciona o recebimento do atrasado à abertura de mão, ao menos em seu caso, do recebimento do bicho em caso de vitória na partida seguinte, contra o CSA.

“Fala Zezé. Bom dia, cara. Deixa eu te falar uma coisa: eu estou pensando aqui, sei que está difícil para vocês aí arrumarem recursos, sei que está correndo atrás, mas estou falando por mim, não falei com ninguém, tá?, do time. Vê se você não consegue pelo menos pagar esses outros 60% antes do jogo de quinta-feira, que aí não precisa nem ter bicho, entendeu?, para ganhar jogo”, pediu Thiago Neves.

E continuou: “É uma motivação a mais para a gente, cara, acertar o salário aí. Aí você não precisa arrumar uma premiação para ganhar o jogo, porque a obrigação nossa é ganhar esse jogo. Tá louco! Se a gente não ganhar do CSA, pelo amor de Deus. Pô, faz esse esforço para a gente aí, até quinta-feira, tentar acertar esses 60% que estão atrasados do salário”, disse o jogador no áudio.

No jogo em jogo, no dia 28 de novembro, contra o CSA, no Mineirão, Thiago perdeu um pênalti de forma bisonha - e o Cruzeiro a partida, por 1 a 0. Nos dias seguintes, o meia chegou a receber ameaça de morte de torcedores, se é que elementos desse porte merecem tal rótulo.

Da CBF aos clubes, a gestão do futebol brasileiro historicamente foi tão comprometida com falta de seriedade, honestidade e competência que, não raro, a realidade ainda costuma premiar, exatamente, os não sérios, desonestos e incompetentes ao final das temporadas. E essa gente de todas as partes e clubes que aposta em bloco no pacto do caos ainda gargalha da cara de quem busca a correção das coisas como princípio e método.

Como quem aposta no errado muitas vezes não paga por isso, os incompetentes não enxergam qualquer motivo para melhorar. Ao mesmo tempo, os corretos sentem-se desestimulados a buscar a eficiência.
Por isso, apesar de a Série A perder muito, ao menos em 2020, com a ausência do Cruzeiro, um inequívoco gigante vencedor de nosso futebol, talvez a B funcione como um castigo capaz de levar a uma conclusão importante.

Qual? A de que talvez não valha mais a pena apostar em posturas atrasadas, medievais, ineficientes, amadoras, desonestas e desprovidas de conhecimento para se dar bem no futebol nativo.

Que seja assim de agora em diante.

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