Vistos dificultam viagem de torcedores de mais de um quarto das seleções da Copa
Torcedores de 11 países classificados enfrentam altas taxas de rejeição de visto para os EUA
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O sonho era acompanhar de perto a seleção brasileira na Copa do Mundo. Mas, para Raphaela Coiado, moradora de Hortolândia, no interior de São Paulo, a experiência terminou antes mesmo de começar. “A família do meu marido tem supermercados, e foi convidado pra participar de uma ação da Coca-Cola, e eles tinham um ranking com metas para serem atingidas. Ficamos em primeiro lugar, e ganhamos para um ganhador e acompanhante, lutamos por muito tempo pra isso. Só soubemos mesmo que iriamos, um mês antes da Copa acontecer, no dia 3 de maio de 2026”.
Ela e o marido foram contemplados em uma promoção vinculada à Coca-Cola e ganharam uma viagem completa para assistir à partida entre Brasil e Haiti, que aconteceu na sexta-feira, pela fase de grupos do torneio, nos Estados Unidos. O pacote incluía passagens aéreas, hospedagem, ingressos em camarote, open bar e todas as despesas pagas. O embarque, porém, nunca aconteceu.
Mesmo após contratar uma assessoria especializada para auxiliar no processo de solicitação do visto americano, Raphaela e outros cinco integrantes da família tiveram os pedidos negados durante entrevista realizada no Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.
Image (small) | Title “Raphaela e o esposo Kauan, que adoram futebol, perderam a oportunidade de assistir a uma partida da Copa por terem vistos negados”
A decisão surpreendeu a família. Segundo Raphaela, ninguém imaginava que os vistos seriam recusados, já que todos possuíam vínculos considerados sólidos com o Brasil, incluindo imóvel próprio e renda familiar estável.
Ao todo, seis pessoas participaram da entrevista consular e nenhuma conseguiu a autorização para viajar. Sem a possibilidade de embarcar para os Estados Unidos, a família precisou vender os ingressos que havia recebido na promoção por cerca de R$ 25 mil.
Apesar da compensação financeira, Raphaela afirma que o dinheiro não diminuiu a frustração de perder uma oportunidade que considera única. “Eu pagaria mil vezes, devolveria esse dinheiro, se falassem hoje para mim: ‘Raphaela, a gente vai te dar o seu visto agora’. Eu falava: ‘Moço, estou devolvendo o dinheiro, me devolve a minha passagem’. Porque nada no mundo paga uma experiência dessa.”
Ela conta que a dimensão da perda ficou ainda mais evidente quando recebeu os materiais preparados para a viagem. “Foi uma coisa super frustrante. Inclusive, ontem eu recebi um kit com todos os acessórios, camisetas para usar no dia do jogo. Eu chorei muito porque eu não ia nessa viagem.”
O caso da brasileira não é isolado. Segundo uma análise realizada pela BBC World Service com base em dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos, torcedores de mais de um quarto dos países classificados para a Copa do Mundo enfrentam obstáculos para entrar no país-sede do torneio, seja por restrições migratórias, exigências mais rigorosas ou elevadas taxas de rejeição de vistos.
O levantamento aponta que 11 países classificados para a competição registram índices de recusa superiores a 40%. Em alguns casos, os números são ainda mais elevados. Na Jordânia, a taxa de rejeição chega a 57%. Já no Senegal, mais de 70% dos pedidos de visto são negados.
A reportagem da BBC também identificou situações semelhantes em outros países. Na Escócia, torcedores que já haviam recebido autorização para viajar relataram ter sido surpreendidos por mensagens enviadas de última hora informando que não poderiam mais embarcar para os Estados Unidos.
Na Argentina, a frustração foi tamanha que uma empresa decidiu entregar televisores gratuitamente para 100 torcedores que tiveram os pedidos de visto negados e perderam a chance de acompanhar os jogos presencialmente.
De acordo com a análise da BBC World Service, o cenário contrasta com o que ocorreu nas últimas quatro edições da Copa do Mundo. Nos torneios realizados na África do Sul, no Brasil, na Rússia e no Catar, foram criados mecanismos especiais para facilitar a entrada de torcedores estrangeiros.
Desta vez, os Estados Unidos não adotaram um processo específico de visto voltado para a Copa do Mundo. A principal iniciativa relacionada ao torneio é o Fifa Pass, sistema criado pela Fifa para direcionar portadores de ingressos a agendamentos prioritários nas entrevistas consulares.
No entanto, segundo a BBC World Service, a ferramenta apenas acelera o acesso ao atendimento e não aumenta as chances de aprovação do visto.
Para Raphaela, a negativa significou perder uma experiência que dificilmente será substituída. Mesmo após vender os ingressos e recuperar parte do valor envolvido na viagem, ela diz que abriria mão de tudo para ter a oportunidade de assistir ao Brasil em uma Copa do Mundo. “Eu devolveria todo o dinheiro. Nada paga uma experiência dessa”, resume.
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