Bom Senso FC se cala em relação ao comportamento dos jogadores
As propostas do grupo não apontam para questões como violência e indisciplina de atletas
Futebol|Eugenio Goussinsky, do R7

As reivindicações do Bom Senso FC chamaram a atenção da comunidade esportiva em um momento em que o Brasil discute a crise do futebol no País. Alguns especialistas em relacionamento humano, porém, apontam que o grupo dá atenção apenas à parte de organização e ao lado financeiro do esporte.
E não menciona, inclusive em seu livreto, o problema do comportamento inadequado de grande percentual dos jogadores.
Essa postura de atletas em campo, que se distancia dos reais objetivos do Esporte, vem assolando o futebol brasileiro, principalmente nos últimos anos. O psicólogo do Esporte, João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício Físico, coloca tal questão como prioritária.
— O Bom Senso deveria também priorizar e lutar por uma conduta mais equilibrada de atletas e de outros profissionais do futebol, como técnicos, fazendo com que prevaleça o respeito ao adversário e ao público e não o que temos visto muito por aí afora no futebol brasileiro.
O "por aí afora" citado por Cozac é mais do que evidente. Atualmente, não há uma jogada em que a arbitragem não seja cercada por jogadores ao tomar alguma decisão. Entradas desleais se multiplicam. Comemorações com gestos de tiro, de cortar a cabeça, são uma constante. Uma rivalidade pouco saudável entre os clubes muitas vezes é alimentada pelos próprios jogadores, com ofensas, empurrões e brigas.
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E o Bom Senso FC, que abriu uma importante frente para debater um futebol brasileiro mais justo e democrático, preferiu evitar estas questões, tão cruciais ou mais do que a do calendário e a do Fair Play Financeiro, conforme observou Cozac.
Para ele, entradas violentas e estresse também geram um enorme desgaste aos atletas. Tanto quanto o excesso de jogos. Muitos deles, contundidos, ficam semanas sem atuar e retornam com pouco ritmo, tendo de, em pouco tempo, jogar em nível máximo, o que pode gerar ainda mais lesões.
— Cabe aos atletas, representados pelo Bom Senso, uma análise profunda e verdadeira sobre estas questões. A preocupação inicial do Bom Senso é melhorar a qualidade do futebol brasileiro e dar melhores condições de trabalho aos jogadores, o que é louvável, mais é preciso um passo ainda mais adiante e dar a devida importância ao preparo psicológico e emocional de quem faz o espetáculo.
Segundo Cozac, na Europa, todos os grandes clubes têm departamentos de Psicologia do Esporte, algo que no Brasil ainda não existe.
— No Brasil, ainda há um preconceito violento por parte dos jogadores em relação ao que é a Psicologia do Esporte moderna. Muitas vezes até se chega à conclusão de que a causa de alguns problemas é emocional, mas praticamente não se toma providência para encarar de maneira verdadeira esta questão.
Na opinião de Cozac, ainda que dependam de iniciativas de dirigentes e dos técnicos, as soluções para a melhora da conduta passam muito mais pela atitude dos próprios jogadores. Caso contrário, o Bom Senso FC, em vez de colocar a questão da maneira mais realista, inclusive assumindo a responsabilidade da parte que o grupo representa, repetirá a famosa frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980): "O inferno são os outros".















