Futebol 'Após vitórias, machismo acaba', afirma 1ª técnica de time masculino 

'Após vitórias, machismo acaba', afirma 1ª técnica de time masculino 

Em depoimento exclusivo, Nilmara Alves conta luta por empoderamento feminino ao se tornar treinadora de equipe de futebol do Manthiqueira (SP)

'Após vitórias, machismo acaba', afirma 1ª técnica de time masculino 

Nilmara, a primeira mulher a treinar uma equipe masculina de futebol em SP

Nilmara, a primeira mulher a treinar uma equipe masculina de futebol em SP

Divulgação/Manthiqueira/Site oficial

“Se eu não tivesse resultados bons e rápidos no começo da minha carreira, talvez não estivesse aqui. Por causa do machismo, o espaço para a mulher no futebol é menor, bem menor.

Quando o Dado (de Oliveira, presidente do Manthiqueira, que disputa a Série A3 do Paulista) me apresentou a proposta para treinar o time, há seis anos, até achei que fosse brincadeira.

Assim que percebi que era sério, obviamente, topei. Não recusaria o desafio de ser a primeira treinadora no futebol masculino paulista."

Machismo

"A maioria dos torcedores ia para o campo para ver se era verdade mesmo que tinha uma mulher treinando o time. Já me mandaram ir para a cozinha, lavar louça e coisas do tipo. São comentários infelizes. Mas, desde o começo, já estava preparada para as críticas que as mulheres podem sofrer no futebol por causa do machismo.

O engraçado é o que aconteceu depois desse começo complicado. Teve um dia que jogamos contra o União [Mogi] e estávamos ganhando deles, jogando muito bem. A torcida deles começou a gritar: ‘Ão, Ão, Ão! Nilmara no União!’ Ter esse carinho foi muito legal para mim.”

Mulher e atleta

“Eu nasci e cresci em Aparecida, que é do lado do clube (Manthiqueira, em Guaratinguetá). Em casa, meus primos eram na maioria homens. Todos os finais de semana eles pulavam para o terraço de casa para jogar bola e eu ia assistir. Sempre faltava alguém para jogar. Aí eu entrava. Criei amor pelo esporte e passei a jogar com muita frequência.

Não só joguei bola como pratiquei corrida, vôlei e várias brincadeiras. Meu crescimento como pessoa foi muito ligado ao esporte. Não foi à toa que joguei por diversas equipes do interior de São Paulo entre os 17 e 28 anos. Inclusive atuei profissionalmente em parte desse tempo.”

Treinadora do Manthiqueira

“Depois disso, comecei a faculdade de Educação Física. Conheci o Dado e comecei a trabalhar com ele. Antes de me tornar treinadora, fui preparadora dos times de base do Manthiqueira.

Quando ele fez o convite, também fez questão de falar da filosofia do clube, que é muito diferente: o futebol é arte, então tem que ser vencido dentro das quatro linhas. Não tem essa de cavar falta, jogar o árbitro contra a torcida e ganhar na malandragem. Aprendemos a ter empatia. Sempre pensamos se o que fazemos para o outro é o que gostaríamos que fizessem para gente.

O Dado se inspirou na filosofia de [Immanuel] Kant (filósofo do século 18) para fundar o clube, há 12 anos. Essas ideias dele me ajudaram a ter certeza de que era isso que eu queria para mim."

Ascensão feminina

A treinadora de 36 anos faz preleção com os atletas do Manthiqueira

A treinadora de 36 anos faz preleção com os atletas do Manthiqueira

Divulgação/Manthiqueira/Site oficial

"Ficamos por cinco temporadas na quarta divisão paulista, e finalmente subimos para a Série A3 (terceira divisão), no ano passado.

Fiquei cinco meses fora do clube por questões particulares. Mas, agora que voltei, tive a honra de ser a primeira treinadora a estar no BID (Boletim Informativo Diário) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Essa conquista foi muito importante. É uma forma de incentivar as mulheres a participarem mais do futebol."

Nilmara voltou ao seu clube e foi a primeira treinadora a ter seu contrato no BID

Nilmara voltou ao seu clube e foi a primeira treinadora a ter seu contrato no BID

Divulgação/CBF/Site oficial - 18.01.2018

Machismo no futebol 

"Foi contra o Atlético Mogi, em maio de 2012. O técnico deles disse que não aceitava perder para uma mulher. Fomos para o intervalo perdendo por 3 a 0.

Percebi que os [meus] jogadores estavam fazendo tudo certo, mas estavam ansiosos. Então, conversei com eles no intervalo, sem broncas duras, e tranquilizei a equipe. Pedi para que pensassem passo a passo, a cada gol.

Quando eles voltaram, o jogo virou para 4 a 3 e saímos com a vitória. Eles só precisavam de calma, porque qualidade já tinham.

Foi muito bacana. O treinador do Atlético não podia ter um pensamento machista desses.

Independentemente de quem está à beira do campo, quem joga são os atletas. Eles são quem resolve dentro de campo."

Preconceito

"Hoje em dia não vejo mais preconceito. Nós já enfrentamos muitas equipes por São Paulo. Então,  já conhecem meu trabalho e me respeitam.

Sempre dão alguma palavra de apoio e incentivo. É gratificante ver o reconhecimento com a presença da mulher no futebol."

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