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BRASILEIRO 2022

Abel entrega um Flamengo pior do que o da sua chegada

Sob muita pressão da torcida e de dirigentes da Gávea, técnico não resistiu e pediu demissão nesta quarta-feira (29)

Futebol|Eduardo Marini, do R7

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Abel tinha admiração dos jogadores mas não conseguiu implantar suas ideias
Abel tinha admiração dos jogadores mas não conseguiu implantar suas ideias

Ao contrário de parte considerável, talvez a maior, dos protagonistas do futebol brasileiro, o carioca Abel Carlos da Silva Braga, o técnico Abel, é aquele tipo de sujeito e de profissional para quem os nobres sempre desejam o melhor. Sincero, afetivo, historicamente solidário com quem está em dificuldade a seu lado e educado no trato a qualquer um no dia-a-dia.

O Abel em questão não é, no entanto, o sujeito descrito acima. Nem o zagueiro osso duro de roer dos tempos de Fluminense, Vasco e Paris Saint-Germain. Tampouco o comandante que livrou a Ponte Preta do rebaixamento para a Série B, em 2003, numa arrancada memorável, muitas vezes pagando do próprio bolso salários de jogadores num clube com oito meses de folha em atraso. Ou ainda o líder carismático que conduziu o Internacional ao título mundial de clubes em 2006 ao vencer o Barcelona por 1 a 0, em Yokohama, no Japão.


O Abel de quem se trata agora é o técnico do Flamengo em 2019 – e este, se tomarmos como regra e compasso as ambições dele e do clube, admitamos, infelizmente fracassou. Seis meses depois, e apesar dos reforços, entrega um Flamengo mais desequilibrado e bem pior do que o da sua chegada. Sob seu comando, o rubro-negro jogou 32 vezes, venceu 19, empatou oito e perdeu cinco. Fez 59 gols e levou 29. Tomou 79 cartões amarelos e quatro vermelhos. Fez 65 dos 96 pontos disputados, ou 66,7% do total.

Vistos exclusivamente sob a ótica do aproveitamento, os dois pontos ganhos a cada três disputados não configuram um resultado exatamente ruim. A questão é analisar os parâmetros em que cada um deles foi conquistado. No Brasileirão 2019, foram dez pontos em seis partidas. Percentual bem menor: 55,5%. E o mais grave: com uma performance absolutamente irregular, errante, de um time espaçado, mal posicionado e sem padrão de jogo definido.


Uma equipe quase sempre imatura, que joga qualquer resquício de plano tático no lixo ao reagir com ímpeto amador à histórica empolgação de sua torcida. Assim, corre riscos desnecessários, sobretudo no Maracanã, chamando os adversários para seu campo e sofrendo gols e derrotas inaceitáveis.

Os números são bons parceiros porque só traem quando se erra na conta. E os do Flamengo no Brasileirão 2019 não deixam dúvida: a equipe tomou nove gols em seis partidas, média de um e meio por jogo. Ou seja, também na média, o time tem entrado em campo com a obrigação de fazer ao menos dois. O índice certamente cairia mesmo com Abel no comando. Mas, como ilustração, se a toada se mantiver nesse nível, a equipe chegará ao final do campeonato com inexplicáveis 57 gols contra. No campeonato passado, com um elenco mais modesto e as trocas de técnico, foram apenas 29 gols levados, ou seja, praticamente a metade do que se pode projetar agora.


Insistir em Bruno Henrique como centroavante foi um dos poucos pontos positivos
Insistir em Bruno Henrique como centroavante foi um dos poucos pontos positivos

Um dos poucos méritos notados nesta temporada de Abel foi o de insistir em posicionar como centroavante Bruno Henrique, atualmente artilheiro do clube na temporada, com 13 gols, e do Brasileiro, com quatro. Por outro lado, “desmanchou” praticamente tudo de bom construído de bom pelo antecessor, Dorival Jr., a começar por uma relativa segurança na defesa, sem colocar praticamente nada no lugar nos quesitos organização tática, posicionamento e estratégia de comportamento em campo.

E como se tudo fosse pouco, ele e a diretoria, ao sentirem o bafo quente da cobrança dos torcedores, refugiaram-se em argumentos como a conquista da inexpressiva Florida Cup, a “Copa Mickey”, e do decadente Campeonato Carioca, que talvez demandasse uma análise antropológica para se descobrir como ainda consegue empolgar alguma alma.


Rubro-negros bufam – e Abel e os cartolas sabem disso - porque estão há uma década sem ganhar um Brasileirão, eles que já foram líderes dessa conquista, e insuportáveis 38 anos sem conquistar uma Liberta. Quanto à Mickey e ao Carioca, talvez é possível que daqui a 18 ou 24 meses mais da metade esqueça ou se confunda em relação ao período da conquista. 

Não bastasse, técnico e clube - este por meio de uma assessoria de imprensa dada a arroubos amadorísticos, à moda de torcedor de arquibancada - enfileiraram uma sequência de pérolas desnecessárias. Abel declarou que o Beira Rio é “muito mais bonito” do que o Maracanã – este último apenas o estádio recém-assumido pelos seus patrões.

E também que o Flamengo “pode não precisar dele, mas os jogadores precisam”, depois da sofrida vitória de “revirada” sobre o time reserva do Athetico Paranaense, no domingo 26, no Maracanã. Por fim, disse ser “claro” que iria escalar reservas contra o Fortaleza no sábado 1º - detalhe: sem combinar com os diretores. Os deuses da imprudência abençoaram.

A geração de Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e Lico encantou os rubro-negros, marcou época no futebol brasileiro e deixou para o clube o maior legado de conquistas de sua história. Mas, como efeito colateral, também induziu o time a se atirar invariavelmente para cima de qualquer time de forma impulsiva, às vezes insana, em qualquer circunstância, em seus domínios ou nos do adversário, como se ainda tivesse o Galinho & Cia e o rival fosse o próprio precipício, na maioria dos casos sem ter a mais remoto planejamento estratégico e, acima de tudo, qualidade em campo para isso.

O Flamengo pós-Zico sempre jogou assim. Os quase sempre desorganizados Flamengos posteriores também. O Flamengo de Abel ainda insiste em jogar desse jeito. Como todo técnico vacinado e time experiente sabem que, no equilíbrio do futebol brasileiro de hoje, é fundamental se comportar de acordo com o adversário, e até não jogar uma partida inteira do mesmo jeito, o rubro-negro vem pagando a conta da soberba e do menosprezo míope aos rivais com desclassificações injustificáveis e vexames célebres diante de multidões no Maracanã.

Enquanto isso, o calejado Felipão, com a carcaça curtida no 7 a 1, e que de bobo não tem nada, está há 29 partidas distante das derrotas no Brasileiro. No campeonato de 2019, tomou apenas um gol e segue “condenado” a mais um título, à testa de seu Palmeiras talentoso, recheado, mas com disciplina, inteligência, obediência e noção do que executar em cada período do campeonato ou mesmo de uma partida.

Ao contrário do Palmeiras de Felipão, o Flamengo de Abel jamais passou, em campo, a sensação de que executava o que o chefe mandou, o tal do “dedo do treinador em campo”. Após a vitória no domingo 26, vários jogadores puxaram Abel para o gramado como forma de homenagem.

No Flamengo é sempre assim: técnicos “afetivos” passam a impressão de não cobrar profissionalmente, com o devido rigor, o grupo, que, por sua vez, passa muitas vezes a sensação de fazer o que quer e, invariavelmente, encena um “fechamento” com o “professor” nos momentos derradeiros do técnico. 

Até que o técnico “afetivo” cai. Abel caiu. Na mesma situação, caíram Dorival, Barbieri, Zé Ricardo e outros “afetivos”.

Que a educação no trato não leve ao esquecimento das cobranças na próxima jornada.

Boa sorte, Abelão.

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