Abel entrega um Flamengo pior do que o da sua chegada
Sob muita pressão da torcida e de dirigentes da Gávea, técnico não resistiu e pediu demissão nesta quarta-feira (29)
Futebol|Eduardo Marini, do R7

Ao contrário de parte considerável, talvez a maior, dos protagonistas do futebol brasileiro, o carioca Abel Carlos da Silva Braga, o técnico Abel, é aquele tipo de sujeito e de profissional para quem os nobres sempre desejam o melhor. Sincero, afetivo, historicamente solidário com quem está em dificuldade a seu lado e educado no trato a qualquer um no dia-a-dia.
O Abel em questão não é, no entanto, o sujeito descrito acima. Nem o zagueiro osso duro de roer dos tempos de Fluminense, Vasco e Paris Saint-Germain. Tampouco o comandante que livrou a Ponte Preta do rebaixamento para a Série B, em 2003, numa arrancada memorável, muitas vezes pagando do próprio bolso salários de jogadores num clube com oito meses de folha em atraso. Ou ainda o líder carismático que conduziu o Internacional ao título mundial de clubes em 2006 ao vencer o Barcelona por 1 a 0, em Yokohama, no Japão.
O Abel de quem se trata agora é o técnico do Flamengo em 2019 – e este, se tomarmos como regra e compasso as ambições dele e do clube, admitamos, infelizmente fracassou. Seis meses depois, e apesar dos reforços, entrega um Flamengo mais desequilibrado e bem pior do que o da sua chegada. Sob seu comando, o rubro-negro jogou 32 vezes, venceu 19, empatou oito e perdeu cinco. Fez 59 gols e levou 29. Tomou 79 cartões amarelos e quatro vermelhos. Fez 65 dos 96 pontos disputados, ou 66,7% do total.
Vistos exclusivamente sob a ótica do aproveitamento, os dois pontos ganhos a cada três disputados não configuram um resultado exatamente ruim. A questão é analisar os parâmetros em que cada um deles foi conquistado. No Brasileirão 2019, foram dez pontos em seis partidas. Percentual bem menor: 55,5%. E o mais grave: com uma performance absolutamente irregular, errante, de um time espaçado, mal posicionado e sem padrão de jogo definido.
Uma equipe quase sempre imatura, que joga qualquer resquício de plano tático no lixo ao reagir com ímpeto amador à histórica empolgação de sua torcida. Assim, corre riscos desnecessários, sobretudo no Maracanã, chamando os adversários para seu campo e sofrendo gols e derrotas inaceitáveis.
Os números são bons parceiros porque só traem quando se erra na conta. E os do Flamengo no Brasileirão 2019 não deixam dúvida: a equipe tomou nove gols em seis partidas, média de um e meio por jogo. Ou seja, também na média, o time tem entrado em campo com a obrigação de fazer ao menos dois. O índice certamente cairia mesmo com Abel no comando. Mas, como ilustração, se a toada se mantiver nesse nível, a equipe chegará ao final do campeonato com inexplicáveis 57 gols contra. No campeonato passado, com um elenco mais modesto e as trocas de técnico, foram apenas 29 gols levados, ou seja, praticamente a metade do que se pode projetar agora.

Um dos poucos méritos notados nesta temporada de Abel foi o de insistir em posicionar como centroavante Bruno Henrique, atualmente artilheiro do clube na temporada, com 13 gols, e do Brasileiro, com quatro. Por outro lado, “desmanchou” praticamente tudo de bom construído de bom pelo antecessor, Dorival Jr., a começar por uma relativa segurança na defesa, sem colocar praticamente nada no lugar nos quesitos organização tática, posicionamento e estratégia de comportamento em campo.
E como se tudo fosse pouco, ele e a diretoria, ao sentirem o bafo quente da cobrança dos torcedores, refugiaram-se em argumentos como a conquista da inexpressiva Florida Cup, a “Copa Mickey”, e do decadente Campeonato Carioca, que talvez demandasse uma análise antropológica para se descobrir como ainda consegue empolgar alguma alma.
Rubro-negros bufam – e Abel e os cartolas sabem disso - porque estão há uma década sem ganhar um Brasileirão, eles que já foram líderes dessa conquista, e insuportáveis 38 anos sem conquistar uma Liberta. Quanto à Mickey e ao Carioca, talvez é possível que daqui a 18 ou 24 meses mais da metade esqueça ou se confunda em relação ao período da conquista.
Não bastasse, técnico e clube - este por meio de uma assessoria de imprensa dada a arroubos amadorísticos, à moda de torcedor de arquibancada - enfileiraram uma sequência de pérolas desnecessárias. Abel declarou que o Beira Rio é “muito mais bonito” do que o Maracanã – este último apenas o estádio recém-assumido pelos seus patrões.
E também que o Flamengo “pode não precisar dele, mas os jogadores precisam”, depois da sofrida vitória de “revirada” sobre o time reserva do Athetico Paranaense, no domingo 26, no Maracanã. Por fim, disse ser “claro” que iria escalar reservas contra o Fortaleza no sábado 1º - detalhe: sem combinar com os diretores. Os deuses da imprudência abençoaram.
A geração de Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e Lico encantou os rubro-negros, marcou época no futebol brasileiro e deixou para o clube o maior legado de conquistas de sua história. Mas, como efeito colateral, também induziu o time a se atirar invariavelmente para cima de qualquer time de forma impulsiva, às vezes insana, em qualquer circunstância, em seus domínios ou nos do adversário, como se ainda tivesse o Galinho & Cia e o rival fosse o próprio precipício, na maioria dos casos sem ter a mais remoto planejamento estratégico e, acima de tudo, qualidade em campo para isso.
O Flamengo pós-Zico sempre jogou assim. Os quase sempre desorganizados Flamengos posteriores também. O Flamengo de Abel ainda insiste em jogar desse jeito. Como todo técnico vacinado e time experiente sabem que, no equilíbrio do futebol brasileiro de hoje, é fundamental se comportar de acordo com o adversário, e até não jogar uma partida inteira do mesmo jeito, o rubro-negro vem pagando a conta da soberba e do menosprezo míope aos rivais com desclassificações injustificáveis e vexames célebres diante de multidões no Maracanã.
Enquanto isso, o calejado Felipão, com a carcaça curtida no 7 a 1, e que de bobo não tem nada, está há 29 partidas distante das derrotas no Brasileiro. No campeonato de 2019, tomou apenas um gol e segue “condenado” a mais um título, à testa de seu Palmeiras talentoso, recheado, mas com disciplina, inteligência, obediência e noção do que executar em cada período do campeonato ou mesmo de uma partida.
Ao contrário do Palmeiras de Felipão, o Flamengo de Abel jamais passou, em campo, a sensação de que executava o que o chefe mandou, o tal do “dedo do treinador em campo”. Após a vitória no domingo 26, vários jogadores puxaram Abel para o gramado como forma de homenagem.
No Flamengo é sempre assim: técnicos “afetivos” passam a impressão de não cobrar profissionalmente, com o devido rigor, o grupo, que, por sua vez, passa muitas vezes a sensação de fazer o que quer e, invariavelmente, encena um “fechamento” com o “professor” nos momentos derradeiros do técnico.
Até que o técnico “afetivo” cai. Abel caiu. Na mesma situação, caíram Dorival, Barbieri, Zé Ricardo e outros “afetivos”.
Que a educação no trato não leve ao esquecimento das cobranças na próxima jornada.
Boa sorte, Abelão.















