Allysson Felix bate recorde de Bolt e dá lição às marcas 'empoderadoras'
Velocista quebrou recorde de Usain Bolt dez meses após perder patrocínio por engravidar e exigir garantias para atletas na mesma condição

Aos 33 anos, a velocista e multicampeã olímpica norte-americana Allyson Felix é dona de seis ouros olímpicos e acaba de quebrar o recorde de ninguém menos que Usain Bolt em Doha, Qatar, durante o Campeonato Mundial de Atletismo da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo). Allyson é a única atleta, homem ou mulher, a ganhar 12 medalhas de ouro no mundial.
A vitória de Felix se torna simbólica para todas as mulheres quando, dez meses antes, a atleta perdeu o patrocínio da Nike. Alysson expôs ao New York Times que recebeu, para 2018, um contrato 70% menor do que o ano anterior após decidir se tornar mãe. Ela também pediu à marca garantias de que não seria penalizada caso rendesse abaixo do nível nos meses seguintes ao parto. O pedido foi negado.
Veja também - Modelo com vitiligo abre o jogo sobre diversidade: 'Discurso frágil'
"Não estava disposta a aceitar é o status quo duradouro da maternidade. Eu queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma dos atletas mais amplamente comercializadas da Nike, não pudesse garantir essas proteções, quem poderia?
Se eu%2C uma das atletas mais amplamente comercializadas da Nike%2C não pudesse garantir essas proteções%2C quem poderia%3F
A Nike recusou. Estamos parados desde então." Escreveu Felix na época. Em meio à polêmica, o contrato não foi renovado.
A denúncia de Allysson e mais outras atletas ao The New York Times resultou na mudança de políticas para atletas grávidas. Ainda assim, é um sintoma sobre como empresas abraçam publicamente o empoderamento femino, mas mantêm as mesmas práticas discriminatórias.
Só no Brasil, um estudo de 2017 feito pela FGV mostrou que 50% das mulheres são demitidas nos meses subsequentes à licença maternidade.
Já nos EUA, enquanto Felix tinha seu contrato encerrado por exigir direitos para as atletas comercializadas pela marca, a Nike lançou a campanha 'Dream Crazy' (em português "sonhe louco"). No vídeo inspirador, Serena Williams convidava mulheres a sonhar cada vez mais alto. "Se queremos competir contra os homens, loucas. Se pretendermos igualdade de oportunidades, é que deliramos."
Se Felix delirou ao pedir condições mais justas para ela e as colegas — ou se a marca é que não entendeu o próprio recado — o fim da polêmica terminou em agosto de 2019, quando a Nike declarou em comunicado oficial que "as atletas não seriam mais penalizadas financeiramente por terem um filho". Essa é a vitória oficial de Alysson Felix para as mulheres atletas, o recorde em cima de Bolt chega apenas como um tapa na cara final: quando se fala em empoderamento feminino, é necessário avançar para além da mera propaganda.
