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Silvio Lancellotti - Blogs
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Memórias da Copa 6: Guadalajara e os guardanapos táticos do Aymoré

Num hotel vetusto, em que um sanduíche demorava dois dias para se entregar, dividi quarto com o ex-treinador, agora comentarista,  que rescunhava as jogadas do Brasil em paninhos dos restaurantes

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Um anoitecer no horizonte de Guadalajara
Um anoitecer no horizonte de Guadalajara Um anoitecer no horizonte de Guadalajara

Sempre que uma brigada de jornalistas viaja, seja até os Cafundós do Judas ou até Guadalajara, no México, para uma Copa do Mundo, outra equipe, de logística, produz as condições ideais, básicas, de transporte e alojamento. Eu hoje admito, como atenuante, as evidentes dificuldades que a retaguarda da Editora Abril enfrentou, em 1970. Não havia opção além de confiar na eficiência de uma agência de turismo. E a empresa conveniada da Abril nos colocou no Hotel Morales, provavelmente fantástico lá na década de 20.

O Hotel Morales
O Hotel Morales O Hotel Morales

Parecia bonito, por fora, inclusive ostentava um salão de refeições razoavelmente elegante no seu térreo. De todo modo, o seu elevador, único, demorava duas horas para percorrer os seus três outros pavimentos, o “sándwich de jamón” demorava dois dias até ser entregue pela senhora solitária que atendia a uma centena de apartamentos, num dos quais me acomodei com o José Maria de Aquino, da “Placar”, e com o jovial Aymoré Moreira (1912-1998), o treinador da seleção no bi da Copa do Chile/62, e então contratado como um comentarista especial da revista. Virou um preceptor, um guia, virou um prezado amigão.

A seleção do bi, em 62, Aymoré Moreira com a bola nas mãos
A seleção do bi, em 62, Aymoré Moreira com a bola nas mãos A seleção do bi, em 62, Aymoré Moreira com a bola nas mãos

A comida? Deprimente. Como em Guanajuato, depressa se mostaram intragáveis a sopa, o ensopado, o assado, o etcetera de frango, e nos obrigamos a reprisar os tempos do Castillo de Santa Cecília e do desjejum com “queso e médio melón”, almoço de “queso e médio melón”, jantar de “queso e médio melón”, até que o santo Aymoré, que já estivera na cidade, se lembrou de uma cantina situada praticamente ao lado dos lindos Arcos de Guadalajara e a meio caminho entre o árido Morales e a bucólica concentração do Brasil no verdejante e ultra-refinado Clube Providencia, com a sua piscina e o seu gramado oficial.

Os Arcos da entrada de Guadalajara
Os Arcos da entrada de Guadalajara Os Arcos da entrada de Guadalajara

Como eu era o calouro da nossa brigada, os colegas da Abril me obrigaram a lhes servir de motorista. Aymoré havia esmagado alguns dedos numa moenda em seu sítio de Taubaté e todas as noites eu o levava até a concentração para se submeter a longas sessões de fisioterapia com o massagista Mário Américo. Eu aproveitava o intervalo para desfrutar as excelentes pizzas da cantina. Falei da qualidade do lugar aos companheiros. E o Zé Maria e o saudoso Michel Laurence (1938-2014), igualmente, se transformariam em fregueses. Então, dia 7 de Junho, o Aymoré comentou que seria mais singela aquela sessão de fisio e que pretendia jantar conosco. Bem mais do que jantar. Receberíamos uma aula magna.

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O gol de Carlos Alberto, que Aymoré pré-desenhou num guardanapo de restaurante
O gol de Carlos Alberto, que Aymoré pré-desenhou num guardanapo de restaurante O gol de Carlos Alberto, que Aymoré pré-desenhou num guardanapo de restaurante

Na tarde anterior, em Puebla, o Aymoré havia acompanhado a igualdade entre a Itália e o Uruguai, 0 X 0, dois possíveis rivais do Brasil no seguimento da Copa. Pois entre nacos de linguiça e pedaços de pizza ele rabiscou, nuns guardanapos da cantina, os esquemas táticos dos inimigos em diversas situações. Como se portavam na defesa e no ataque. Um dos rabiscos do “Biscoito”, esse o apelido do Aymoré, seria basilar, posteriormente, na decisão daquela Copa. O Aymoré nos demonstrou de que forma Giacinto Facchetti, lateral da “Azzurra”, perseguia o adversário a quem marcava. E ainda relatou que acabara de exibir os originais dos desenhos ao Zagallo e à Comissão Técnica da seleção. Uma prévia do quarto tento do Brasil sobre a Itália, em 21 de Junho, no opulento Estádio Azteca da capital.

Pelé e o drible mágico em Mazurkievicz
Pelé e o drible mágico em Mazurkievicz Pelé e o drible mágico em Mazurkievicz

Víamos as partidas sempre juntos, os quatro, na tribuna de imprensa do majestoso Jalisco. Parece que foi ontem que, na pugna de estreia, diante da Tchecoslováquia, o Pelé desferiu aquele tiro à meta do arqueiro Viktor, antes da linha divisória do gramado. Deu tempo para que o Zé, o Michel e o eu fitássemos o Aymoré, perplexos com o que parecia loucura do “Rei”, mas deu tempo para que ele nos advertisse com um aceno da sua mão machucada: o arqueiro a recuar, desesperado, enquanto a pelota, num lampejo de crueldade, ao invés de entrar, só raspava um dos ângulos da trave. O primeiro gol deslumbrante que o Pelé não cravou naquela Copa. Um segundo aconteceria contra o Uruguai, o drible mágico, sem bola, no arqueiro Ladislao Mazurkievicz, no mesmo Jalisco, na semifinal de 17 de Junho. Essa porfia, porém, fará parte do próximo capítulo desta coletânea que até me emociona. 

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Os britânicos, à saída de Inglaterra 0 X 1 Brasil
Os britânicos, à saída de Inglaterra 0 X 1 Brasil Os britânicos, à saída de Inglaterra 0 X 1 Brasil

Retorno ao Aymoré, definitivamente um topa-tudo. Além de nós, os jornalistas, e de muitos torcedores do Brasil, no Morales também se hospedavam inúmeros britânicos. Em 11 de Junho, a seleção de Sua Majestade, que acabara de perder do Brasil por 0 X 1, necessitava compulsoriamente sobrepujar a da Tchecoslováquia para, ao menos, ficar com o segundo posto na chave. Ganhou, no sofrimento, por 1 X 0. Levou a vaga de consolação. Nas quartas de final, contudo, teria que desafiar, em Leon, a perigosérrima Alemanha, e bem uma Alemanha louca para vingar os 2 X 4 da Copa de 66. De todo modo, os britânicos do Hotel Morales encontrariam um pretexto, clássico deles, aliás, para qualquer comemoração.

O átrio do Hotel Morales
O átrio do Hotel Morales O átrio do Hotel Morales

Existia, ao lado do átrio do Hotel, um barzinho, com um único garçom, quase gêmeo do comediante Cantinflas. Um azougue de garçom, capaz de carregar uma pirâmide de latinhas de cerveja na sua bandeja, ele depositava uma batelada numa mesa em que seis dos britânicos, afáveis, brincalhões e conformados diante da superioridade real daquele esquadrão do Brasil, nos provocaram para uma disputazinha à parte: quem tomaria mais Tecates. Aceitamos, e vencemos a batalha, graças a uma tramóia sutil do Cantinflas.

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Michel Laurence e um amigo comum
Michel Laurence e um amigo comum Michel Laurence e um amigo comum

A população do México tinha se irritado com uma atitude pedante e superantipática da delegação da Inglaterra que, preocupada com a saúde dos alimentos e das bebidas de seus hospedeiros, havia lotado suas bagagens com caixas e caixas de queijos e de defumados, de geleias e de água mineral. Que fez o garçom? Menos cativado pelas nossas gorjetas do que por seu desprezo aos britânicos, trazia as nossas latinhas, digamos, abençoadas. Ou, esvaziadas até a metade. A nossa pilha de descartadas crescia de duas a duas latinhas para cada vasilhame que eles degustavam. Num par de horas estariam todos depauperados.

Bobby Moore, capitão da Inglaterra eliminada, com a camisa da Alemanha vingadora
Bobby Moore, capitão da Inglaterra eliminada, com a camisa da Alemanha vingadora Bobby Moore, capitão da Inglaterra eliminada, com a camisa da Alemanha vingadora

Único problema que acorrecia o Zé, o Aymoré, o Michel e a mim: supersticioso, o velho "Biscoito", aos 58 de idade nem tão velho assim, nos havia industriado a usar, a cada novo prélio do Brasil, as mesmíssimas roupas do triunfo contra a Tchecoslováquia. Sem lavá-las. O Zé até mesmo checava se eu envergava uma certa cueca verde e um par de meias amareladas – quem me imaginaria capaz de tal combinação tão brega, muito antes da invenção da breguice? Quando o Brasil despachou o Uruguai e eu me deparei com a incumbência de montar minha mala para a ida à Cidade do México, confesso, perdão pela deselegância, não resisti ao fedor que a tralha emanava e a lavei na banheira do quarto.

PS: Este texto representa o esboço de mais um capítulo de uma tentativa de eu redigir a minha autobiografia - ou, no mínimo, uma seleta dos causos que vivi e/ou testemunhei. Num próximo, a história da camisa com que o Clodoaldo empatou a semifinal diante do Uruguai e que hoje enriquece a coleção do meu neto Dudu. E, até esgotar o tema “Copa do Mundo”, publicarei, aqui no meu espaço do R7, textos sobre as outras disputas de 1970 até 2018. Algumas que inclusive eu cobri in loco: além do meu batismo de fogo em 1970, a de 1990 e a de 1994.

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