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Memórias da Copa 15: a crise de pânico que assolou Ronaldo em 98

Num acúmulo de incômodos, do trauma de infância à distância da noiva, da certeza de que não seria o artilheiro da competição ao nervosismo da noite mal dormida, as razões do susto e do fracasso

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Fim da decisão da Copa da França, o desalento e a solidão de Ronaldo
Fim da decisão da Copa da França, o desalento e a solidão de Ronaldo Fim da decisão da Copa da França, o desalento e a solidão de Ronaldo

Temporariamente escondido da TV e da mídia impressa, entre 1997 e 1998 eu amealhei o sossego e o tempo para escrever e para lançar um livro, “Almanaque da Copa do Mundo”, da editora LPM, com a narrativa dos bastidores e com a remontagem de todas as fichas técnicas de todos os jogos desde o Uruguai/30 até os EUA/94. Na época, uma ingente e ultra-profunda pesquisa que me propiciou reunir uma compilação estatística ainda inencontrável noutras obras até mais charmosas visualmente. Admito, uma coisa mais de matemático e/ou calculista que de escritor e de jornalista. De todo modo, ocorreu um fato muito estranho, pouco antes da decisão da Copa da França/98, que re-despertou em mim o velho espírito de repórter investigativo: o repentino sumiço de Ronaldo Luís Nazário de Lima, ainda o Fenômeno, do Château de Grand Romaine, em Lésigny, nas imediações de Paris, a concentração da seleção de Mário Zagallo.

Detalhe da capa de meu livro de 1998
Detalhe da capa de meu livro de 1998 Detalhe da capa de meu livro de 1998

Gastei duas semanas, depois daquele 12 de Julho e dos 3 X 0 da França sobre o Brasil, para entrevistar três dezenas de pessoas, inclusive da família de Ronaldo, e mais gente da Comissão Técnica, e diversos parentes de personagens da cúpula da seleção, vários outros convocados, funcionários do Château e da Clínica Des Lilas, e médicos, e psiquiatras, e colegas da cobertura da Copa, e até Massimo Moratti, o dono da Internazionale de Milão, o clube que contratava o craque. Do empenho nasceu um novo livro, cujo título, eu confesso, sem constrangimento, ficou propositadamente intrigante: “França 1998 – Brasil: o (Quase) Campeão do Século”. O trabalho repercutiu a ponto de se esgotar, rapidamente, na primeira leva, e ninguém desmentiu o que levantei. Aqui, repasso uma síntese do que o livro, então, se esforçou para desvendar.

O Château de Grande Romaine
O Château de Grande Romaine O Château de Grande Romaine

Sábado, 11 de Julho. Depois de presenciar, pela TV, a Croácia ganhar da Holanda, 2 X 1, e arrebatar a terceira posição da Copa, no seu aposento, o 290 do Château, um Ronaldo aborrecido fez uma conta simples. Davor Suker havia anotado o gol da vitória, subido a seis na tabela dos artilheiros do certame. Batistuta e Vieri, das já eliminadas Argentina e Itália, tinham cinco, cada. E Ronaldo somava só quatro. Missão dificílima, cravar três, na final, contra a França hospedeira, para assumir a liderança. Ele dividia o quarto com o lateral Roberto Carlos, que nunca explicou, ao menos inteligivelmente, o que houve no 290.

Ronaldo, porém, não dormiu nada bem entre a noite do sábado e o alvorecer do domingo da decisão. Susana Werner, a sua noiva de aliança na mão direita, também estava em Paris, a trabalho, com a Rede Globo. Na própria concentração do Brasil se espalhavam rumores de que a garota havia se envolvido com um apresentador da emissora. No celular, Ronaldo tentou localizá-la por volta das 23h00. Sua noiva jantava em um restaurante bem chique da Cidade Luz. Mas, prometeu que o visitaria no Château. E, de fato, Susana rumou até lá.

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Susana, Ronaldo e a aliança na mão direita do craque
Susana, Ronaldo e a aliança na mão direita do craque Susana, Ronaldo e a aliança na mão direita do craque

Abro parênteses. No domingo da contenda, na tribuna do estádio de St.-Denis, Susana involuntariamente confirmaria a visita. Assim que a FIFA divulgou a escalação da equipe, sem o craque, a Mídia se apressou a cercá-la com perguntas. E Susana respondeu, candidamente: “Meu Deus! Deve ser por causa daquele remédio que ele estava tomando...” O remédio que ela mesma teria encaminhado ao noivo, sem qualquer cuidado, no seu encontro da noite anterior. Um encontro pifiamente clandestino, pois os encarregados da portaria do Château não permitiram a sua entrada. Coube a Ronaldo percorrer, numa bicicleta, a distância razoável que separa o bloco principal do Château da portaria.

Com a discrição obrigatória os funcionários do Château não se manifestaram sobre o encontro. Confirmaram, todavia, a existência de uma bicicleta de seu uso no bloco principal do conjunto de edifícios, que costumeiramente estacionavam junto a uma mureta, fora do alcance dos hóspedes normais. Asseguraram, entretanto, que incontáveis atletas da seleção do Brasil costumavam brincar com a magrela. Cuja, no dia seguinte, um jardineiro encontrou jogada ao chão, em uma aprazível alameda que conecta a portaria e o bloco.

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Ronaldo, com Massimo Moratti e seus filhos
Ronaldo, com Massimo Moratti e seus filhos Ronaldo, com Massimo Moratti e seus filhos

Mas, que remédio? Entre atônitos e indignados, representantes da delegação do Brasil peremptoriamente negaram tanto o encontro quanto a ingênua inconfidência da garota. Mas, um repórter italiano, muito amigo de Moratti, optou por ignorar os posicionamentos oficiais e checar ele mesmo a procedência dos boatos. Rumou até Lésigny. Falou com funcionários, chegou até a vasculhar o apartamento 290. O seu raciocínio lógico: se existiu o remédio citado por Suzana Werner, evidentemente Ronaldo o rejeitaria para não correr o risco de um flagrante no antidoping. E sim, claro, evidente, atiraria o frasco fora.

Pois o repórter enfiou a mão na privada do banheiro do 290. Eureka! Bingo! Achou um frasco de comprimidos calmantes que, pelo formato, tinha se entalado no sifão. Um frasco que, daí, entregou a Moratti. Questionado por mim se era vera essa história, o “padrone” da Inter não confirmou mas não negou. Bem à italiana, dissimuladamente, mudou de assunto. Recordou que estivera em St.-Denis com a família, a esposa Milly e os cinco bambinos do casal, Angelo, Carlota, Celeste, Peppina e Gigio. Os seis uniformizados com as camisas da seleção do Brasil. E ninguém da CBF lhes passou qualquer notícia. Fecho parênteses.

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Ronaldo e Roberto Carlos, companheiros de quarto
Ronaldo e Roberto Carlos, companheiros de quarto Ronaldo e Roberto Carlos, companheiros de quarto

Pois bem, retorno a Lésigny e à madrugada de 11 para 12 de Julho. Roberto Carlos declarou que, às 3h30, Ronaldo sofreu uma crise de pânico. Possível. Dona Sônia, a mãe do craque, lembrou que, na meninice de Ronaldo, o mano Nelinho, fã de filmes de terror, obrigava o caçula a se sentar no sofá de olhos abertos. Assim que surgia uma chance, Ronaldo, então Ronaldinho, se escondia debaixo do sofá. Segundo Roberto Carlos, o craque se debulhou em lágrimas e chegou a vomitar. Pergunta indispensável: por quê o lateral não reportou o ocorrido a ninguém e só muito depois se dignaria a descrever uma cena tão terrível?

O fato é que Ronaldo só despertou às 11h30 do domingo e, perdido o desjejum, mergulhou direto no almoço: salada, feijão, arroz, bife e purê de batatas. Daí, cerca de 13h30, retornou ao 290. Esticou-se cama, diante da TV e de um programa sobre os seus tentos mais bonitos no Canal+ da França. Ainda pretendia apreciar o GP de Silverstone, na Inglaterra, Fórmula 1. Roberto Carlos, entretidérrimo por um walkman, escutava uma fita de música sertaneja. E, ele jurou, desajeitadamente, não perceber precisamente em que momento daquela tarde o seu companheiro de time e de quarto começou a tremer, a se sacudir sobre a cama.

Pela média das diferentes entrevistas que deu, cada qual com uma versão diferente, é possível estimar as 14h20. Em outras variegadíssimas entrevistas, Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, e Lídio Toledo, o ortopedista da seleção, transitaram das 14h00 às 15h30. Mais interessa saber que, no meio de tanta confusão, o lateral imaginou que o atacante apenas brincava de fazer caretas quando, na realidade, sofria espasmos que inclusive produziram espuma na sua boca. Então, Roberto Carlos gritou por socorro e, talvez em 30 ou 45", por lá apareceram Giovanni, Rivaldo, Edmundo e César Sampaio.

A cena, obviamente chocante, compeliu Giovanni a cobrir os olhos. Rivaldo desandou a chorar. Mais expedito, num reflexo, César Sampaio puxou a língua de Ronaldo e, felizmente, impediu que ele sufocasse. Quando Joaquim Da Matta, o clínico da delegação, enfim despontou com Lídio Toledo, o craque já estava relaxado e já dormia. O comando da delegação decidiu levá-lo a uma clínica, para os exames inevitáveis. Às 16h30, sem que a turba da mídia sequer suspeitasse, um automóvel com Ronaldo, o doutor Da Matta e o fisioterapeuta Claudionor Delgado, escapuliu na direção da Des Lilas em Paris.

Zagallo, fazer o quê?
Zagallo, fazer o quê? Zagallo, fazer o quê?

O craque passou por uma tonelada de exames acurados. Um eletroencefalograma. Um eletrocardiograma. Uma tomografia cerebral. Sofrera uma convulsão? Difícil um diagnóstico acurado apenas pelos testemunhos e apesar dos espasmos, da espuma na boca. De todo modo, foram taxativos os médicos da Des Lilas: não convinha que ele disputasse qualquer combate. No Château, paralelamente, Zagallo anunciava a seus pupilos a escolha de Edmundo para o time titular. Às 18h22, o “pullman” que levaria o elenco ao St.Denis partiu de Lésigny. As 19h10, Zagallo entregou a Ricardo Setyon, assessor de imprensa da CBF, a tradional relação dos onze titulares que o regulamento da FIFA exigia. Setyon manifestou a sua perplexidade e o treinador, a bufar, tergiversou: “Uma questão de estratégia”.

Na verdade, nem Zagallo imaginava o que fazer, de que maneira agir. Moralmente arrasado, o elenco do Brasil sequer subiu até o gramado para o aquecimento. E então, 20h10, Ronaldo surgiu no vestiário, começou a se trocar. Escutei infinitas versões sobre o que daí sucedeu. Dunga propôs que Zagallo mantivesse Edmundo no time e guardasse Ronaldo para a etapa derradeira. Leonardo, ao contrário, considerou crucial a presença de Ronaldo. Irritado, Edmundo chutou um banco e feriu a canela. Um reserva, ao qual protejo com o anonimato, me disse que, repentinamente, despontou, vociferante, Ricardo Teixeira: “Quem contar o que aconteceu aqui, hoje, saiba, estará morto para o futebol.”

O momento da trombada com Barthez
O momento da trombada com Barthez O momento da trombada com Barthez

A França inaugurou a contagem aos 27’. Logo após, aos 30’, aconteceu um incidente absolutamente trivial para os espectadores do estádio ou via TV. Porém, um incidente que dilapidou o que restava de ânimo na seleção. Lançado num contra-ataque, Ronaldo trombou, violentamente, com o arqueiro Barthez – e desabou. Companheiros zuniram até onde o craque parecia desmaiado. Cafu se virou de costas. Até Zagallo se desesperou. Pudera. Uma fonte ligadíssima a ele me jurou que o treinador apenas mandara Ronaldo ao jogo pela pressão desaforada de Ricardo Teixeira, o tal que impusera silêncio no vestiário.

E ali se encerraram as mínimas chances de o Brasil reagir e revolucionar o resultado. Encerrado o prélio, França 3 X 0, de volta ao Château, o craque ignorou o apê 290 e se transferiu, por sua conta, a uma casa que alugara em Pontault Combault. Exaurido, e devastado, se agarrou a Nélio, o seu pai, entre lágrimas, e e implorou: “Me abraça, por favor”. Embora já separada do marido, Sônia escoltou Nélio na vigília: “Foi um pavor”.

Depois do choque, o pavor
Depois do choque, o pavor Depois do choque, o pavor

Ouvi este desabafo do enfezadérrimo Massimo Moratti: “Deveria existir, na CBF, alguém lúcido o suficiente para impedir tanta loucura. Ora, uma convulsão, a seis horas do início de uma partida que seria seguramente nervosa, não representa o melhor viático, a melhor bagagem, para se entrar em campo”. Concordou o Dr. Renato Marchetti, supervisor do Ambulatório de Epilepsia do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Evidente a imperiosidade de uma precaução. Na decisão de uma Copa do Mundo. Ou até numa pelada de várzea.”

Grotesco. Como no caso do suposto doping de Maradona, na Copa dos EUA/94, que descrevi no capítulo anterior destas minhas “Memórias” compactas, a FIFA e uma entidade nacional contribuíram para o desrespeito à limpidez de uma paixão universal. A CBF, porque arriscou a saúde do seu craque, desprezou a integridade de um garoto com somente 21 de idade. Por vaidade ou petulância, autoritarismo ou uma necessidade de agradar à Nike, a sua patrocinadora, para quem Ronaldo era a cereja do bolo, E a FIFA, seguramente, por um estúpido, inominável, descarado, imperdoável e torpe esnobismo.

Moratti, enfezadérrimo
Moratti, enfezadérrimo Moratti, enfezadérrimo

A comédia de erros se tornou mais ridícula na medida em que se avolumaram as explicações supostamente oficiais. Um gaúcho originário do Grêmio de Porto Alegre, Fábio Koff, o chefe da delegação, assinou uma nota leviana, em inglês, para asseverar que Ronaldo reacusara uma lesão e, por isso, a Comissão Técnica o levara ao Des Lilas. Tosca mentira. Ora, se Ronaldo havia sentido dores musculares ou articulares etcetera, por quê a vigilância de um clínico, Joaquim Da Matta, e não do ortopedista, Lídio Toledo? E por quê a FIFA perfilhou a peta da CBF e ainda publicou outra lorota, agora em dois idiomas? No francês, Ronaldo havia acusado uma lesão em seu tornozelo canhoto. E, no espanhol, no tornozelo direito. Também não serve buscar desculpas na balbúrdia que a FIFA atravessava em 1998, estertores do longo reinado de João Havelange, o sogro de Ricardo Teixeira, no encargo até o final daquela Copa, quando Sepp Blatter abocanharia o seu trono.

Ronaldo, com a medalha de prata
Ronaldo, com a medalha de prata Ronaldo, com a medalha de prata

Deveria exigir, porém, que a CBF não camuflasse o simples e admitisse que Ronaldo tivera uma crise de síndrome de pânico. Por quê esconder uma condição que o craque deveria conhecer e até tratar? Tempos depois, casualmente, num boteco da estrada que vai do Rio a Búzios, lugar celebrado por seus bolinhos de mandioca, cruzei com Lídio Toledo, quase amigo desde o México/70. No papo, nós falamos de Ronaldo, da ida ao Des Lilas, da carta de Fabio Koff. Pois Lídio Toledo não titubeou: “Sei lá de onde o Koff tirou a ideia daquela nota desastrada. E você pode escrever que eu lhe disse isso”. Está escrito. E eternizado.

PS: Com este texto se encerra o ciclo das Memórias da Copa que testemunhei à distância ou in loco no Século XX. Sobre as cinco edições da competição já no Século XXI, serei mais sucinto. De cada uma, de 2002 a 2018, eu pretendo fisgar o fato ou o episódio que mais me marcou.

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