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Jamais foi cone. O injustiçado Fred teve a despedida que nem Pelé, Zico, Romário ou Ronaldo sonharam...

Só no Rio de Janeiro e em Minas Gerais não houve estranhamento. O restante do Brasil estranhou a espetacular despedida de Fred. O artilheiro que virou 'cone' na malfadada seleção de Felipão em 2014

Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

Fred teve a maior despedida da história do futebol brasileiro. Só quem é Fluminense entende
Fred teve a maior despedida da história do futebol brasileiro. Só quem é Fluminense entende Fred teve a maior despedida da história do futebol brasileiro. Só quem é Fluminense entende

São Paulo, Brasil

417 gols na carreira.

Números incríveis em qualquer lugar do mundo.

Mas por que o restante do Brasil acompanhou com admiração e espanto a maravilhosa festa de despedida de Fred, ontem, no Maracanã?

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Por que tanta reverência do Fluminense?

Nem Pelé, Ronaldo, Garrincha, Ademir da Guia, Rivellino, Didi, Romário, Zico, Ronaldinho Gaúcho tiveram direito a um adeus tão marcante, empolgante, pungente. 

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Campeão e artilheiro da Copa das Confederações, vencedor da Copa América, tricampeão francês, bicampeão brasileiro, campeão da Copa do Brasil, pentacampeão estadual.

18 prêmios individuais entre 2004 e 2019. 

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Frederico Chaves Guedes representou o renascimento de um gigante brasileiro.

Quem acompanha futebol de perto se lembra de que, em 1999, o clube estava na terceira divisão do futebol brasileiro, por pura justiça, acumulando campanhas vergonhosas e rebaixamentos.

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Dez anos depois, o clube ainda capengava, buscava a autoestima. Tendo de acompanhar campanhas fabulosas dos rivais Flamengo e Vasco. Irresponsáveis e até suspeitas administrações fizeram com que equipes medianas fossem montadas e desmontadas. Os Cariocas de 2002 e 2005 foram o máximo que o clube conseguiu.

Até que, em 2008, sob o comando de Renato Gaúcho, o time faz uma campanha surpreendente. E é vice-campeão da Libertadores. O que animou a direção do clube a fazer um grande investimento em 2009.

E apostar em Fred. O atacante estava sendo questionado no Lyon. Ficou sem espaço porque surgiu um fenômeno das categorias de base chamado Benzema.

Logo na chegada, houve a identificação.

O mineiro de Teófilo Otoni soube mostrar carisma, usar a mídia e, principalmente, demonstrou com gols o certeiro investimento do Fluminense.

Fluminense soube muito bem capitalizar a despedida de Fred. Mais de R$ 2,2 milhões
Fluminense soube muito bem capitalizar a despedida de Fred. Mais de R$ 2,2 milhões Fluminense soube muito bem capitalizar a despedida de Fred. Mais de R$ 2,2 milhões

Se ele se mostrou o ídolo perfeito nas Laranjeiras, haveria a conturbada, difícil e muito desgastante relação de Fred com a seleção brasileira.

Seu pai, Juarez Guedes, fazia questão de conversar conosco, os jornalistas paulistas que cobriam a Copa de 2006, na Alemanha, e se queixava que o filho estivesse na reserva de Ronaldo e Adriano, visivelmente bem acima do peso. Ambos estavam gordos, para jogadores de futebol de elite.

Mas Parreira se deixou encantar pela Copa das Confederações e o "quadrado mágico": Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e Adriano. Na Alemanha, Ronaldo e Adriano não mereciam ser titulares. Fred e Robinho estavam muito melhores fisicamente. Só que o treinador titubeou, se deixou levar pela péssima preparação na Suíça, na inesquecível Weggis. Ele também estava preocupado com os graves problemas de saúde do coordenador, e seu mentor, Zagallo.

Fred perdeu a Copa do Mundo de 2010, por conta das suas assumidas baladas no Rio de Janeiro. Ele havia terminado seu primeiro casamento. "Vim da França solteiro. E acabei me descuidando da vida pessoal, que reflete na vida profissional", admitiu em 2014.

Fred chegou até a deixar bigode, para 'dar sorte'. Sacrificado por Felipão, em 2014. Daí o apelido 'cone'
Fred chegou até a deixar bigode, para 'dar sorte'. Sacrificado por Felipão, em 2014. Daí o apelido 'cone' Fred chegou até a deixar bigode, para 'dar sorte'. Sacrificado por Felipão, em 2014. Daí o apelido 'cone'

Aliás, 2014 explica essa aversão que o restante do Brasil, com exceção do Rio de Janeiro e Minas Gerais, criou em relação ao atacante.

Quem cobriu aquele Mundial de perto pode afirmar: Fred foi o jogador mais massacrado na vexatória campanha da seleção de Felipão, dos 7 a 1 para a Alemanha.

Por conta da própria expectativa criada pelo desempenho do jogador.

Ele havia sido peça fundamental na conquista dos Brasileiros de 2010 e 2012 pelo Fluminense. Foi artilheiro da Copa das Confederações, torneio que antecedeu a fracassada Copa no Brasil, com direito a dois gols contra a superestimada Espanha, que havia vencido o Mundial da África do Sul, três anos antes.

Depois de oito anos é muito mais fácil entender que Fred foi o grande sacrificado em 2014.

Felipão, em um erro absurdo, repetiu o mesmo esquema tático de 2013. O treinador não levou em consideração que todos os detalhes estratégicos de seu time haviam sido decorados pelos rivais.

O 4-2-3-1 expunha Fred, isolado na frente, esperando passes que não chegavam. 

A determinação de Felipão é que, ao contrário do que fazia no Fluminense, não se movimentasse. Ficasse parado na frente, como referência para Oscar, Neymar e Hulk.

Só que os adversários acompanhavam os treinamentos brasileiros, cuja transmissão ao vivo era liberada pelo ex-presidente da CBF, José Maria Marin. O SporTv transmitia inclusive os coletivos. Ou seja, era só gravar e saber a movimentação da seleção brasileira. 

A imprensa brasileira, como um todo, acreditava que o time de Felipão ganharia "fácil" a Copa do Mundo. A cobertura foi ufanista. Quando começaram os jogos e se viu o quanto estava difícil para a seleção vencer suas partidas, a cobrança recaiu de forma firme, pesada, exagerada, em Fred.

Fred. Fundamental nos dois Brasileiros do Fluminense. Marcou o renascimento do clube
Fred. Fundamental nos dois Brasileiros do Fluminense. Marcou o renascimento do clube Fred. Fundamental nos dois Brasileiros do Fluminense. Marcou o renascimento do clube

O atacante ficou desesperado, sofria muito, com as cobranças. Virou até motivo de piada, nas redes sociais, que já começavam a ter relevância.

Deixou bigode, para tentar buscar sorte. Mas nos jogos, mal tocava na bola. Oscar, Hulk eram anulados.

E ele parado, na frente, esperando a bola chegar. Por ordem de Felipão. A explicação é que Fred "seguraria" dois zagueiros, haveria mais espaço para o trio ofensivo se movimentar. 

Para piorar de vez, Neymar estava em excelente fase, até que provocou Zuñiga e a reação absurda do colombiano, com uma joelhada na coluna do atacante, o tirou do restante da Copa.

E veio a partida contra a Alemanha, no Mineirão. No estado onde Fred nasceu. E se destacou no América e no Cruzeiro.

Tinha tudo para se sentir em casa.

Só que Felipão não quis levar em consideração o relatório que o também treinador Alexandre Gallo fez da Alemanha. Ele alertava da necessidade de um fortíssimo esquema defensivo nas intermediárias. O Brasil não poderia jogar aberto contra a equipe de Joachim Low, preparada por oito anos, para vencer a competição em 2014. 

Scolari acreditou que o carisma, a pressão da torcida brasileira, a coragem tática da seleção, que entrou para marcar sob pressão os alemães, seriam suficientes para uma vitória consagradora na semifinal da Copa.

A carreira de Fred teve como ponto alto o Fluminense. 417 gols em jogos oficiais. Artilheiro nato
A carreira de Fred teve como ponto alto o Fluminense. 417 gols em jogos oficiais. Artilheiro nato A carreira de Fred teve como ponto alto o Fluminense. 417 gols em jogos oficiais. Artilheiro nato

Felipão fez sua pior aposta na carreira. Colocou Bernard no lugar de Neymar. Também errou feio ao escalar Dante na vaga de Thiago Silva. E não controlar David Luiz, que abandonou a zaga e foi jogar de meia, quando o Brasil perdia por 2 a 0. 

Perdido diante da avalanche brasileira, Fred isolado na frente. Sem pegar na bola.

A partir daquele 7 a 1, o apelido que vinha crescendo nos programas humorísticos e nas redes sociais se consolidou.

Cone.

Cone, porque o atacante estaria parado como sinalizador de trânsito.

Ao ser substituído, ele tomou uma das maiores vaias do futebol deste país. Em pleno Mineirão, estádio principal do seu estado. 

Fred nem entrou em outro vexame do Brasil naquela Copa. A derrota por 3 a 0 para a Holanda, na disputa do terceiro lugar.

Foi essa Copa do Mundo que consolidou a imagem de um jogador supervalorizado, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, no restante do país.

"Em 2014 foi o pior momento da minha carreira. Só tive o apoio de vocês (torcida do Fluminense). Mas era exatamente o que eu precisava", desabafou ontem, no meio da maravilhosa festa que recebeu pelo final de sua carreira.

Como memória não é exatamente uma qualidade no futebol brasileiro, vale a pena destacar que, depressivo, Fred pensou seriamente em abandonar a carreira, ou ao menos, o país, depois da Copa do Mundo de 2014.

Ao terminar a competição, ele ganhou uma folga do Fluminense.

Fred foi para os Estados Unidos, com a família, para fugir da torcida brasileira.

Pensar o que faria da vida.

Confessou que estava "perdido" diante de tantas críticas, perseguição. 

Acabou sendo o "bode expiatório" do fracasso.

"Vocês foram covardes. Vocês jornalistas. Vocês estão atingindo ao Fred e a mim. Eu sou o responsável. Escolhi, coloquei em campo e fui o responsável pelo 1 a 0, 5 a 0, 10 a 0. Querem bater, batam em mim", disse Felipão, em agosto, quando já havia sido demitido da seleção e trabalhava no Grêmio. 

Fred jamais foi convocado outra vez para a seleção.

Como o atacante tinha um excelente contrato no Fluminense, e também não surgiu clube do exterior interessado, ele ficou no Rio de Janeiro.

Até que ficou dez meses sem receber direito de imagem e foi para o Atlético Mineiro, em junho de 2016. Não foi o grande jogador que a direção e a torcida sonhavam. E, brigando por R$ 23 milhões, o atacante foi para o Cruzeiro, em 2017. Também não rendeu.

Foi quando o Fluminense, em uma aposta do presidente Mario Bittencourt, o recontratou em maio de 2020. Já não era o mesmo atacante letal, como havia sido em toda a trajetória.

Ótimo nas cabeçadas, veloz, capaz de arrematar bem, e forte, com a perna direita e a esquerda.

Conseguiu marcar seu 400º gol na carreira. E 199 com a camisa tricolor.

Mas, sem dúvida, se tornou o maior ídolo das Laranjeiras.

Ganhou a maior festa de despedida da história do futebol brasileiro.

Incompreensível para o país que já teve o maior jogador de todos os tempos, Pelé. Ou Garrincha, capaz de fazer o Brasil vencer a Copa de 1962. Ou Romário, fabuloso no Mundial de 1994. Ou ainda Ronaldo Fenômeno, campeão de 2002, e melhor do mundo por três vezes. 

Fred. Ficará para sempre como um dos maiores ídolos da história centenária do Fluminense
Fred. Ficará para sempre como um dos maiores ídolos da história centenária do Fluminense Fred. Ficará para sempre como um dos maiores ídolos da história centenária do Fluminense

Que deixou jornalistas e torcedores de outros estados aturdidos, surpresos, com tanta reverência, tantas lágrimas por Fred.

Mas só há uma maneira de compreender.

Quem tem a alma tricolor.

E sente o quanto Frederico Chaves Guedes fez.

Representou o renascimento de um gigante humilhado.

Que foi para o fundo do poço, a terceira divisão.

E depois se impôs duas vezes como o melhor do Brasil.

Só os apaixonados pelo Fluminense vão entender.

E se arrepiar pelo coro que dominou, pela última vez, o Maracanã.

"O Fred vai te pegar....O Fred vai te pegar..."

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