Pelé - Rei do Futebol

Silvio Lancellotti Tóquio, dia 6 - Biles, a prata de Rebeca e o bronze de Mayra

Tóquio, dia 6 - Biles, a prata de Rebeca e o bronze de Mayra

A norte-americana surpreende ao abandonar o super e voltar a ser apenas humana. A brasileira da Ginástica brilha, como a colega do Judô que levou a terceira medalha individual consecutiva do Brasil.

Rebeca Andrade

Rebeca Andrade

Ricardo Bufolin/CBG

Entre 1508 e 1512, de seus 33 até os seus 37 anos de idade, Michelangelo Ludovico di Buonarroti Simoni, sozinho, a quase catorze metros do chão e sobre andaimes rústicos que ele mesmo projetou, inspirado no Velho Testamento pintou os 680m2 do teto da Capela Sistina do Vaticano. Pode-se afirmar que Michelangelo foi um super-humano, aquele tipo de ser que, romanticamente, na literatura, se convencionou apelidar de gênio.

Obviamente, evidentemente, guardadas as devidas proporções, pode-se afirmar, no Esporte, que um Pelé, ou um Michael Jordan, merece a mesma denominação.

O teto da Sistina, obra do super-humano Michelangelo

O teto da Sistina, obra do super-humano Michelangelo

Reprodução

Criadores excepcionais, literalmente inventores de artes e de situações no Futebol e no Basquete, da mesma forma que o multímodo renascimental fôra na sua era, o “Rei” e o “Air” reluziram num período em que não existia, com o sentido de agora, a dolorosa expressão “cobrança”. E nem havia as “Redes Sociais”, eventualmente benéficas mas, inúmeras vezes, absolutamente deletérias. Ninguém ousa criticar o Buonarroti pelas juntas mal acabadas do seu monumental afresco porque são imperceptíveis à distância. E ninguém se incomodava com um passe errado de Pelé ou com uma bola perdida ou com uma enterrada malograda de Jordan. Na repetição, os seus acertos soterravam as suas tolices estupendas.

Simone Biles

Simone Biles

Mike Blake/Reuters

De todo modo, como observa a professora Katia Rubio, jornalista, psicóloga e grande especialista em Olimpismo, os idos que correm são implacáveis. Instantâneas, a TV e a Internet se transformam em pelotão de fuzilamento. Os mínimos escorregões, exacerbados pela sucessão punitiva das reprises e pelo compartilhamento vulgar nas “Redes”, se transformam em pecado capital. Aconteceu, em 25 de Julho, com Simone Arianne Biles, uma norte-americana de Columbus, Ohio, 24, na etapa de classificação para a competição por Equipes da Ginástica Artística dos Jogos de Tóquio/2020. Glória que redundou em infelicidade. E Simone interrompeu a sua escalada até o panteão do super-humano.

Detalhe de um dos percalços de Biles em Tóquio

Detalhe de um dos percalços de Biles em Tóquio

Reprodução

Simone aportara no Japão com uma carga absurdamente maior do que o seu corpinho miúdo, 1m42 e 47kg, tinha condições de suportar. Sem falar no fardo mental, sobre o qual, provavelmente, ainda não havia meditado. Com um currículo delicioso de 31 medalhas, 23 de ouro, quatro de prata e quatro de bronze, 4-1-1 no Rio/2016, as outras em Mundiais, dela se esperavam prodígios, como a invenção de acrobacias que ganhassem o seu nome. Porém, sofreu  um punhado de percalços que, em uma atleta de diferente jaez, soariam como murmúrios ao invés de explosões. E a hoje mulher de 24 anos, com uma frase amarga mas da maior dignidade, desistiu da contenda mais importante, a Final Individual: “O carinho que agora recebo me diz que sou mais do que minhas realizações”.

Simone Biles, ao desistir do "All Around"

Simone Biles, ao desistir do "All Around"

Mike Blake/Reuters

A Final Individual busca a atleta completa, 24 inscritas que precisam se exibir em quatro exercícios: Solo, Salto sobre o Cavalo, Trave e Barras Paralelas Assimétricas. Na classificação, apesar dos percalços, Simone assegurou o primeiro lugar com 57,731 pontos. Na mesma casa dos 57 ficaram quatro rivais. Outra norte-americana, Sunisa Lee, 57,166. Duas jovens do ROC, Comitê Olímpico da Rússia, Angelina Melnikova, 57,132, e Vladislava Urasova, 57,099. E uma brasileira, Rebeca Andrade, paulista de Guarulhos, 22 de idade.

Flávia Saraiva e Rebeca Andrade

Flávia Saraiva e Rebeca Andrade

@TimeBrasil

Detalhe: com 57,399 pontos, a segunda melhor marca da etapa qualificatória, Rebeca, subitamente, se viu agraciada com o peso de herdeira presumida de Simone Biles. Resistiria ela, no caso, a uma pressão, digamos, triplicada? Além da sua própria responsabilidade natural ainda ficara sozinha, no lado feminino do Time Brasil da Ginástica, depois que Flávia Saraiva, machucada, abandonou a disputa do “All Around” para se concentrar na Trave. Personalidade, sem dúvida, Rebeca tem, à fartura. Em quatro anos sofreu três cirurgias de joelho. Aproveitou a pandemia para retomar a forma e daí abiscoitar a vaga para Tóquio.

Mayra Aguiar, três medalhas em edições consecutivas dos Jogos

Mayra Aguiar, três medalhas em edições consecutivas dos Jogos

Júlio César Guimarães/COB

E Rebeca Andrade não se contaminou pela crise da Simone super que se devolveu à mera humanidade. Ironicamente, a sua inimiga direta foi Sunisa Lee, despreocupada da sombra da colega Simone Biles. Com serenidade, com eficiência, com muito charme, Rebeca fez a sua prova, admirável, e apenas não conquistou o ouro por uma diferença ínfima de pontos, 57,298 para 57.433 da norte-americana. Uma prata de qualquer maneira enciclopédica. E isso num Dia 6 da Olimpíada de Tóquio em que uma outra brasileira registrou o seu nome na História: a judoca Mayra Aguiar, bronze na categoria -78, a primeira garota do País a arrebatar uma medalha individual em três edições consecutivas dos Jogos. E Rebeca ainda pode buscar o ouro, pois vai fulgurar com enorme chance nas disputas do Solo e do Salto.

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