Tóquio 2020

Silvio Lancellotti Tóquio, dia 1 - Frustração, o Brasil termina sem uma única medalha

Tóquio, dia 1 - Frustração, o Brasil termina sem uma única medalha

Esperavam-se duas, a da esgrimista Nathalie Moellhausen e a de Felipe Wu, do Tiro Esportivo. Talvez alguma no Judô. E no entanto Felipe e Nathalie sequer passaram das suas primeiras provas.

Nathalie, a decepção pela derrota inesperada

Nathalie, a decepção pela derrota inesperada

COB/Miriam Jeske

Cinco anos atrás, nos Jogos do Rio/2016, no primeiro dia das competições de fato, aquelas que acontecem depois da Cerimônia de Abertura e já passam a valer medalhas, frustrou-se quem fantasiava a possibilidade de, ao menos, se repetir a performance de Londres/2012. Então, o Brasil havia conquistado três medalhas: uma de ouro e uma de bronze no Judô, por Sarah Menezes e por Felipe Kitadai; uma de prata na Natação, por Thiago Pereira.

Sarah Menezes, Londres/2012, o último ouro do Brasil num Dia 1 dos Jogos

Sarah Menezes, Londres/2012, o último ouro do Brasil num Dia 1 dos Jogos

COB

No Rio ocorreu uma única, de prata, de todo modo num Esporte que não vivia glória semelhante desde a remota Oímpíada de Amsterdam/1920, os idos do pioneiríssimo Guilherme Paraense (1884-1968). Foi no Tiro Esportivo que Felipe Wu arrebatou uma prata na disputa da Pistola de Ar Comprimido, 202,1 pontos, um nadinha atrás dos 202,5 do vietnamita Xuan Hoang. Wu só perdeu o ouro, que já parecia seu, infelizmente, num último disparo. Em Tóquio, agora, fantasiava a possibilidade de escalar mais um degrau no pódio. Pois voltará ao Brasil sem nada. E aliás, desta vez, no Dia 1, ficou sem nada o Brasil, zero.

Felipe Wu, Rio/2016, a última medalha do Brasil, e de prata, num primeiro dia,

Felipe Wu, Rio/2016, a última medalha do Brasil, e de prata, num primeiro dia,

COB

Também duelou pelo pódio uma garota especialista em um outro tipo de arma, saudavelmente pacificada graças ao Esporte, a Esgrima. Uma brasileira nascida em Milão, Itália, 35 anos, canhota, campeã no Mundial da Hungria em 2019, Nathalie Moellhausen buscou a sua medalha na Espada. Embora melhor, no ranking, do que a sua rival, a italiana Rossella Fiamingo, a terceira contra a 30ª, iniciou o seu primeiro jogo atrás na contagem de toques, revirou o placar, chegou a passar à frente e, no entanto, sucumbiu na prorrogação, 9 X 10. Parece incrível que não haja alguma repescagem da Esgrima. Abismada pela sua infelicidade, Nathalie deixou a pista arrasada, sem segurar um pranto justíssimo.

Nathalie e o toque fatal, na prorrogação

Nathalie e o toque fatal, na prorrogação

AFP/Mohd Rasfan

Houve, ainda, dois combatentes no Judô, habitualmente um Esporte no qual o Brasil coleciona lauréis. Gabriela Chibana, 27, uma paulistana descendente de japoneses, na mesma categoria de Sarah Menezes, até 48kg. E Eric Takabatake, paulista de São Bernardo do Campo, 30 de idade, igualmente nissei. Não estavam entre os favoritos. Na estreia, Gabi mal permitiu que Harriet Bonface, do Malawi, se adaptasse ao tatame. Desferiu-lhe um golpe perfeito, o Ippon, em 14”. Taka enfrentou Soukphaxay Sithisane, do Laos. Aplicou-lhe um Waza-Ari a 1’20” de acabar o tempo de quatro. E venceu com outro Waza-Ari, a 43”.

Gabi Chibana, inconsolável

Gabi Chibana, inconsolável

@TimeBrasil

Muito mais complicada seria a segunda peleja de Gabi, na fase das oitavas de final, diante de Distria Krasniqi, do Kosovo, a campeã da Europa e número 1 do ranking do seu peso. Resistiu até receber um Ippon da adversária a 1’14 do encerramento regular. Estivesse nas quartas de final, teria direito à repescagem. E também foi difícil a empreitada seguinte de Taka, diante de Kim Won-Jin, da Coréia do Sul, dois bronzes nos últimos Mundiais. Pena. Resistiu mais do que Gabi, levou a pugna até os 2’41” do  “golden score”, mas não pôde impedir um Waza-Ari. Como Nathalie, Gabi chorou bastante, Taka mal conseguia falar.

Eric Takabatake, a derrota, para o sul-coreano Win-Jin, apenas no "golden score"

Eric Takabatake, a derrota, para o sul-coreano Win-Jin, apenas no "golden score"

@CBJJudo

Enfim, para o Brasil, no Dia 1 dos Jogos de Tóquio, uma derradeira chance de pódio sobrou com Felipe Wu, um paulistano de 29 anos, neto de chineses, que competiria mais tarde, bem depois da eliminação dos seus colegas de delegação. Não creio que ele soubesse da sua condição de único do País em busca da medalha número um no Dia 1. A sede do Tiro Esportivo fica no Asaka Shooting Range, espaço campestre a 25 quilômetros do centro nervoso de Tóquio. Um lugar sereníssimo, bucólico, protegido dos burburinhos.

Felipe Wu, em Tóquio/2020, a pior atuação da sua carreira

Felipe Wu, em Tóquio/2020, a pior atuação da sua carreira

@TimeBrasil

Além disso, o seu Esporte exige uma absurda e inumana concentração mental, um insano controle muscular. Bem mais provável que, antes da prova, ele tivesse recorrido a um recanto recluso qualquer e, então, desabado no sono. De qualquer forma, não importa, nem interessa descobrir. Com uma atuação abaixo de medíocre, Felipe Wu somou patéticos 566 pontos em 600 disponíveis e se limitou à 32ª colocação em um total de 36 competidores. Apenas os oito melhores iriam à decisão. Com 573, Xuan Hoang também fracassou, 22ª posição. Na fase classificatória, o primeiro, 586, foi o indiano Chaudhary Aurabh. Detalhe: o sistema de contagem, nas eliminatórias, é bem diferente daquele da qualificação. Por isso, não se deve comparar a performance de Wu no Brasil com a de Tóquio. O antigo vice-campeão simplesmente teve a pior atuação da sua bela carreira.


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