Tóquio 2020

Silvio Lancellotti Tóquio, dia 0 - Tristeza e esperança na Abertura dos Jogos de 2020

Tóquio, dia 0 - Tristeza e esperança na Abertura dos Jogos de 2020

Na primeira festa sem platéia de toda a História Olímpica, um evento em que a tecnologia, embora exuberante, não compensou a ausência de alma, ao menos numa comparação com o passado

Ketleyn, a porta-bandeira, e Bruninho, o mestre-sala do Brasil

Ketleyn, a porta-bandeira, e Bruninho, o mestre-sala do Brasil

Júlio César Guimarães/COB

Uma evolução evidentemente natural. Na História dos Jogos Olímpicos, cada Cerimônia de Abertura tenta ao máximo sobrepujar a anterior. Dizia um caro amigo siciliano, Leonardo Regazzoni (1944-1986), um irmão de alma, que o evento lhe sugeria um desfile de Carnaval no qual as Escolas se sucediam de quatro em quatro anos. Bem, agora, cinco anos, pois a impiedosa Covid-19 provocou a transferência, de 2020 para 2021, dos Jogos da XXXII Olimpíada, em Tóquio, Japão, de festa exibida ao mundo, via TV, nesta sexta 23 de Julho.

O interior do Estádio Olímpico

O interior do Estádio Olímpico

LaurenteGillieron/EFE/EPA

Pior, como a Covid-19 ainda não deixou a Humanidade em paz, o evento, programado para o Estádio Olímpico de Tóquio, ao invés de majestoso não passou de chinfrim. Um estádio de 68.000 lugares que custou o equivalente a R$ 6.357.960.000,00, inaugurado em 21 de Dezembro de 2019, tristemente só abrigou dignitários, convidados, voluntários, a Mídia e um punhado de ralos integrantes das próprias contendoras. Além disso, houve um trio de impactos de fato dramáticos que praticamente desmembraram a sua cúpula criativa,

Naomi Watanabe

Naomi Watanabe

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Em Março, por exemplo, partiu Hiroshi Sasaki, o diretor artístico também da Cerimônia de Encerramento, ao comentar que vestiria com uma fantasia de porquinha a atriz Naomi Watanabe, uma humorista que se destaca propositadamente pela robustez. Na segunda-feira, dia 19, renunciou Keigo Oyamada, o autor da canção mais importante da trilha sonora, denunciado pelo abominável crime de assediar colegas deficientes nos idos de escola. Enfim, na quarta, 21, o Comitê Local demitiu Kentaro Kobayashi, o diretor-geral, porque se descobriu que, em 1996, num show de graça suposta, deletéria, ameaçou colocar fogo em enormes bonecos de papel apenas, patético, “para brincar de Holocausto”.

O desfile improvisado dos brasileiros, na Vila Olímpica

O desfile improvisado dos brasileiros, na Vila Olímpica

ChristianDawes/COB

Paralelamente, e não menos significativo, o desfile não teve a platéia que lhe impõe uma vibração indispensável. Sem dizer que inúmeras das delegações previstas, outra vez 206, depois que a Guiné desistiu de desistir, apenas participaram com representações singelas. O Brasil, por exemplo, engenhosamente soube agregar os seus atletas ao realizar um desfile emocionante, dentro dos espaços da Vila Olímpica, e então levou ao estádio só quatro pessoas. Além de Joyce Ardies, uma oficial-de-ligação, e de Marco La Porta Jr., o Chefe de Missão, obrigado por protocolo a comparecer, seus dois porta-bandeiras: a judoca Ketleyn Quadros, primeira garota a ganhar medalha individual para o País, Pequim/2008; e o voleibolista Bruninho Mossa Rezende, de uma enciclopédica estirpe de esportistas.

Vera Mossa e Bruninho, em 2011

Vera Mossa e Bruninho, em 2011

Reprodução

Seus avós maternos, Maria Helena Bonetti e Carlos Luiz Mossa, fulguraram no Vôlei e no Atletismo. Carlos Luiz deteve o recorde brasileiro dos 110 com Barreiras por 22 anos. E os seus progenitores, Vera Mossa e Bernardinho, também do Vôlei, juntos somaram dez passagens pelos Jogos. Ela, aos 16 de idade, foi a mais jovem convocada a uma seleção do Brasil. E ele, além de uma prata como levantador em Los Angeles/84, acumulou mais sete como treinador, inclusive ouros em Atenas/2004 e no Rio/2016 – com Bruninho no time titular. Claro, percorrer os 400 metros de uma pista olímpica na apresentação do pendão da sua pátria é uma soberba e inesquecível homenagem. Um tanto frustrante, todavia, num estádio escandalosamente vazio e sem aquela alegria dos companheiros logo atrás.

Detalhe da Cerimônia de Abertura

Detalhe da Cerimônia de Abertura

@COI

Ausência de gente à parte, obviamente houve beleza e houve emoção na festa possível, enxutíssima, da forma que conviria na situação, inclusive com o direito a um minuto de silêncio de verdade, um preito às vítimas da pandemia. Impressionou o desfrute ótimo da inteligência artificial, o uso de drones a formarem imagens luminosas no céu da noite. Só que a tecnologia não substitui a alma. E por isso confrangeu o coração testemunhar os atletas de máscaras protetivas e de braços alçados numa saudação a ninguém nas poltronas, pintadas de cores diferentes para que, de longe, simulassem a massa de torcedores. Aqui e ali, nas tribunas, alguém se levantava para aplaudir – um mero enviado político do respectivo governo. Pena. Não existiu o fundamental troar dos espectadores.

O astronauta de Los Angeles/84

O astronauta de Los Angeles/84

Reprodução

De certa maneira, um ex-maior espetáculo da Terra. Eu presencio a festa ao vivo, em cores, desde Moscou/1980. Não me esqueço dos cossacos às centenas que brilharam com suas danças naquela ocasião. Ou do astronauta que voou, foguetes às costas, sobre a platéia de Los Angeles. Da disciplina dos jovens que formaram um desenho Yin-Yang em Seul/1988. Da criação do Mar Mediterrâneo em Barcelona/1992, Em Atlanta/1996, inclusive participei, com colegas da Record, da narração da festa encantada por um personagem inolvidável, o ginasta esloveno Leon Stukelj, 97 anos, cinco medalhas com a ex-Iugoslávia em Paris/24, em Amsterdam/28 e em Berlim/36. Ou pelo tremor angustiante de Muhammad Ali/Cassius Clay, já afetado pelo Mal de Parkinson, ao acender a pira. Ou pelo infarto súbito e chocante que matou Evgeniusz Pietrasik, o chefe da delegação da Polônia, rumo à tribuna de honra.

O véu de Bjork em Atenas/2004

O véu de Bjork em Atenas/2004

@bjorkspears

Foi mais tocante presenciar a Abertura de Sydney/2000 de fora do estádio, embrulhado por uma imensidão de luzes cintilantes. Foi empolgante e deslumbrante ver, nos Jogos de Atenas/2004, o vestido diáfano da cantora Bjork se desdobrar num véu que cobriu os atletas já acomodados no gramado. Então, em Pequim/2008, além dos fogos de valor estimado em US$ 100mi, a sincronia espetacular de 5.010 suaves bailarinos e de 2.008 percussionistas. Mais, falar o quê da surpresa da descida de paraquedas de uma sósia da Rainha Elizabeth II em Londres/2012? Pois é. E que mimo havia perpetrado o trio Fernando Meirelles/cinema + Daniela Thomas/teatro + Andrucha Waddington/televisão, com a ajuda da preciosa coreógrafa Deborah Colker/dança, para os Jogos do Rio/2016 no Brasil?

O voo do "14-Bis" no Rio/2016

O voo do "14-Bis" no Rio/2016

COB

Ganhou muitíssimo quem aguardou de alma acesa e de coração aberto. Impossível estabelecer destaques num trabalho fantástico até por praticamente não recorrer à facilidade dos efeitos de computação e de inteligência virtual. Bem que Meirelles já havia antecipado: “Será a Abertura do jeitinho, a Abertura da gambiarra”. Com equipamentos mecânicos? Não, tudo exclusivamente movido com as pernas e com os braços, num mosaico multicolorido de truques engenhosérrimos, de homens e de mulheres treinadíssimos, na concepção deliciosa da decolagem do “14 Bis” de Santos Dumont e do seu vôo através da paisagem noturna do Rio, no casamento entre a doçura da Bossa Nova, a ginga do Rap e do Funk, do Samba e dos temas naravilhosos de Villa-Lobos, com o Maracanã inteiro inolvidavelmente a entoar em coro o “Patropi” de Jorge Benjor.

As sementes da "Floresta dos Atletas" que demorou três anos até ser plantada no Rio

As sementes da "Floresta dos Atletas" que demorou três anos até ser plantada no Rio

COB

Houve espaço, até, para uma denúncia da dilapidação do meio-ambiente. Com a tentativa de um grito ansioso de esperança, porém. Cada um dos 11.384 atletas inscritos nos Jogos recebeu um presente fenomenal: uma semente de árvore nativa do Brasil, a ser posteriormente plantada no Parque Radical de Deodoro, na Zona Oeste da cidade. Durante o desfile, depositou a semente num vasinho com terra que se acomodava numa estante especial dentro do gramado e da pista. Posteriormente? Os atletas, eufóricos, cumpriram a sua missão. O posteriormente, porém, durou três anos. Só a partir do dia 10 de Dezembro de 2019 os vasinhos foram de fato transferidos a Deodoro, à espera de que abnegados se dispusessem a enfiá-los no solo. A beleza da idéia soçobrou nesse atraso: presentear o Japão, em 2020, com árvores já viçosas. Mais um fracasso que a gestão de Carlos Arthur Nuzmann, então presidente do COB, posteriormente preso, perpetrou como legado.

A Pira Olímpica, acesa em Tóquio/2020

A Pira Olímpica, acesa em Tóquio/2020

@Olympics

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