É verdade, uma primeira Copa do Mundo nunca mais se esquece

Exatos cinquenta anos atrás, no México/70, acompanhei a seleção do Brasil em busca do tri. Aqui, uma abordagem diferente das minhas lembranças.

Carlos Alberto levanta a taça

Carlos Alberto levanta a taça

Arquivo Pessoal

Um jovem jornalista, naquele 21 de Junho de 1970 em que testemunhei, privilegiado, a conquista definitiva da Taça Jules Rimet, também pude saborear, na Cidade do México, um jantar inesquecível. Depois de sete semanas de loucura, como enviado de “Veja”, entre Guanajuato, Leon, Irapuato, Guadalajara, Puebla, Toluca e a capital; depois de infinitas refeições velozes e apressadas; depois  acompanhar, no Estádio Azteca, com 107.000 pessoas, a vitória do Brasil sobre a Itália por 4 X 1; enfim, nos meus últimos momentos de altiplano, eu consegui participar de um vero churrasco, com direito a um show da estupenda Leny Andrade, que realizava uma turnê pela América do Norte, num lugar charmoso, batizado Rincón Argentino.

Capa de um LP de Leny Andrade na época da Copa

Capa de um LP de Leny Andrade na época da Copa

Reprodução

Um brasileiro num endereço platino? Problema nenhum, a equipe da nação vizinha não participou daquela Copa e a turma do atendimento, exclusivamente constituída por nativos, torcia pelo Brasil. Um companheiro inesperado, todavia lógico, tinha se incorporado à brigada: Fernando Sandoval, o “Peixe”, freelancer de texto e foto da “Veja”,  meu amigo de escola. O “Peixe” havia viajado por conta própria mas conhecia perfeitamente a capital. Craque do Pólo Aquático, ele estivera na cidade, com a delegação do País. durante os Jogos Olímpicos de 68. Além de nos apoiar, a mim e a Tim Teixeira, outro enviado da revista, em emergências profissionais, o “Peixe” se demonstraria um guia essencial naquela impressionante megalópole.

O Centro de Entretenimiento

O Centro de Entretenimiento

Fronton_Mexico

Por exemplo, o “Peixe” nos apresentou ao monumental Centro de Entretenimiento que, nas duas noites anteriores à decisão, nos regalou com um torneio de “Frontón”, ou a “Pelota Basca”, uma espécie de Squash gigante, no qual os contendores rebatem bolinhas com longas cestas numa das mãos. Também um veterano de passagens através da América Latina, o mestre Aymoré Moreira, o treinador do bi no Chile/62, comentarista exclusivo da editora de “Veja”, sabia de todas as manhas do “Frontón”, mais um jogo de apostas que um esporte. Enquanto os trouxas e os noviços, como eu, detonavam sua grana, o “Biscoito” beliscava o seu doce dinheirinho.

Valcareggi, entre Sandro Mazzolla e Gianni Rivera

Valcareggi, entre Sandro Mazzolla e Gianni Rivera

Arquivo Furio Valcareggi

Ainda graças ao “Peixe”, na véspera imediata da final nós jantamos numa cantina peninsular, La Pèrgola, principal ponto de encontro dos periodistas da Bota. Durante boa parte do sábado chovera bastante. E, numa mesa logo ao lado, depois de reconhecerem o nosso idioma, os colegas da Itália desandaram a ironizar: “Com o gramado pesado, ‘brasiliani’, amanhã adeus àquele seu estilo bonitinho de toque de bola”. Conforme se sabe, no domingo, o toró se despediu, a drenagem do Azteca devolveu o gramado às condições ideais e, apesar de um friozinho inesperado, a seleção de Mário Zagallo sovou a “Azzurra” de Ferruccio Valcareggi. E sovou, pois é, impiedosamente,

A foto antológica da bicicleta de Pelé

A foto antológica da bicicleta de Pelé

Arquivo Petrobrás Alberto Ferreira

De todo modo, amanhecemos tensos naquele domingo da decisão, 21 de Junho. Eu, em particular. Formávamos, os três de “Veja”, mais os seis da revista “Placar”, da mesma Editora Abril, um elenco de ridículos supersticiosos que, a cada jogo do Brasil, se vestiam com o mesmo conjunto de peças de roupa, dos sapatos ao “sombrero” eventual. E era proibido lavar. Coisa horrorosa, e deprimente. Todos, no entanto, acreditavam tanto na barbaridade que alguns chegavam até a fiscalizar se o vizinho estava com a cueca da sorte. E eu, por via das dúvidas, inclusive, não deixava de pregar, na lapela da minha camisa, branca de listrinhas verdes bem fininhas, um distintivo que a Petrobrás havia perpetrado a partir de uma imagem para sempre celebrada de uma bicicleta do Rei Pelé, graças a uma fotografia antológica de Alberto Ferreira.

Pelé comemora, Brasil 1 X 0 Itália

Pelé comemora, Brasil 1 X 0 Itália

CBF

Fato insólito, só a briga que ocorreu, durante o jogo, com dois colegas de mídia, o Orlando “Eclético” Duarte, creio que de “A Gazeta Esportiva”, e Paulo de Aquino, creio que do “Estadão”, mano do José Maria de Aquino, este do nosso time “Veja/Placar”. Nossa posição, nas tribunas da imprensa, se localizava bem ao lado de onde ficavam os “tifosi” da Itália, meramente separados por um pífio alambradinho. Pelé, de cabeça, inaugurou o marcador, 1 X 0. Porém, assim que a “Azzurra” igualou, 1 X 1, falha patética da saída de bola do Brasil, um casal desandou a provocar os “brasiliani” com palavrões e o famoso dedo-do-meio. E a dupla nos enfernizou até os 65’, quando o Gérson “Papagaio” cravou um petardo  deslumbrante, fatal, de canhota, 2 X 1.

Carlos Alberto arremata, Brasil 4 X 1 Itália

Carlos Alberto arremata, Brasil 4 X 1 Itália

FIFA TV

Num rompante, do nada, “vendetta”, o Orlando e o Paulo explodiram. Faltou bem pouco para que não pulassem o alambradinho. Precisei impedir que o Orlando atirasse a sua máquina de escrever no casal. A polícia surgiu, levou o casal para um outro lugar. E daí a História se delineou, admirável. Com um gol estranho do Jarizinho “Furacão”, e inclusive com o estupendo do Carlos Alberto. A minha primeira Copa encontraria um desfecho perfeitíssimo não fosse a pane que assolou o “Remendão”, o aeroplano da Canadian Pacific, empresa com quem a logística da Abril tinha programado a nossa volta – e eu revelo o seu nome, sem raiva, com piedade. A Canadian acabou em 1987.

Rivellino, de costas, e Pelé, na comemoração do triunfo

Rivellino, de costas, e Pelé, na comemoração do triunfo

Arquivo Pessoal

Pois é, “Remendão” pelo excesso inacreditável de placas metálicas de tonalidades diferentes na sua fuselagem. E o aparelho se obrigou a uma escala extra em Guaiaquil, no Equador, um atraso de seis horas. Deveríamos realizar a nossa conexão em Lima, no Peru, com um outro vôo, da saudosa Varig. Obviamente, porém, perdemos a conexão. Era uma terça-feira e apenas existiria um vôo da Varig na sexta. Porque as nossas bagagens todinhas ficaram retidas no aeroporto, basicamente quatro dias sem roupas limpas. Menos mal, e um reles alívio, a Canadian nos acomodou, pobres passageiros, no venerável Hotel Crillon, com seus rebrilhantes candelabros de cristal inclusive nos quartos. Candelabros que, determinada madrugada, desandaram a tilintar. Pois é. Eu experimente um terremoto nos Andes.

O edifício do Hotel Crillón em Lima, á venda

O edifício do Hotel Crillón em Lima, á venda

Hotel de Crillon

No susto, os hóspedes todos saíram à rua. Digamos, todos em trajes menores, inclusive as senhoras, em camisolas. Sobrevivemos, a minha presença aqui atesta. Daí, graças ao Aymoré, brilhante globetrotter, passeamos por Lima, comemos Ceviche, inclusive fomos ao cinema, “Sabata”, um bang-bang com Lee Van Cleef. Eu também comprei uma cueca nova, “sunga” na nota fiscal. Cuja, na minha prestação de contas, o financeiro da Abril glosou, por acreditar que se tratasse de um maiô. Evidentemente, eu provei a minha imperiosa necessidade da cueca nova. E o episódio se tornou lenda nos fuxicos da editora. Mereci até um bilhetinho bem-humorado do próprio patrão Victor Civita: “Na próxima nota, oriente para que escrevam ‘mutande’. VC”


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