Prisão de Ronaldinho vira trunfo para presidente paraguaio

Ameaçado por impeachment, criticado pela recessão, Benítez precisava de fato midiático para ganhar força política. Caso Ronaldinho é perfeito

Benítez precisava de fato novo midiático para aumentar sua popularidade

Benítez precisava de fato novo midiático para aumentar sua popularidade

Reprodução/Twitter

São Paulo, Brasil

Ronaldinho Gaúcho preso é um trunfo.

Uma vitória para o governo paraguaio.

Principalmente ao presidente Mario Abdo Benítez.

Eleito em 2018, ele estava sendo muito criticado.

Não só por conta das dificuldades econômicas que o país enfrenta.

Desemprego, queda da indústria, saúde caótica.

A falsificação segue sendo uma marca registrada do país.

Perfumes, cigarros, bebidas feitos em fábricas clandestinas são ainda distribuídos para toda a América do Sul.

Além da corrupção, o governo enfrenta a invasão de poderosas facções criminosas do Brasil.

Mario Abdo Benítez é um nacionalista convicto.

Anticomunista.

Cortou relações com o atual governo venezuelano.

Extreitou laços com os Estados Unidos.

Seu pai foi secretário particular do falecido ditador paraguaio, Alfredo Stroessner, que ficou 35 anos na presidência do país.

Apesar de prometer uma política repressiva contra os criminosos, os resultados do governo Benítez seguem pífios.

Assim como o combate à corrupção.

Benítez chegou a nomear um Ministro Anticorrupção, René Fernández.

O presidente quase sofreu impeachment por acordo com o Brasil envolvendo a usina de Itaipu, em agosto do ano passado. Pelo combinado com o governo Bolsonaro, o Paraguai pagaria mais pela eletricidade gerida pela usina binacional.

O acordo teve de ser cancelado, pela sobrevivência políticca de Benítez.

Desde então, sua popularidade caiu drasticamente.

No Paraguai e no Exterior.

Ele precisava de um fato novo.

Forte, midiático.

E ele veio.

A situação envolvendo Ronaldinho Gaúcho.

E, talvez não por coincidência, ela sofreu uma reviravolta impressionante.

Tudo passou a ser muito mais criterioso.

E não há como negar o cunho político.

Flagrado pelo Ministério Público na quinta-feira, com passaportes falsos, Ronaldinho e Assis iriam se beneficiar de um bizarro item no Código Penal Paraguaio.

"O senhor Ronaldo Assis Moreira, mais conhecido como Ronaldinho, aportou vários dados relevantes para a investigação e atendendo a isso, foram beneficiados com uma saída processual que estará a cargo do Juizado Penal de Garantias", garantiu o promotor Frederico Delfino.

Delfino dava sua desculpa por haver aceito o "critério de oportunidade", situação legal paraguaia que premia o acusado de 'delito leve', quando ele consegue provar que não 'houve má-fé' e quando não tem antecedentes crimais.

Mas houve uma revolta na mídia paraguaia pelo tratamento diferenciado dado pelo MP ao ex-jogador, sem investigação mais profunda.

Ela contaminou a população.

E chegou ao gabinete do presidente.

Benítez acionou o Ministro Anticorrupção Fernández.

A situação de Ronaldinho e Assis se transformou.

Diante do flagrante dos passaportes falsos, eles anteciparam a volta para o Brasil. Compraram passagens para o fim de semana passado.

Benítez sobreviveu à articulação por impeachment por Itaipu

Benítez sobreviveu à articulação por impeachment por Itaipu

Andrés Cristaldo / EFE - 27.7.2019

Só que a já até celebrada saída fácil do país vizinho não se concretizou. Pelo contrário. Seus advogados viram tudo ruir.

Nada de uma simples condenação social.

Nem a pior tese que esperavam: uma multa e a expulsão do país.

O que aconteceu foi muito além.

O diretor de Migração do Paraguai, Alexis Penayo, teve de pedir demissão. Pelo jogador e seu irmão entrarem no país com passaportes falsos e não terem sido detidos imediatamente.

O 'compreensivo' promotor Frederico Delfino foi afastado do caso.

Ronaldinho e Assis se transformaram em um símbolo mundial ao presidente Mario Abdo Benítez.

Com a prisão dos dois  e investigação profunda do caso, Benítez traz um ar de seriedade, firmeza na investigações de crimes no país.

E ganha o que estava faltando no seu governo.

Apoio popular.

Esta firmeza em relação a Ronaldinho não é por acaso.

Existe uma chance legal de que, em 48 horas, seu pedido de prisão domiciliar seja atendido. 

Mas seria contrariar a lógica.

O interesse do governo paraguaio.

E a determinação expressa da justiça.

De acordo com a juíza Clara Ruíz Diaz, ele não poderia deixar a prisão preventiva, até que toda a situação seja esclarecida.

Para não dar chance que ele e seu irmão fujam para o Brasil, onde não há extradição para brasileiros natos.

Ronaldinho preso ocupa as manchetes de portais no mundo todo.

Washington Post mostra a 'firmeza' do governo paraguaio

Washington Post mostra a 'firmeza' do governo paraguaio

Reprodução/Twitter

E por trás da prisão, a mensagem subliminar.

O Paraguai é um país sério.

Que não dá espaço para falsificação de passaporte.

Nem negócios mal esclarecidos.

O que interessa muito Mario Abdo Benítez...