Cosme Rímoli Pelé, o preço de duas cirurgias no quadril. A cadeira de rodas

Pelé, o preço de duas cirurgias no quadril. A cadeira de rodas

Não houve erro na primeira operação. Carreira de médico poderia ter acabado

Pelé, o preço de duas cirurgias no quadril. A cadeira de rodas

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Quando um médico decente acerta o diagnóstico da piora de um paciente, não há satisfação. Mas tristeza, melancolia por não poder resolver o problema da pessoa. Ou ao menos amenizar suas dificuldades, suas dores. 

A competência para enxergar o futuro difícil entristece.

Roberto Dantas Queiroz é nada menos do que presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Um dos mais respeitados médicos do país em artroplastia do quadril. Em português corrente, substituição quadril natural por uma prótese. Com décadas de experiência, com centenas de operações bem sucedidas. Sua agenda é lotada.

É um dos médicos mais importantes do país.

Mas em abril de 2016, ele quase teve sua carreira truncada, manchada, acabada. 

Pelo melhor jogador de futebol de todos os tempos, Pelé.

"Segundo os médicos que me analisaram, teve um erro médico [refere-se à cirurgia no quadril ocorrida em 2012]. Ou um procedimento, uma técnica [inadequada].

"Eu tinha um problema na resistência, e a dor não passava. Fiz fisioterapia por dois ou três meses, mas não passava. Os médicos que, antes, tinham me orientado a fazer a cirurgia no Brasil acharam melhor me levar aos EUA.

"Para encurtar a conversa, o médico disse que a técnica deles era a seguinte: tem o fêmur, a cabeça do fêmur e o chapéu, eles fixam com três parafusos, até calcificar. Aqui no Brasil, usaram um parafuso só e não calcificou, ficou solto. Eles acharam melhor que eu fizesse o reparo lá", disse em entrevista à Folha, em abril de 2016.

A primeira operação aconteceu em novembro de 2012. No hospital Albert Einstein. Foi totalmente gratuita. E comandada por Roberto Dantas Queiroz. Antes da cirurgia, ele se reuniu com os melhores especialistas do país. Fez até conferência com médicos norte-americanos. Tinha certeza do que precisava fazer.

"A cirurgia (prótese no quadril) de 2012 foi feita para corrigir uma artrose do ex-jogador, que sofria do problema desde 2009. A artrose é um desgaste das articulações, incluindo ossos, ligamentos e sobretudo cartilagens.

Para isso, os médicos do Einstein usaram uma prótese porosa que não utiliza cimento ortopédico, substituindo parte da articulação do quadril onde se dá o movimento por um quadril protético. Esse tipo de prótese se baseia no crescimento do osso do paciente para dentro dos microporos da prótese, que são fixadas por pressão (marteladas) no canal femoral.

"Os parafusos utilizados [dois, no caso de Pelé] servem apenas para a fixação inicial, que dura entre seis e doze semanas. Depois disso, não são os parafusos que sustentam a prótese, mas o próprio osso. Não mudaria nada colocar dois, três ou dez deles. A maior parte das próteses hoje em dia sequer utiliza parafusos", explica Dantas.

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Segundo o médico, Pelé passou por tomografias e ressonâncias no fim de 2015 e não foi detectada nenhuma alteração nos implantes. "Não havia qualquer problema na prótese, nenhum tipo de soltura. Esses exames foram avaliados por diversos médicos e radiografistas aqui do hospital, na época e agora, por conta desses comentários. Se houvesse qualquer problema com a cirurgia, algo que pode acontecer por vários motivos, nós mesmos teríamos alertado o paciente e recomendado um novo procedimento", publicou a Folha.

Pelé, o melhor jogador de todos os tempos, acusando erro médico, repercutiu no mundo todo. E mais, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), abriu sindicância para analisar todos os detalhes da cirurgia. E concluiu, em dezembro do ano passado, que não houve erro algum. 

O próprio Einstein, hospital que é referência na América Latina, fez sua investigação. E também concluiu que a operação foi bem sucedida.  

"O hospital avaliou as circunstâncias do atendimento e do procedimento realizado em 2012 novembro de por médico indicado pela família do próprio paciente e não encontrou nenhuma evidência de erro na conduta do médico, julgando-a adequada, dado o histórico, idade e queixa do paciente", divulgou o hospital, em nota assinada pelo diretor superintendente Dr. Miguel Cendoroglo Neto.

Mas os desmentidos não tiveram, lógico, a repercussão da acusação de Pelé.

Agora, a segunda parte deste triste odisséia. Roberto Dantas não havia indicado uma nova cirurgia para substituição no quadril. Não adiantaria nada. Pelo contrário, a tendência era que nova cirurgia invasiva poderia complicar o quadro de Pelé. Seu deslocamento poderia ficar muito pior. 

De acordo com o médico brasileiro, a dor que ele ainda sentia na lateral do quadril era em decorrência de uma fibrose. "O lugar onde fizemos a incisão para operá-lo acabou sofrendo uma hipercicatrização, que é quando o corpo produz muito mais colágeno do que seria necessário para sarar aquele corte."

"O que ele precisava fazer e nós indicamos a ele era uma liberação cirúrgica da fibrose, que é o corte desses tecidos que estavam presos aos músculos, gerando dor e limitação dos movimentos", explicou.

Só que Pelé decidiu fazer o contrário. Não quis saber de tratar da fibrose. Foi radical. E se submeteu à nova cirurgia, em janeiro de 2016, no Hospital for Special Surgery em Nova York. A operação foi invasiva e para 'corrigir' o tal erro da primeira intervenção. "Estou pronto e sem dores. Posso até jogar a Olimpíada, como um dos jogadores com mais de 23 anos", tentava brincar.

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Mas o tempo passou e as dores passaram a se manifestar. Fortes, lancinantes.

O prognóstico de Roberto Dantas Queiroz se confirmou. Pelé só piorou. Ele não participou da abertura da Olimpíada do Rio porque não podia ficar em pé. Nem mesmo com o auxílio de bengala. Ou muletas.

Depois, Pelé se recolheu, durante todo 2017. Foi à Rússia para participar do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Mas não conseguiu. Estava preso a uma cadeira de rodas, chocando o mundo. 

Infelizmente, pessoas ligadas a Pelé dizem que é assim que ele se desloca. Com cadeira de rodas. Falta firmeza no quadril. Usar bengala ou muletas se tornou dolorido demais. 

Colocar duas próteses no quadril em um ex-jogador, com mais de 70 anos, com toda a articulação desgastada por décadas jogando futebol... Ainda mais com a medicina atrasada das décadas de 60 e 70, que exigiu infiltrações de analgésicos, para disfarçar as dores... Somada à tendência genética à forte artrose, não sugeria um quadro promissor.

As pessoas que convivem com Roberto Dantas Queiroz, na Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, sabem. Ele sempre esteve certo em relação a Pelé. Dantas tem 28 anos de experiência no que faz. Segue sendo referência em Biomecânica,Lesões esportivas, Medicina esportiva e Deformidades no Sistema Locomotor. Tem portas abertas nos melhores hospitais do Brasil para operar.

Todo seu conhecimento foi questionado por Pelé.

Publicamente.

Dantas poderia ter sua carreira acabada.

Mas o tempo provou que estava certo.

Fez o que pôde.

Operou, aconselhou, recomendou o que deveria ter sido feito.

Para alguém com as articulações tão desgastadas.

E com mais de 75 anos.

Mas Pelé optou pela segunda operação no quadril.

Nos Estados Unidos.

E hoje, o 'atleta do Século XX' sofre.

Preso a uma cadeira de rodas...

Dantas: carreira ficou sob risco

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