Cosme Rímoli Jornalistas no avião da Seleção. Ironizando a derrota para a Bolívia

Jornalistas no avião da Seleção. Ironizando a derrota para a Bolívia

Assoviando o hino da conquista de 1970, a imprensa lembrava aos jogadores a importância da Seleção. Logo depois do histórico vexame em La Paz

Brasil, 25 anos do tetra, Seleção Brasileira, como assisto Inter e Palmeiras, Neymar, Bolsonaro

A primeira derrota do Brasil na história das Eliminatórias. Jornalistas não perdoaram

A primeira derrota do Brasil na história das Eliminatórias. Jornalistas não perdoaram

Reprodução/Twitter

São Paulo, Brasil

Sem Romário, o time de Parreira disputa as Eliminatórias de forma deprimente. Ainda mais para um país que nunca havia perdido um jogo na história das partidas classificatórias às Copas.

Capítulo 3

O vexame e o assovio dos jornalistas

Primeiro, veio o frustrante empate com o Equador e fomos para La Paz acompanhar o confronto com a Bolívia.

Mal desembarco, e sinto a recepção dos 3.760 metros de altitude.

A tampa da minha cabeça parecia que iria explodir.

E o nariz de Prósperi, parceiro de cobertura, não pára de sangrar.

Efeitos da altitude.

O Brasil joga mal demais e perde por 2 a 0.

Os atletas e Parreira não sabem explicar o motivo do vexame.

Colocam a culpa na altitude, na bola, no gramado.

Não assumem o péssimo futebol.

O JT nos havia colocado no vôo da Seleção.

Tínhamos de escrever o texto do jogo na correria.

Não tive dúvidas.

Pedi dois bules de chá de coca.

"Bien fuertes", pedi, no meu fraco espanhol.

O nariz de Prósperi segue jorrando sangue.

Ele se deita.

Eu escrevo feito um alucinado.

Por ele e por mim.

Efeito da pressão para chegar os textos no jornal.

E também pela chá de folhas de coca.

Foi assustador.

Fiquei dois dias sem dormir, eufórico.

Depois do texto pronto, seguimos, quebrando todas as regras de trânsito da Bolívia, para o aeroporto.

No avião, na parte da frente ia o time.

Da metade para trás, os jornalistas.

No meio, seguranças.

As entrevistas estavam proibidas.

Foi quanto Antônio Maria, então repórter proeminente de O Globo, começa a assoviar.

Nós reconhecemos as notas.

Era  “Pra Frente, Brasil”, tema da Copa de 1970.

Música ufanista de Miguel Gustavo e Raul de Souza, escolhida em concurso bancado por uma cervejaria para embalar o Brasil no México.

Começamos todos os cerca de 30 jornalistas a assoviar e batucar o tema que representava a grande conquista do futebol brasileiro.

Pura ironia, vingança pelo péssimo desempenho.

Pelo vexame diante da Bolívia.

Os jogadores não entenderam nada.

E nem queriam.

Só ficaram irritados, porque era madrugada, e eles não iriam dormir.

Parreira e Zagallo, sim.

Era o protesto da imprensa.

No que havia se transformado a Seleção, depois de 24 anos.

A partir desse vôo, Ricardo Teixeira proibiu.

Não dividiu mais os aviões entre jogadores e imprensa.

A pedido da Comissão Técnica.

Não queriam ouvir novamente "Pra Frente, Brasil"

A relação entre a imprensa e a Seleção seguiu péssima.

Durante toda a Copa de 1994.

E só piorou com o passar dos anos...