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Cosme Rímoli

Globo cansou. Estaduais estão com os dias contados

A dona do monopólio do futebol neste país avisa. Não pagará mais R$ 1 bilhão pelos esvaziados Estaduais. Quer mudança no calendário do futebol

globo

Do R7
Reprodução/Instagram

A ironia do torcedor, em pleno Maracanã, durante o Campeonato Carioca

São Paulo, Brasileiro

Os executivos da TV Globo confirmam.

Cansaram de desperdiçar dinheiro e perder audiência.

A decisão está tomada.

Os Estaduais não interessam mais.

E o primeiro passo será dado.

Vão pagar muito menos dinheiro aos torneios, daqui para a frente. 

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A verba gasta com a transmissão dos torneios em todo o país chega a R$ 1 bilhão anual. E não há retorno. Muito pelo contrário. A esmagadora maioria das partidas, jogos entre equipes grandes e pequenas, derruba o Ibope, irrita patrocinadores e até mesmo produtores de programas dominicais, como o de Fausto Silva.

"Quero adiantar pra vocês. A partir de 2020 a Globo não financiará, não comprará, nenhum campeonato estadual. O último é o próximo (em 2019). A Globo não quer mais Campeonatos Estaduais. É deficitário. Ela quer antecipar o calendário do Brasileiro para fevereiro e vender pay-per-view e publicidade do Brasileiro.

"O único Estadual que ficará por um tempo, até 2022, é o Paulista."

A revelação foi feita pelo presidente do Conselho Deliberativo do Atlético Paranaense, Mario Celso Petraglia, em entrevista à rádio Transamérica. 

Petraglia até adiantou que o Atlético Paranaense não terá seus jogos do próximo estadual transmitido na tevê aberta. Não aceitou os R$ 600 mil oferecidos pela Globo e as partidas do seu clube não serão mostradas pela emissora. Como aconteceu em 2017.

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A TV Globo quer uma revolução, uma mudança no calendário do futebol brasileiro. E o ponto nevrálgico, fundamental, está nos Estaduais. Ele é, disparado, a competição menos importante. Há a Libertadores, o Brasileiro, a Copa do Brasil, a Sul-Americana. Esses quatro torneios já são mais do que suficientes.

Não há mais apelo ao telespectador para os Estaduais.

A grande maioria dos clubes pequenos estão à beira da falência.

Não há a mínima competitividade.

As jovens promessas, revelações estão nas mãos dos empresários desde os 15, 16 anos. E são levadas diretamente para a Europa. Não acontece mais como no passado, quando os garotos estavam amarrados aos clubes e esperavam, desesperadamente, começar os Estaduais para mostrarem seus potenciais aos clubes grandes.

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Para piorar, a Conmebol 'esticou' a Libertadores.

Ela começa agora em janeiro.

Leonardo Benassatto/Reuters - 31.10.2018

O Palmeiras tinha 26 jogos a mais que o Boca, na semifinal da Libertadores

Os clubes que não conseguiram suas vagas nos grupos precisam disputar a primeira fase da competição, batizada de 'Pré-Libertadores'. E é lógico que irão virar as costas aos Estaduais. Não irão expor seus raros jogadores diferenciados, talentosos, em um torneio que não leva a nada, sem razão de ser.

Além disso, com o desenvolvimento do futebol e das leis trabalhistas, os jogadores ganharam 30 dias de férias. E os dirigentes são pressionados por seus treinadores para que os clubes façam pelo menos 30 dias de pré-temporada. Período fundamental na preparação atlética dos jogadores para que possam suportar dez meses de competição.

Os Estaduais sabotam a pré-temporada.

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Acumulam jogos inúteis que desgastam os clubes, que são obrigados a participar da competição para não serem desfiliados das Federações Estaduais. Sem a filiação, não podem disputar nenhum torceio oficial homologado pela Fifa e CBF.

Antes da semifinal desta Libertadores, de 2018, o Palmeiras já tinha entrado em campo 26 vezes mais do que o Boca Juniors. Na Argentina não há Estaduais. Esses torneios nasceram no início do século passado, quando a disputa de um torneio nacional era quase um exercício de ficção, por conta das distâncias, das dificuldades.

Corinthians, campeão, e Palmeiras, vice, tiveram de entrar em campo 18 vezes no Paulista. Pouco importa se estavam envolvidos na Libertadores, na Copa do Brasil e depois teriam o Brasileiro. 

Os presidentes de Federações, eleitores que sustentam politicamente o presidente da CBF, exigem a manutenção do torneio. Porque são os três meses que têm para lucrar com transmissão, parte da arrecadação, patrocínio; e manter o apoio dos clubes pequenos, levando os grandes para jogarem no Interior.

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A estratégia por décadas para calar os clubes grandes foi a mesma para todas Federações. Adiantar direito de transmissão e fazer empréstimos. Com isso, as entidades contavam com a conivência de acovardados dirigentes.

Para que times não colocassem reservas, além da pressão extraoficial, regulamentos passaram a limitar o número de inscritos. Ou seja, não há espaço para que, por exemplo, na primeira fase do torneio, os grandes atuem com atletas sub-23. E depois, na reta final, coloquem seus jogadores principais. Até porque no período inicial dos campeonatos é quando os times pequenos são visitados pelos consagrados.

Os clubes reclamam há anos e anos mas não agem.

Coube à dona do monopólio do futebol na tevê aberta tomar a decisão.

Chega deste desperdício, de perder dinheiro, audiência e público.

A média de público dos principais estaduais em 2018, mesmo inchada com ingressos baratíssimos, é vergonhosa.

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O Paulista teve 9.071 pagantes. O Carioca ficou em 3.995 pagantes. O Mineiro, 6.542 pagantes. O Gaúcho, 4.262 pagantes.

Jogos entre pequenos é algo vexatório.

E que a Globo não mostra de jeito algum.

A hipocrisia está acabando.

"O fato de um terço do ano estar dedicado a eventos regionais traz efeitos colaterais, desde um inevitável distanciamento de receitas entre clubes por causa do seu estado de origem até a perda de atenção plena do torcedor brasileiro no nosso futebol como um todo, pois durante os Estaduais cada mercado acaba ignorando o que acontece nos outros", desabafa o diretor de direitos esportivos da Globo, Fernando Manuel, ao site Máquina do Esporte.

A postura de Manuel é clara.

Agência Corinthians

O papel picado não disfarça os fracassos dos Estaduais. A Globo acordou

E como tudo na Globo necessita de permissão, quando o diretor de eventos esportivos deixa claro que não há mais motivo para os Estaduais consumirem um terço do calendário dos grandes clubes, é porque ele fala pela emissora.

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O sonho está em pelo menos tirar os clubes grandes dos Estaduais, fazer com que, como na Argentina, disputem torneios curtos de preparação. Com clássicos rentáveis. Os pequenos seguiram disputando os campeonatos, até para não desaparecerem.

Os presidentes de Federações pressionam a CBF para não aceitar a pressão da Globo para a mudança do calendário. E tudo siga da mesma maneira. 

As entidades mais ricas, como Federação Paulista de Futebol, oferecem mais dinheiro e até VAR, nas próximas disputas. 

Mas a Globo quer o fim dos Estaduais.

Não por preocupação com o futebol brasileiro.

Mas por conta dos gastos, da audiência.

E da falta de retorno dos patrocinadores.

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Silenciosamente os clubes grandes apoiam a Globo.

Vivemos o ano de 2018.

E não 1902, quando foi disputado o primeiro Paulista.

Gastar R$ 1 bilhão com os Estaduais é um desperdício.

Assim como também 80% de jogos com estádios vazios.

Com quase ninguém querendo ver confrontos entre pequenos.

Jogos entre grandes e pequenos já derrubam a audiência.

As festas das finais já não enganam mais.

Não são suficientes para mostrar o fracasso.

O desinteresse, a falta de rumo dos torneios insignificantes.

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A era dos Estaduais acabou há muito tempo.

Com a valorização da Libertadores na década 90.

São quase 30 anos de desperdício.

Só para a manutenção do status quo.

Dos presidentes de Federações e da CBF.

E a revolução tinha de começar com a maior parceira.

A que tem o privilégio do futebol nacional na sua grade.

Que o trata como um programa qualquer.

Com a atenção de uma novela, de um filme.

E os Estaduais não jusfificam mais os gastos.

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Ainda mais com a pobre audiência.

A necessidade da Globo por mais dinheiro, vindo da bola, é uma bênção ao futebol deste país.

É bom os patrocinadores acordarem.

Os Estaduais estão com os dias contados...

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