Cosme Rímoli Detalhes do mais hediondo assassinato de jogador no Brasil

Detalhes do mais hediondo assassinato de jogador no Brasil

A morte de Daniel é o principal assunto neste país. Relembra Almir Pernambuquinho, na década de 70. Só que o crime no Paraná foi hediondo

assassinato de daniel

Daniel, dupla personalidade. Tímido nas entrevistas. Baladeiro convicto

Daniel, dupla personalidade. Tímido nas entrevistas. Baladeiro convicto

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

Há 45 anos, o país estava chocado. 

Almir Pernambuquino caía morto no calçadão de Copacabana. Com um tiro a queima-roupa na cabeça. Aos 35 anos, o ex-atacante ainda era muito conhecido e respeitado. 

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Jogador do Sport, Vasco, Corinthians, Boca Juniors, Fiorentina, Genoa, Santos, onde foi campeão mundial, Flamengo e América do Rio.

Chegou a jogar cinco vezes pela Seleção Brasileira.

Veloz, driblador e inteligente no campo. Polêmico, brigão, não deixava passar um desaforo sem resposta. Se envolveu em inúmeras brigas.

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A mais famosa foi na final do Carioca de 1966.

O Bangu vencia o seu Flamengo por 3 a 0.

E jogando muito melhor, poderia aumentar o vexame.

Foi quando ele sozinho resolveu que o rival não daria a volta olímpica no Maracanã, lotado de flamenguistas. Começou um confronto com vários atletas rivais. Pouco importava que ele tinha apenas 1m67. Trocou socos e pontapés com jogadores mais altos e fortes. Foi expulso. E estava indo embora, quando decidiu voltar e brigar mais ainda. Conseguiu a confusão que queria. O Flamengo teve seis atletas expulsos e o Bangu quatro. 

Não houve clima para volta olímpica.

Abandonou a carreira aos 31 anos, cansado das lesões, desgastado pela bebida e drogas. 

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Tinha a fama de 'machão', que detestava homossexuais.

Mas ele estava com uma namorada e um casal de amigos no bar Rio-Jerez, em Copacabana, na madrugada dia 6 de fevereiro de 1973. Em outra mesa estava alguns bailarinos do grupo Dzi Croquetes, ainda vestidos de mulheres, como faziam nas suas apresentações. A esmagadora maioria era gay. O que era um enorme problema no início da década de 70.

Três portugueses,em outra mesa, começaram a provocar, xingar, ironizar os dançarinos.

"Viados, paneleiros, putos", gritavam.

Foi quando Almir Pernambuquinho não resistiu e mandou que eles se calassem.

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E já esbofeteou o filho mais novo de Arthur Garcia Soares.

O pai puxou sua pistola.

O amigo de Almir, Alberto Russo, fez o mesmo.

Almir estava desarmado.

E começou o rápido e fulminante tiroteio. 

Alberto morreu com tiros no peito.

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Almir recebeu um certeiro na cabeça.

Caiu morto no calçadão de Copabana.

"Um machão morreu defendendo homossexuais", repercutiam, irônicos, jornais e revistas da época.

O assassinato parou o país. 

E é lembrado até hoje.

O português Arthur Garcia Soares saiu livre.

A tese aceita pela justiça: legítima defesa.

Almir Pernambuquinho e a histórica briga com o Bangu no Carioca de 1966

Almir Pernambuquinho e a histórica briga com o Bangu no Carioca de 1966

Reprodução/Sportv

Quarenta e cinco anos depois, o assunto mais buscado pela Internet, mesmo depois da eleição de Jair Bolsonaro, é o assassinato de Daniel, meia/volante que pertencia ao São Paulo.

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Jogador surgido no Cruzeiro. Habilidoso, de grande arrancada, visão de jogo. Ganhou até o apelido de Messi. Chegou a jogar na Seleção Brasileira sub-17.

Foi como grande esperança para o Botafogo. Estava sendo disputado por Palmeiras e São Paulo.

Mas, em uma das última partidas pelo time carioca, contra o Ceará, sofreu uma lesão no ligamento colateral anterior do joelho direito. Resultado: foi vetado pelo departamento médico no Palmeiras.

O São Paulo resolveu apostar na recuperação e o contratou por três anos.

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Fez cirurgia, mas nunca mais conseguiu ser o mesmo jogador.

A lesão passou a ser crônica, atrapalhando seu desempenho. Não conseguia as mesmas arrancadas, a ótima visão de jogo continuava, os toques de primeira. Tanto que clubes se interessaram. Foi emprestado para o Coritiba, onde fez muitas amizades. Passou sem sucesso pela Ponte Preta. Estava no São Bento.

Embora fosse muito reservado, tímido nas entrevistas, gostava de se divertir, namorar.

Sua personalidade mudava nas baladas.

Tinha apenas 24 anos.

Já tinha uma filha de um ano, de um relacionamento terminado.

Sua mãe a criava em Juiz de Fora, cidade de Minas Gerais, onde nasceu.

De acordo com depoimentos da Polícia do Paraná, Daniel tinha a péssima mania de relatar, divulgar em grupos de WhatsApp as garotas que namorava. Era um costume seu mostrar as fotos com quem dormiria junto. Ele era solteiro.

Ele tinha amigos em Coritiba e, como estava de folga do São Bento, quis aproveitar o convite para a festa de aniversário de Allana Brittes. Já a conhecia desde 2017, quando participou da festa de 17 anos. Edison Luiz Brittes Júnior e sua mulher Cristiana Brittes também estariam na danceteria Shed Bar. 

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O apelido do assassino confesso de Daniel em Curitiba é Juninho Riqueza. Ele possui duas lojas de alimentos e estava abrindo uma terceira. É um homem de posses.

Ele sempre gostou de ostentar jóias, carros caros. Sua mansão, no Jardim Cristal, onde tudo aconteceu, tem dois leões esculpidos no portão principal. Adorava ir para festas com sua mulher e filha usando roupas deslumbrantes, perfumadas, mais jóias e seus longos cabelos loiros.

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Na festa da Shed, ele fechou dois camarotes para sua comemoração particular. Com bebida à vontade. O grupo era de de 12 pessoas. Depois passou a ter mais dez agregados. Entre eles, Daniel.

Toninho Riqueza gostava de ostentar jóias, a esposa e a filha

Toninho Riqueza gostava de ostentar jóias, a esposa e a filha

Reprodução/Instagram

Para esquecer a timidez, Daniel bebia muito nas baladas. Era assim que se aproximava das garotas. Embora atuasse emprestado no São Bento, era conhecido como jogador do São Paulo na Shed. E isso abria as portas.

Jogador de futebol sempre é tratado com reverência em festas, baladas. Tenho 34 anos de carreira e sei o quanto a grande maioria das garotas se comporta quando sabe estar diante de um atleta.

Já vi inúmeras vezes.

Fama, viagem, dinheiro são embelezadores perfeitos.

O atleta só fica sozinho se quiser.

O grande dia das festanças dos jogadores é a segunda-feira, dia de folga. Por todo o país, nas baladas mais caras, mais reservadas, é muito comum encontrá-los em camarotes. De lá, eles escolhem as garotas que querem conhecer, passar a noite. Várias delas até pedem para conhecer os atletas, caso nao sejam notadas. As conquistas costumam ser bem fáceis.

É com esse espírito que Daniel ia para as festas, pelas mensagens que passava aos amigos. E divulgadas pela Polícia do Paraná. Acreditava que aquela madrugada do sábado, dia 28 de outubro, seria mais uma de farra garantida.

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Ainda mais quando foi para a festa particular na mansão de Juninho Riqueza. Ele não sabia, mas o pai de Allana e marido de Cristiana, tinha duas passagens pela polícia. Por porte de ilegal de arma. E, apesar de alegre, brincalhão, tinha o perfil de um homem explosivo com quem ousasse mexer com sua belíssima esposa. Ele gostava de a ter ao seu lado nas baladas, mas ninguém chegava perto, de acordo com depoimento da Polícia Civil do Paraná.

Daniel estava animado e deixava claro que acreditava que teria uma manhã de sexo, naquela mansão. De acordo com depoimento de Allana, ele já estava 'ficando' com uma garota. E o casal foi para o 'after party' na casa de Juninho Riqueza.

A mansão estava passando por uma reforma. Cerca de 12 pessoas estavam no salão de festas. A grande maioria já estava embriagada da farra na casa sertaneja Shed. Os depoimentos da filha Allana e da esposa Cristina demonstram o que pode ter levado Daniel ao maior erro de sua vida.

Assim que chegaram, Cristiana e uma amiga começaram a dançar em cima de uma mesa. Allana relata que Juninho Riqueza percebeu que sua esposa estava de saia decotada e era possível ver suas coxas. E mandou que a filha fosse buscar um short para a mãe continuar a dançar. 

A Polícia divulgou as imagens de três suspeitos de participação no assassinato

A Polícia divulgou as imagens de três suspeitos de participação no assassinato

Divulgação/Polícia Paraná

INVESTIGAÇÃO: Testemunhas desmentem versão de suspeitos de matar Daniel

De acordo com relatos de várias testemunhas, Daniel já tinha bebido muito na danceteria. E seguia bebendo na mansão. 

 

Cristina também havia bebido e anunciou a todos que iria dormir.

Juninho Riqueza a teria levado para o quarto do casal.

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Ao voltar para a festa, Edison percebeu que as bebidas teriam acabado.

E saiu para comprar, de acorto com o relato de Cristiana.

Foi quando Daniel teria se aproveitado para entrar no quarto. E trancado a porta. E passou a mandar mensagens para o seu grupo de amigos no Whatsapp. Com fotos na cama com Cristina. Chegou até a relatar ter tido relações sexuais com ela, detalhou de maneira chula. Nas mensagens, ria. Um amigo implorava que fosse embora. Ou iria apanhar.

Advogado da família de Daniel, Nilton Ribeiro, jura que foi apenas um brincadeira de mau gosto e não houve nem tentativa de sexo.

Já o defensor de Juninho Riqueza, Claudio Dalledone, desmente a versão.

E segue na tese de tentativa de estupro.

O que foi reforçado com detalhes do depoimento de Cristiana.

Para a Polícia do Paraná ela detalhou que estava dormindo e acordo com Daniel 'em cima dela'. Assustada, começou a gritar. Daniel estaria se esfregando no seu corpo e repetindo a mesma frase.

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"Calma, é o Daniel.

"Calma, é o Daniel."

A foto que Daniel divulgou para amigos. Teria sido sua sentença de morte

A foto que Daniel divulgou para amigos. Teria sido sua sentença de morte

Reprodução/Whatsapp

Diante dos gritos da mulher, Juninho teria arrombado a porta do quarto.

De acordo com Allana, seu pai ainda falou.

"Você está na minha cama, com a minha mulher, mãe das minhas filhas, o que você está pensando?"

Tomado de ódio, começou a espancar Daniel. Além dos primeiros socos, começou a apertar o pescoço do jogador. Cristiana saiu do quarto pelo janela e chamou os convidados.

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De acordo com ela, seu pedido, era para que controlassem Edison. Só que três convidados ficaram revoltados com a situação.

E passaram a bater também em Daniel.

Seriam eles, de acordo com Cristiana, David William Vellero Silva, de 18 anos, (namorado de Allana), Igor King, de 20, e Eduardo Henrique Ribeiro da Silva, de 19 anos.

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Eles serão interrogados pela Polícia do Paraná.

Segundo os relatos de Cristiana e Allana, todos bateram muito em Daniel.

Sua sentença de morte teria sido decidida depois que Edison viu o celular do jogador, com as fotos e mensagens enviadas. Foi aí que optou pelo assassinato. Uma testemunha disse que ele pegou uma enorme faca que estava na cozinha. Juninho Riqueza o contradiz, garante que estava dentro do carro.

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Ele teria saído inconsciente do casa. E foi jogado no porta-mala do Veloster preto do marido.

De lá, foram para uma estrada do Mergulhão, lugar ermo de São José dos Pinhais. De acordo com investigações da Polícia Civil, ele teria sido amarrado e barbaramente torturado. Com socos, pontapés e facadas.

Teve o seu pênis arrancado em um golpe de faca. E jogado em uma árvore, a vinte metros de onde foi encontrado morto. Os dois golpes que tiraram sua vida foram no pescoço.

Um deles, de acordo com os policiais, foi tão profundo que quase arrancou a sua cabeça.

A Polícia do Paraná queria saber se Cristiana confirmava a tese de tentativa de estupro, foi o que ela fez. Alanna, a filha, confirma que foi orientada pelo pai para dizer à família de Daniel que ele saiu vivo da casa. Ela mentiu para a mãe do jogador, em várias mensagens do WhatsApp.

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Testemunha garante que houve uma reunião entre quem esteve na mansão, exigida por Edison. E que todos que estavam lá deveriam confirmar a versão de tentativa de estupro por parte de Daniel.

O próximo passo da Polícia é tomar o depoimento oficial de Edison Brittes. E de David William Vellero Silva, Igor King e Eduardo Henrique Ribeiro da Silva. Eles também poderão ser acusados de assassinato.

Para revoltar ainda mais a família, circula pela Internet fotos de Daniel morto. Sem roupa alguma. Com o rosto massacrado pelos socos e chutes. Os cortes no pescoço. E mutilado, sem o órgão genital. 

A mãe do jogador implora que estas fotos não sejam mais divulgadas. Ela já viu o filho neste estado terrível.

Daniel na festa de um ano de sua filha. A morte trágica ficará marcada

Daniel na festa de um ano de sua filha. A morte trágica ficará marcada

Reprodução/Instagram

Tudo é muito chocante.

Esse foi o crime mais hediondo envolvendo um jogador.

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E de uma equipe grande.

Daniel pertencia ao São Paulo.

Aliás, os atletas do clube, que atuou de luto contra o Flamengo, têm a recomendação de não falar sobre o assassinato. Para evitar polêmicas.

Mas o assunto segue com enorme espaço na mídia.

A violência foi selvagem demais.

Bárbara.

Edison, Cristiana e Allana seguem presos em Curitiba.

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A expectativa agora está na acusação e na punição do terrível assassinato.

A previsão é que leve meses.

Com as redes sociais passando cada detalhe.

O que aconteceu na mansão de Juninho Riqueza foi abominável.

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A tese da defesa do hediondo assassinato é clara.

Insitir que Edison foi tomado por 'violenta emoção'.

Mas é quase impossível que tenha o mesmo rumo do assassino de Almir Pernambuquinho, o português Arthur Garcia Soares.

E saia livre do tribunal...

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