Seleção brasileira

Cosme Rímoli A pior missão. Ser setorista de Ronaldinho na Copa do Mundo

A pior missão. Ser setorista de Ronaldinho na Copa do Mundo

Ronaldinho Gaúcho não tinha competitividade, comprometimento, vibração

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Nas Copas do Mundo de 2002 e 2006, os editores de Esportes do Jornal da Tarde decidiram. Cada um dos três envolvidos na cobertura iriam se transformar nas sombras dos principais personagens da Seleção. O editor ficaria com o treinador. Felipão no Japão e Parreira, na Alemanha. 

Meu parceiro Luiz Antônio Prósperi ficaria com Ronaldo. Os dois se davam muito bem, com o auxílio providencial e discreto do saudoso Paulo Júlio Clement, assessor do Fenômeno. A mim, coube Ronaldinho Gaúcho. 

A princípio, adorei a escolha. Na Copa de 2002, ele estava no Paris Saint-Germain. E fazia o que queria dos franceses. O clube tentava evitar sua iminente saída, que se concretizaria no ano seguinte, para o Barcelona.

"Não vai se animando, esperando que ele vai render manchetes. O Ronaldinho é um jogador fantástico. Mas ele vive em outro mundo. No mundo só dele. E ninguém entra."

Este foi o aviso do meu amigo de coração, David Coimbra, colunista brilhante, editor e a alma do esporte no Zero Hora de Porto Alegre. Tratei de não levar a sério o aviso.

Melhor começar por 2002.Embora o assessor de imprensa da Seleção, Rodrigo Paiva, tentasse bloquear o acesso aos jogadores, sua estratégia ainda era primária. Longe do controle absoluto de agora, 16 anos depois.

Os jogadores eram liberados para falar por 30 minutos, aos grupos. Rodrigo imaginou os repórteres rodando, falando de maneira artificial com o máximo de jogadores possíveis. Para nada se aprofundar. E foi realmente o que a esmagadora maioria dos veículos fez. Eu e o Prósperi éramos as exceções. 

E as entrevistas com Ronaldinho foram a parte mais angustiante das Copa de 2002 e 2006. Pelo menos duas vezes por semana, ficava cara a cara com ele, enquantos os repórteres rodavam, eu tentava me aprofundar em um tema. Fiz de tudo. Falei sobre o sucesso, o assédio, ser um dos melhores do mundo, da perda do pai, do irmão Assis ter a carreira interrompida por contusão, jogar com Ronaldo e Rivaldo, a expectativa de fazer o Brasil ser campeão, da saída intempestiva do Grêmio, do assédio das pessoas, da sua atração pela noite, de Assis, que o tratava como filho e não irmão. De Felipão. 

Nada.

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Ele olhava para os meus olhos, inteligente, sabia o que eu queria. Uma resposta que desse manchete. E sorria. E repetia clichê atrás de clichê. "Está tudo bem. Estou muito feliz por estar aqui. O importante é o grupo unido. Gosto de festa como todos gostam. O Assis só  quer o melhor para mim. Felipão sabe montar o time. Jogar com o Ronaldo e o Rivaldo é um prazer. Vamos fazer tudo para ganhar a Copa." 

Respondia me encarando, com um sorriso nos lábios. Havia sido treinado para ser artificial. Era seu escudo contra a impresa. Não tinha interesse em se mostrar como pessoa. Irritado, pensei que fosse algo pessoal. Mas fazia questão de assistir suas entrevistas para as tevês e ouvir o que falava no rádio. Os veículos eram separados por Rodrigo Paiva. Ronaldinho mantinha a mesma distância, seguia não falando nada com nada.

E eu vendo o Prósperi ficar com todas as manchetes. De maneira merecida. O Fenômeno aproveitava cada ocasião para criar um fato novo. Como quando estava contundido, cortar seu cabelo de forma ridícula.

"Fiz para desviar a atenção da imprensa, para os meus marcadores não ficarem sabendo que estava com fortes dores na coxa. Mas tenho de confessar, quando vi que milhares de crianças no Brasil imitavam aquele corte, fiquei com dor na consciência. E quase pedi para que os pais não fizessem aquela crueldade", ri, agora, Ronaldo.

Vieram as quartas de final, contra a Inglaterra. Lúcio falha bizonhamente. Owen se aproveita. O Brasil sai perdendo. Ronaldinho Gaúcho dá uma arrancada espetacular e faz Rivaldo empatar o jogo, no final do primeiro tempo. Me animo. Aos cinco minutos da etapa final, cobra falta da intermediária. E encobre o goleiro Seamen, que adorava atuar adiantado. Não acredito. Finalmente, ele decidia o jogo mais temido por Felipão. 

Em seguida, dá uma entrada criminosa, tosca em Mills. É expulso. Ruim para o Brasil, mas se torna ainda mais importante para a minha matéria. Finalmente, a manchete principal daquela Copa seria minha. O editor me dá duas páginas.

Chega a hora da zona mista, da hora de entrevistar Ronaldinho. Me porto como um Sansão ensandecido, empurrando a todos para chegar perto com o gravador de sua boca. E começo a perguntar. Ele tinha de se alterar. Qualquer ser humano mostraria emoção, depois da montanha russa de sentimentos, naquele jogo tão importante.

"Estou feliz pelo grupo. Jogamos bem. Uma pena a minha expulsão. Mas o importante que o Brasil venceu. Confio no jogador que Felipão colocar no meu lugar. Está tudo sob controle."

Duas vezes melhor do mundo.

Duas vezes melhor do mundo.

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Falou com a emoção de quem compra um pãozinho na padaria. Perguntei se houve malícia na cobrança da falta ou o gol foi sem querer e ele foi cruzar. "O Cafu me disse que o Seaman gosta de jogar adiantado. Peguei bem na bola e marquei." E sobre a expulsão, o que houve? "Entrei duro, não deu para tirar o pé. E recebi o vermelho. O juiz fez o que achou que tinha de fazer." 

Desesperado, corri para Rivaldo. E ele, que nunca foi muito profundo, acabou sendo muito melhor que Ronaldinho Gaúcho. Foi quando pedi para o editor. "Pelo amor de Deus, me deixe cobrir os dois jogadores. O Ronaldinho Gaúcho fala como se estivesse disputando um torneio de casado e solteiro. Não uma Copa do Mundo." Foi a melhor coisa que poderia ter feito. Rivaldo, para mim, foi disparado o melhor jogador do Mundial.

Após o Brasil ser pentacampeão, nós esperamos mais de um hora o time terminar o banho. E quando saiu para a zona mista, vi Ronaldinho Gaúcho com um pandeiro na mão. A equipe acatou a ideia de Roque Júnior. E se vingou da imprensa brasileira que tanto criticou o time nas Eliminatórias. E decidiu não falar aos jornalistas. Ronaldinho Gaúcho foi o primeiro a aderir à ideia. 

Os atletas perderam uma oportunidade de ouro. Havia jornalistas do mundo todo esperando por suas palavras. Mas se deixaram levar pelo rancor. Desperdiçaram a chance de se expressar para o planeta, no auge da alegria. O momento mais importante de suas carreiras.

Veio 2006. E outra vez, o editor me impõe Ronaldinho Gaúcho. Batalho e consigo também Adriano. Prósperi fica com Ronaldo Fenômeno e Kaká. Destrinchávamos o tal 'quadrado mágico'. Mas só, de nada adiantou ser melhor do mundo em 2004 e 2005. Ronaldinho Gaúcho seguia o mesmo. Para piorar, Adriano se apresentou gordo, com o físico de um lutador de MMA. Falava que estava com três a mais, do seu ideal, 91. Mas, já seduzido pelas noitadas regadas a álcool, tinha oito quilos mais pesado. Perdia arranque, velocidade. Injustiça com Fred, seu reserva. Mas Parreira fazia de conta que não via, confiava em Adriano.

Enquanto passava um frio absurdo em Weggis, na Suíça, acompanha o desinteresse de Ronaldinho. Ele estava mais interessado em fazer embaixadas, impressionar os suíços que pagavam para ver os treinos, do que nos coletivos e nos treinos táticos de Parreira. Logo deu seu cartão de visita, ao ir com Ronaldo, Adriano e Roberto Carlos à boate Adagio.

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"Nós temos a nossa vida particular. Queremos ganhar a Copa, mas se há a chance de curtir um pouquinho, a gente curte. Dá para fazer sem atrapalhar?", perguntava, Ronaldinho, irritado com a cobrança. Ele aproveitou todas as folgas que Parreira deu após os jogos durante o Mundial. E voltou no limite, às cinco da madrugada. Não quis se poupar um mês para buscar o hexa.

Além de não falar coisa com coisa, Ronaldinho tinha outra característica. Se mostrava irritadiço, desagradável. Fazia questão de mostrar que suas respostas eram vazias, monossilábicas de propósito. 

Com o fracasso se desenhando no Mundial da Alemana, com o Brasil jogando de forma previsível e cada vez mais desinteressante, ele se fechou ainda mais. Após a eliminação diante da França, em Frankfurt, ele saiu tranquilo. Como se nada tivesse acontecido. "Tentamos, fizemos o que deu. Eles foram melhores", dizia, como se tivesse ido ao mercado e não encontrado o iogurte que desejava.

Quando em 2010, Dunga decidiu não levar Ronaldinho, apesar de campanha nacional pelo jogador, eu entendi. Na Olimpíada de Pequim, onde o Brasil foi terceiro colocado, o meia falou ao celular e mostrou todo o desprezo na entrega da medalha. Dunga ficou chocado com sua falta de comprometimento.

Em 2014, houve quem sonhava pela recuperação do jogador. Mas, apesar do título da Libertadores, com o Atlético Mineiro, Felipão mostrou a Marin que Ronaldinho não tinha o menor comprometimento, ao chegar atrasado na convocação para o amistoso contra o Chile, em Belo Horizonte.

A conclusão que cheguei ao ser 'enviado especial' para o Japão e para a Alemanha, para acompanhar Ronaldinho Gaúcho, é uma só. Ele tinha um talento excepcional. Mereceu ser duas vezes o melhor jogador do mundo. Preparo físico privilegiado por Deus, para suportar tantas noites insones, regadas a champanhe.

Mas ele nunca teve um pingo de competitividade nas veias.

Só rendeu seu máximo quando foi cobrado.

Dirigentes o deixaram mimado, blasé, no pior sentido da palavra.

Milionário, quis jogar e farrear ao mesmo tempo.

Não se deixou envolver, se comprometer.

Com clubes, com a Seleção.

Fez o irmão Assis tomar as decisões sérias de sua vida.

Um jogador que foi duas vezes o melhor do mundo.

Ganhou uma Copa.

Mas que sabe.

Poderia ter ido muito mais além.

Não quis.

Por isso chegou como um rei aos clubes que o contrataram.

E saiu pela porta dos fundos.

Bastaria esperar, se dedicar de corpo e alma por dez anos.

E desfrutar 20, 30 anos só fazendo farra.

Mas ele quis tudo ao mesmo tempo.

Foi dos maiores desperdícios da história do futebol deste país...

Ronaldinho não abriu mão das farras durante toda a carreira

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