A CORRIDA E OS ETERNOS RECOMEÇOS

Choveu durante a madrugada e, pela primeira vez em cinco anos, eu pensei: "será que devo correr com essa chuva?"

Nos 21km da Capital Federal

Nos 21km da Capital Federal

Arquivo pessoal

Sim, eu devia. E eu fui.

21 de outubro de 2018

Em Brasília, essa época marca o começo da temporada de chuvas. Eu não sei se era coisa da minha cabeça, mas aos meus ouvidos a chuva soava como um aguaceiro. Eu estava com azia, má digestão, não conseguia dormir.  Eu sabia o que podia ou não comer na véspera da prova, mas me sabotei e me dei mal. Não dormi mais do que três horas. Ainda assim, levantei e fui. A chuva da madrugada deu lugar a uma garoa fina e quando cheguei no local da largada, ela parou. O sol até ameaçou dar as caras, mas não apareceu. Melhor assim. Para quem está retornando às corridas de longa distância, melhor não concorrer com o calor.

Eu sempre gostei de correr em Brasília! Foi lá onde eu comecei a correr pra valer, mas nunca tinha feito uma Meia Maratona na Capital Federal e meu coração estava em festa.

Como sempre, me emocionei na largada. É lindo ver tanta gente, no mesmo lugar, por uma causa única: correr! Correr pela primeira vez, superar medos, recomeçar uma história, colocar mais uma medalha no pescoço, ganhar experiência ou velocidade. Não importa o motivo. É lindo!

Não teve empurra-empurra, não teve atropelos. Quando passei pelo pórtico da largada, o vento bateu na cara, eu senti uma energia boa e pensei em como era bom estar de volta. Eu precisava daquilo e eu desejei fazer aquilo.

A inscrição para a Asics Golden Run de Brasília veio quando decidi passar um final de semana por lá para visitar a minha família. Me disseram que a prova era muito boa. E de fato foi. Me disseram também que era uma prova para bater recorde pessoal de velocidade. Bem, isso não foi bem assim...

A largada foi na Praça dos Cristais e logo de cara entramos no Eixo Monumental. Brasília é linda! Do Eixo eu podia ver muito: o Museu JK, a Torre de TV, a movimentação na Rodoviária. Via também um pedacinho do Teatro Nacional e toda a extensão da Esplanada dos Ministérios até chegar no Congresso. Ah, que saudade bateu de passar por esses lugares todos os dias.

Quando percebi, já tinha passado quase um terço da prova. Pegamos a direção da Asa Sul e fomos até o final dela. Como estava divertido correr! Não senti dores, cansaço, o incômodo no estômago aquietou... até fazer a curva de retorno. Eu comecei a fazer esforço, senti as pernas pesadas, não estava conseguindo entender o que acontecia. "Não era uma prova fácil de correr?", pensei. Olhei para trás e percebi que eu estava subindo. Sim! Aquilo não era uma reta. Era uma falsa reta. Meu estômago reclamou, quase passei mal e precisei caminhar. Mais de uma vez. Respeitei meu corpo e atendi aos seus pedidos. Aceitei o erro que eu tinha cometido no dia anterior e paguei o preço da gula: o pinhão delicioso comido no sábado se transformara no meu inimigo de domingo! Segui. Do jeito que deu. No vigésimo quilômetro eu via a linha de chegada. Me animei outra vez. Algum desconhecido gritou para mim: "solta esse corpo, dá um sprint, tá chegandoooo". E eu fiz!

Ao ver tanta gente esperando amigos e familiares, me emocionei de novo. Atravessei o pórtico que marcava mais de duas horas de prova e, então, ouvi gritos conhecidos. Era minha irmã, Carla, e minha afilhada, Pilar! Com o celular na mão registravam muitas histórias lindas. Se emocionavam ao ver os atletas conquistarem seus tempos, superarem suas dores, se abraçarem comemorando a alegria de mais uma prova. Eu cheguei a pensar que não iriam até lá me ver chegar, afinal, quem quer fazer isso num domingo de manhã frio e chuvoso se tem uma cama quentinha pra ficar? Não sei. Mas elas não! Elas foram e quase me fizeram chorar. Renovaram minhas energias. Que sensação maravilhosa!

Eu não corria uma Meia Maratona desde abril. Nesse tempo, planejei voltar inúmeras vezes. Voltei. Parei. Recomecei. Foram idas e voltas constantes. Dava um passo pra frente e dois para trás. Meu corpo estava se sentindo cansado, pesado, fadigado. A mente queria, mas o corpo não. Levei seis meses para voltar a correr por prazer, sem planilhas pra cumprir, sem tempo para bater. Foram seis meses de cobrança própria. Cheguei a testar outro esporte para ver se minha história com a corrida tinha chegado ao fim. Não tinha! Quando atravessei a linha de chegada da Asics Golden Run de Brasília eu entendi que a corrida ainda é minha paixão. E que o nosso amor é um eterno recomeço.

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