Tóquio 2020

Olimpíadas Rigidez? Conheça uma árbitra de ginástica que é fã do Jota Quest

Rigidez? Conheça uma árbitra de ginástica que é fã do Jota Quest

Árbitra internacional, Denise Righi, já atuou em Olimpíada e diz que função ajuda em conquistas como a de Rebeca Andrade

  • Olimpíadas | Eugenio Goussinsky, do R7

A professora de Educação Física, Denise Righi, 55 anos, tem um dia-a-dia atribulado. Mesmo na pandemia, sai de casa cedo, para dar aulas no colégio Magnum, em São Paulo, e na prefeitura de Osasco. A vida dela até que está mais tranquila agora, com os filhos já crescidos.

Um deles, Roberto, de 16 anos, é goleiro do sub-20 do São Paulo. O outro, Rafael, de 21 anos, cursa Engenharia Civil na USP (Universidade de São Paulo).

Movimentos da ginástica são complexos

Movimentos da ginástica são complexos

Marcelo Sayão/EFE/11-08-16

Difícil era, nos tempos em que eles eram crianças, conciliar sua função de mãe e sua profissão com uma das atividades mais difíceis que ela exerce, a de árbitra de ginástica.

Essa função está presente de forma invisível na divulgação das notas que têm decidido destinos, nestes Jogos de Tóquio 2020.

O jeito de falar, simples e acessível, de Denise, nem de longe se encaixa à imagem de rigidez que predomina durante os momentos tensos em que são reveladas as notas. Rigidez, aliás, que é um dos pilares deste exigente esporte.

Mas ela também realizou o exercício de diferenciar sua flexibilidade no trato com as pessoas e a seriedade dos seus momentos no júri, pelo qual já atuou em Campeonatos Mundiais, Pan-Americanos e nos Jogos Olímpicos de 2016.

Uma árbitra, afirma Denise de Fátima Righi de Lima, mantém uma comunicação permanente com o universo da ginástica, interagindo com atletas, dirigentes e treinadores.

"Fazemos muito isso no Brasil. Temos contato com atletas. Eu mesma já fui árbitra da Daiane dos Santos muitas vezes, a conheço desde menina. Também já fui júri da Rebeca Andrade e sempre conversamos. E neste contato, acabamos trabalhando pela ginástica, falamos com treinadores, damos nossas orientações, ressaltando em quais movimentos tiramos mais pontos na nota, sugerindo mudanças", diz.

Ela revela ainda que as próprias competições servem de base para orientações.

"Atuamos como árbitros mas acabamos nos tornando orientadores. A própria competição, às vezes, serve mais para isso. No caso da Rebeca, sempre houve essa troca de informações dos árbitros junto à coordenação. A prata também é fruto disso", diz.

No momento de dar uma nota, no entanto, o que prevalece é a isenção, conforme Denise ressalta.

"Na hora do julgamento, temos de ser imparciais, esse é um princípio ético inquestionável. São carreiras, sonhos, luta que estão em jogo. Mas no dia-a-dia interagimos neste universo e trabalhamos em prol da ginástica brasileira", conta.

Biles se diferencia pela impulsão, segundo árbitra

Biles se diferencia pela impulsão, segundo árbitra

How Hwee Young/EFE/27-07-21

A atividade de árbitro requer um conhecimento muito grande de quem a exerce. Após cada Olimpíada, inicia-se novamente um ciclo de ensino para renovar a arbitragem para os próximos Jogos. Mesmo um árbitro com 30 anos de experiência, se não passar nessas provas, não poderá atuar na Olimpíada seguinte.

Vários enfoques são dados nesses cursos e nas provas, fazendo as regras de pontuação da ginástica mudarem sempre. Para, nas competições, serem seguidas à risca. São estudados códigos de pontuação, aspectos teóricos, práticos, símbolos, são analisados vídeos e esmiuçadas séries de movimentos, critérios de décimos de pontos e notas para partida, execução e bonificação, entre outros.

As provas são realizadas em três ou quatro países, de diferentes continentes, para alcançar um maior número de nacionalidades. Mas, em geral, o árbitro sempre faz a prova fora de seu país natal.

"As primeiras notas dadas em eventos como uma Olimpíada são bastante tensas para um árbitro. Senti isso nos Jogos de 2016. A gente não sabe a nota dos outros, coloca a nossa no computador sem saber mais nada. Fica aquela ansiedade para saber se estamos no que se chama de 'critério da banca'. Depois, vai ficando mais natural", observa.

De leiga a árbitra

Denise, quando criança, não era apegada à ginástica. Só praticou por um ano, impulsionada pelo fenômeno de Nádia Comaneci, em 1976. Depois, jogou vôlei, mais por lazer. Só se apaixonou pela ginástica quando, durante os anos na faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo, teve aulas com a famosa treinadora Yumi.

"Eu era leiga até meus 19, 20 anos. Não entendia nada de ginástica. Mas com o contato com a Yumi, a paixão dela pela ginástica me contagiou. Comecei a me interessar, fazer cursos e me tornei árbitra. Também me apaixonei pelo esporte e exerço essa função há mais de 30 anos", observa.

Denise já trabalhou em competições nas quais atuaram grandes ginastas, no masculino e feminino. A que mais a impressionou foi mesmo a performance de Simone Biles nos Jogos de 2016.

"O diferencial da Simone é com relação à impulsão. É algo absurdo. E possibilita que ela utilize elementos acrobáticos, como piruetas e mortais, e de dança, com saltos de grande amplitude. Quando está bem, ela reúne todos os elementos de uma ginasta, em altíssimo nível, por causa da impulsão. Pela TV isso não é tão nítido, mas quem a vê ao vivo, e julga suas performances, vê isso com facilidade", observa.

Denise diz que Daiane se assemelhava a Biles

Denise diz que Daiane se assemelhava a Biles

Bernd Weissbrod/EFE/05-09-07

Para ela, a ex-ginasta brasileira Daiane dos Santos reunia características similares às de Biles.

"A Daiane também era impressionante, tinha uma impulsão acima da média, e se aproxima muito da Simone Biles. Outra ginasta marcante que eu já dei notas em competições é a italiana Vanessa Ferrari", conta.

A principal conquista de Ferrari foi a medalha de ouro no individual geral no Mundial de 2006, disputada em Aarhus, Dinamarca.

Olhar objetivo

O olhar de um árbitro contrasta, em vários aspectos, com a subjetividade humana. Claro que, como Denise confirma, o árbitro está atento às histórias de superação de cada atleta. Informa-se.

Até sente algo antes de fazer o julgamento. Até tende a dar notas mais altas para as mais consagradas. Mas esse ímpeto logo é freado pela realidade de sua função, marcada pela objetividade.

"A ginástica é um esporte diferente, porque a complexidade de seus movimentos é única. É extremamente específico. Para você ir subindo na arbitragem tem de conhecer cada detalhe com profundidade, cada movimento. E são muito complexos, é necessário muita percepção visual para diferenciar um grau de rotação, um tipo de solo, com distinções específicas entre uma, duas ou três piruetas, quando ou não elas devem utilizadas", diz.

Denise, ainda, completa.

"Todos esses conceitos acabam sendo matemáticos, não podem fugir de um limite. Por isso, qualquer decisão parcial logo é detectada. Há também, nas notas, um limite entre um máximo e um mínimo que são descartados. A Federação Internacional de Ginástica também julga os árbitros. Julgamos e somos julgados. Por isso, além da questão ética fundamental, não há como facilitar para um ou outro. As questões subjetivas ficam de fora do julgamento", ressaltou.

Fora dos ginásios, Denise adora ouvir música. Muitas letras do Jota Quest, seu grupo preferido, a inspiram. A principal delas é "Só Hoje", mostra também que até as mais exigentes árbitras de ginástica têm um lado sensível.

"A música 'Só Hoje' me inspira a viver cada momento como único e quanto a proximidade das pessoas do meu convívio familiar ou de amigos são fundamentais para eu estar bem", conta Denise, cuja atividade ilustra a importância de separar, no momento certo, a razão da emoção. Isso sim, a maior ginástica.

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