Tóquio 2020

Olimpíadas Ouro em 96, Jackie critica derrotas no vôlei de praia: 'Um absurdo'

Ouro em 96, Jackie critica derrotas no vôlei de praia: 'Um absurdo'

Pela primeira vez Brasil não está nas semifinais no feminino; ex-jogadora diz que CBV deixa o esporte em segundo plano

  • Olimpíadas | Eugenio Goussinsky, do R7

Com as derrotas das duplas femininas do Brasil no vôlei de praia, a expectativa de subir novamente no pódio se transformou em grande decepção. Nos Jogos de Tóquio 2020, pela primeira vez, desde Atlanta 1996, o País não chega às semifinais olímpicas na modalidade, algo que incomodou algumas referências do passado, como Jacqueline Silva, a Jackie, 59 anos, a primeira campeã olímpica no vôlei de praia, ao lado de Sandra Pires, em 1996. Em conversa com o R7, ela mostrou indignação com a performance das duplas brasileiras.

"Acho um absurdo duas duplas brasileiras serem eliminadas desta maneira. Sair nas oitavas, como a Ágatha e a Duda não dá nem para sentir a competição. E ir para a Olimpíada e passar mal, não dá, se desidrata antes, vai se desidratar na hora H? E não aguento mais esse discurso de sacrifício, de que abriu mão de muita coisa na vida...Se foi para a Olimpíada é porque quis, trabalho é trabalho. A poeira vai baixar e vão ver o que aconteceu. E aí vão dizer que nos Jogos de Paris irão repetir tudo o que foi feito? Claro que não, porque foi feito de maneira errada", desabafa Jackie.

No último domingo (1), Ágatha e Duda foram eliminadas dos Jogos Olímpicos de Tóquio. ao perderem por 2 a 1 para as alemãs Laura Ludwig e Margareta Kozuch, no Parque Shiokaze. E na segunda-feira (2), foi a vez da dupla Ana Patrícia e Rebecca dar adeus à competição, nas quartas, ao perder para a dupla da suíça, formada por Vergé-Dépré e Joana Heidrich, por 2 a 1.

Após o jogo, Ana Patrícia, se sentiu mal e, desidratada, deixou a arena de cadeira de rodas.
Jackie criticou a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) que, para ela, não tem feito um bom trabalho no planejamento da modalidade.

"A CBV deixa o vôlei de praia em segundo plano, se há corte de recursos, cortam na carne do vôlei de praia. A maioria das jogadoras e jogadores não têm patrocínio, não há mais transmissão de TV, nem um planejamento. As jogadoras não tiveram boa performance, tiveram sua responsabilidade, mas não foi só elas. O que a Confederação faz é muito pouco perto dos resultados que tivemos no passado", observa ela, que também foi levantadora da seleção brasileira de vôlei de quadra, na geração de Isabel, Vera Mossa e outras grandes jogadoras nos anos 80.

Dupla de Ágatha foi eliminada

Dupla de Ágatha foi eliminada

Miguel Gutiérrez/EFE/29-07-21

As falhas, para Jackie, ocorreram em vários aspectos. As jogadoras chegaram muito pressionadas, segundo ela, o que também atrapalhou a performance.

"Elas se esforçaram, chegaram pelos seus méritos aos Jogos. Falo pelo bem delas, porque poderiam ir mais longe. Na minha época, eu e a Sandra chegamos enxutas, sem pressão. Agora, elas chegaram carregando um piano. Não houve um trabalho planejado, uma preparação boa, feita passo a passo, para elas chegarem sem se assustar. Aqui no Brasil, se vive de medalhas, mas não se faz mais nada para que o esporte evolua com consistência", afirma.

Em 1996, quando a modalidade estreou em Olimpíadas, Jackie Silva e Sandra Pires ficaram com o ouro e Adriana Samuel e Monica Rodrigues, com a prata. Em 2000, Adriana Behar e Shelda Bedeforam prata e Adriana Samuel e Sandra Pires, bronze.

Já nos Jogos de 2004 foi a vez de Adriana Behar e Shelda Bede ganharem a prata. Em 2008, Renata e Talita terminaram em 4º lugar. Em Londres 2012, Juliana Silva e Larissa França foram bronze. E, em 2016, Ágatha Bednarczuk e Bárbara Seixas conquistaram a medalha de prata.

Mentalidade vencedora

Para Jackie, países como a Suíça, que não têm praia, hoje em dia podem fazer sucesso no esporte. O importante, segundo ela, é a mentalidade.

"Quando não tem praia apropriada, se inventa a praia", diz,

Também países sem tanta tradição podem obter êxito neste esporte, lembra ela

 "A Noruega, por exemplo, foi feito um trabalho incrível, foi criada uma escola de vôlei de praia, uma verdadeira cidade da modalidade, com um Centro de Treinamento impressionante. Os resultados começam a aparecer", diz.

Em relação aos Estados Unidos, que, como o Brasil, é o país com mais conquistas olímpicas, Jackie diz que o trabalho de evolução tem sido diferente do brasileiro. Mais constante.

"Perceberam que o esporte era uma referência e então colocaram o vôlei de praia no calendário universitário. Esportistas começaram a ganhar bolsa, o número de praticantes cresceu muito. O trabalho foi bem feito", ressalta.

Para Jackie, os problemas fora de quadra afetam o desempenho das atletas. Uma coisa leva a outra. Como exemplo, ela citou as vitórias das alemãs sobre Ágatha e Duda e das suíças sobre Ana Patrícia e Rebecca.

"A Ludwig, da Alemanha, já tinha sido campeã olímpica em 2016 e estava com uma parceira que não era tão boa quanto a anterior. O que ela fez? Se desanimou? Nada disso. Ergueu a cabeça e, mesmo quando estava 14 a 13 contra a Ágatha e a Duda, foi buscar e virou o placar. Estávamos com a vitória nas mãos. Assim como com a Ana Patrícia e a Rebecca. As suíças ganharam no berro mesmo. Na técnica, era só apertar mais que o Brasil ganhava. Mas as suíças tinham definição. Foi uma pena", destaca.

Jackie ainda tem esperanças na dupla formada por Alison e Álvaro, que disputam as semifinais nesta terça-feira (3), às 22h (de Brasília), contra os letões Martins Plavins e Edgars Tocs, que eliminaram a outra dupla brasileira, Bruno Schmidt e Evandro, nas oitavas de final. Ela afirma, porém, que, se os brasileiros vencerem, será uma grande façanha, já que não podem ser considerados favoritos.

"Agora nos restou o Alison e o Álvaro. Torço muito por eles, mas, se eles vencerem, é para tirar o chapéu. Será uma façanha, porque os problemas de estrutura existem no vôlei de praia brasileiro. Essa modalidade tem um potencial enorme e não deveria estar neste lugar neste momento. Estou chateada com essa situação, porque também é o meu trabalho, me dedico a esse esporte", completa Jackie, que mantém escolinhas para crianças e projetos esportivos para comunidades carentes.

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