Tóquio 2020

Olimpíadas Mães de ouro: Olimpíada mostra luta por trás do sucesso dos filhos

Mães de ouro: Olimpíada mostra luta por trás do sucesso dos filhos

Atletas como Rebeca Andrade, Rayssa Leal e Viviane Jungblut têm mostrado em Tóquio 2020 gratidão pelo apoio das mães

  • Olimpíadas | Eugenio Goussinsky, do R7

Rebeca Andrade (dir.) contou com o apoio da mãe Rosa Santos (esq.)

Rebeca Andrade (dir.) contou com o apoio da mãe Rosa Santos (esq.)

Instagram/Rebeca Andrade

Não importa a profissão que exerça. Uma mãe costuma ter sempre o instinto de "Yiddishe Mame". Que, na cultura judaica, é aquela que protege e continua vendo, no filho já adulto, a mesma criança que um dia embalou no colo.

Viviane Jungblut disputa prova na Tóquio 2020

Viviane Jungblut disputa prova na Tóquio 2020

Fernando Bizerra/EFE/29-07-21

É o mesmo vínculo que levou o italiano Claudio Ranieri, quando conquistou como técnico o histórico título da Premier League, pelo Leicester, a se dizer impedido de ir à comemoração porque tinha de almoçar com a mamma em Roma. E olha que ele já tinha mais de 60 anos.

Pelo gesto de Ranieri, muito de sua ascensão teve a ver com o apoio lhe dado pela mulher que o criou. Apoio que pode ter sido por meio de incentivos. De carinho. De críticas. Ou até de broncas.

Mas ele surte efeito, quando feito com o interesse de construir, com amor. Ou quando tem a força de superar divergências, incompreensões. Filhos deste tipo de mãe costumam ser bem-sucedidos, como nos casos dos vários atletas olímpicos do Brasil que, em Tóquio 2020, mencionaram a mãe ao comemorar algum tipo de conquista. Seja de medalha, seja só pelo fato de ter conseguido a proeza de estar em uma Olimpíada.

Por meio de Rebeca Andrade, Daniel Cargnin, Rayssa Leal, Bruno Fratus, Viviane Jungblut, entre outros, o País conheceu o sacrifício de Rosa Santos, Ana Rita, Lilian Leal, Maria Graça e Maura Jungblut. Lilian Leal foi a única que esteve presente em Tóquio, simbolizando as outras que estavam presentes de outra maneira, na torcida à distância.

Para Maura Jungblut, 55 anos, mãe da nadadora brasileira Viviane Jungblut, 25 anos, que disputou as provas de 800m e 1500m, a sensação de ver o filho em uma Olimpíada é a mesma de quando um atleta se sente vencedor. É a satisfação de ver ele crescer na atividade que escolheu para ser feliz.

"Ela lutou, foi difícil chegar até lá, sofremos e vibramos juntas, mas sempre a apoiei. Foi o que ela escolheu fazer. Desde quando a Viviane tinha dois anos, quando eu não tinha onde deixá-la, a levava junto para os treinos de meus filhos mais velhos (uma menina e um menino) que já faziam natação no clube. Ela era tão menininha e já queria pular na piscina, ela adorava tudo aquilo", lembra Maura, ao R7.

Maura é o tipo de mãe que acabou se mantendo no papel de dona de casa, exercendo a difícil tarefa de cuidar para que os filhos se encaminhassem. Seu papel foi importante para que Viviane conseguisse chegar aos Jogos.

"O meu sacrifício foi dar força, apoiar. O resto, a gente corre atrás. A vida de atleta é difícil e ela (que mora com ela e o pai, o bancário Paulo Roberto Jungblut), muitas vezes já chegou desanimada com algum resultado. Sempre, nestes momentos, procurei estimular ela, dizer que é um momento, que se é o que ela gosta tem de ir atrás porque capacidade não lhe falta. E completava com um bolo especial que faço ou um bom almoço de mãe. Isso sempre a ajudou", conta.

Tão perto e tão longe

Há também o sacrifício de mães como Ana Rita, mãe do judoca Daniel Cargnin. Ela teve de lidar com a dificuldade de ver o filho sair de casa quase adolescente, em busca de seu sonho. Mas, conforme demonstrou no Conexão Família, da Record TV, com Mylena Ciribelli, ela não se arrepende.

"Sempre dissemos que ele tinha que buscar a felicidade. Se de repente ele achasse que não era aquilo (o judô), poderia seguir outro caminho e seria apoiado. Mas sempre incentivamos e demos muita força para ele nesta questão do judô, que é essa coisa do esporte e, além disso, dos valores como a disciplina, a persistência, por trás de tudo. Não é só lutar e fazer esporte", observou.

No caso de Lilian Leal, mãe da skatista Rayssa Leal, segundo o economista Pedro Fernando Nery, no Jornal O Estado de S. Paulo, ela é beneficiária do Bolsa Família desde 2013. O programa é destinado a famílias que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza.

Ela recebe R$ 171, que inclui o valor mínimo de R$ 89, mais um adicional de R$ 82 por ter duas crianças na casa. Nem é preciso dizer o sacrifício da família para dar um mínimo de condições para a menina treinar nas pistas da praça Mané Garrincha, em Imperatriz, com apenas seis anos. Lilian esteve em Tóquio para apoiar presencialmente Rayssa.

"Pode ter certeza que ter a minha mãe aqui foi a melhor coisa que aconteceu, por que ela está junto comigo me dando conselhos, me dando segurança. Só dela estar aqui comigo, já me passa muita segurança”, disse Rayssa, antes de conquistar a medalha, durante um treino que foi acompanhado pela mãe.

Também a mãe de ginasta Rebeca Andrade, Rosa, deixou sua filha "livre para voar" quando a liberou para treinar ginástica olímpica, após ir ela mesma levá-la para ser testada em um clube de Guarulhos. Rosa, com sete filhos, era empregada doméstica e gostaria que os seus filhos tivessem uma boa qualidade de vida.

No último Dia das Mães, quando ainda não era uma celebridade, com duas medalhas olímpicas, Rebeca homenageou a mãe no Instagram, contando um pouco de sua história.

"Mesmo morando longe eu nunca me senti distante da senhora, obrigada por me ensinar a crescer, a respeitar, a me defender, a ser corajosa, a ser uma pessoa gentil, por me apoiar, me incentivar sempre e por nunca me deixar desistir dos meus sonhos e objetivos. Obrigada por me ensinar a ver a alegria nas pequenas coisas e mostrar que pra ser feliz não precisa de muito", postou Rebeca

Força sempre

E o sacrifício, seja ele financeiro ou emocional, tem como objetivo básico a formação do filho. A vitória, para este tipo de mãe, é que ele seja feliz.

"A Viviane ficou um pouco chateada por não ter seguido na Olimpíada, reclamou dela em uma ou outra prova. Isso é comum nos atletas de alto rendimento, sempre exigindo muito de si. Ela é assim. Então, mais uma vez a apoiei, dizendo que, só o fato dela ter ido para uma Olimpíada, é uma enorme vitória. Mas ela quer sempre mais e eu quero continuar sempre a apoiando", ressaltou Maura.

Cargnin comemora vitória na Olimpíada

Cargnin comemora vitória na Olimpíada

José Méndez/EFE/25-07-21

Para este tipo de mãe, a foto do filho no pódio, ou numa competição olímpica, tem o mesmo valor do que uma de quando ele era criança, na piscina do clube ou brincando na praia, com pazinha. O semblante de satisfação, em ambas, é o que importa.

E quando o filho começa a crescer, a mãe suporta abrir mão da convivência diária, para vê-lo, muitas vezes, conseguir chegar a um lugar onde ela, concretamente, não conseguiu.

Aos filhos e filhas, pelas andanças nas pistas, tatames e piscinas, sempre restará na lembrança frases semelhantes às de músicas como "Doce Mãezinha", versão em português da famosa "Yiddishe Mame", cantada pelo lendário Agostinho dos Santos.

"Amor de mãezinha, benção que o céu nos concedeu..."

Quando o filho faz sucesso, acaba mostrando que também ela chegou ao topo, na força que ajudou a impulsioná-lo, com amor, dedicação e humildade. Com sentimentos e sem sentimentalismo.

Em qualquer atividade, folclore à parte, a "Yiddishe Mame", a mamma ou a madrecita, de verdade, é a que trabalha para o filho se tornar um vencedor. E que, por isso, merece uma medalha de ouro.

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