Tóquio 2020

Olimpíadas Falhas na organização são convite para covid-19 em Tóquio 2020

Falhas na organização são convite para covid-19 em Tóquio 2020

Transporte da comunidade olímpica ainda não atende demanda e causa aglomeração; população não acredita em Jogos seguros

  • Olimpíadas | André Avelar, do R7, em Tóquio, no Japão

Estrangeiros da comunidade olímpica não podem andar no transporte público de Tóquio

Estrangeiros da comunidade olímpica não podem andar no transporte público de Tóquio

Philip Fong/AFP - 17/7/2021

De um lado da cidade, um funcionário entrega um recibo para certificar que o trem chegou atrasado; de outro, na parte olímpica, o transporte destinado demora para chegar e provoca aglomeração. As falhas de organização em Tóquio 2020 se apresentam como um convite ao aumento no número de casos de covid-19, na semana da abertura dos Jogos.

Entrar em um ônibus, ou até táxi, exclusivo para a comunidade olímpica não é um mero luxo. Trata-se de um protocolo sanitário para evitar a possível disseminação do coronavírus entre os cidadãos japoneses e os estrangeiros e vice-versa. Por isso, as autoridades investiram em um aplicativo para reportar o estado de saúde dos credenciados e vetaram o uso de transporte público nos primeiros 14 dias no país.

“As medidas que tomamos são para que o grau de contato entre comunidade internacional e a população japonesa seja muito pequeno. Fazemos questão de manter em altos níveis esse grau de separação”, disse o médico-chefe de uma comissão independente para auxiliar o COI no plano contra a covid-19, Brian McCloskey, em entrevista no centro de imprensa dos Jogos Olímpicos.

Organização dos Jogos Olímpicos tentou evitar contato de estrangeiros com a população local

Organização dos Jogos Olímpicos tentou evitar contato de estrangeiros com a população local

Kai Pfaffenbach/Reuters - 16/7/2021

A colaboração internacional pode nem ser das melhores, uma vez que estrangeiros que ainda teriam de cumprir o plano de atividades enviado previamente ao comitê organizador foram vistos em lugares não-olímpicos, o que não é permitido. Mais do que isso, campanhas extraoficial incentivam os locais a denunciar os infratores. Nos mercados de bairro ou nos pontos turísticos, tem muita gente de olho e pronta para denunciar.

No papel, as medidas de segurança funcionariam sem transtornos. O que a organização japonesa, que culturalmente não gosta de imprevistos, não esperava eram que a demanda por táxis fosse tão grande. Esse tipo de transporte, inclusive com 14 viagens pagas por Tóquio 2020, deveria isolar a população, mas demora facilmente mais de meia-hora até que se consiga pedir para esperar por um carro, que pode levar outros 30 minutos.

Os ônibus exclusivos, sempre limpos e confortáveis, são tomados em locais específicos, mas também é preciso aguardar. Nesse caso, a espera sob o sol escaldante pode ser longa e torrar os mais desprevenidos. Desse local pré-determinado, os veículos partem em diferentes direções rumo aos hotéis credenciados. A espera por si só seria aceitável, mas o pior é a contribuição para aglomeração em filas e mais filas.

As medidas são semelhantes às encontradas no aeroporto de Narita, principal porta para a entrada da capital japonesa para participantes dos Jogos Olímpicos. Ali, foi possível ver inclusive a internacionalização da “falha no sistema” o que atrasou o processo de imigração e, adivinhe, provocou filas e aglomeração. Por mais que os passageiros tivessem de apresentar testes negativos para embarcar, não há nenhuma garantia.

Como não há garantia também do número de infectados no evento. O próprio McCloskey evitou repetir o polêmico “risco zero” de Thomas Bach, mas tampouco fez uma previsão de casos aceitáveis até 8 de agosto, data da Cerimônia de Encerramento.

“Impossível prever”, limitou-se o médico.

Diante da separação falha, japoneses protestam diariamente contra a realização da Olimpíada. Na última grande pesquisa do jornal Asahi Shimbun, um dos mais relevantes do país, 68% da população não acredita que o evento possa ser seguro apesar dos protocolos contra a covid-19.

Na semana do início das competições, Tóquio 2020 já contabilizou 58 infectados pela covid-19 até esta segunda-feira - a abertura oficial é na sexta. Desses, quatro são atletas, 17 membros dos comitês internacionais e nacionais, cinco jornalistas, três funcionários de Tóquio 2020 e 29 pessoas são terceirizadas.

Já o Governo de Tóquio registrou 727 novos casos em 24 horas - a primeira vez em seis dias que o número baixou de mil. Ao todo, são 189.184 infectados, sendo 2.252 mortes.

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