Olimpíadas Campeão mundial no judô e de SC na natação quer ir às paralimpíadas

Campeão mundial no judô e de SC na natação quer ir às paralimpíadas

Com autismo e síndrome do X frágil, judoca João Vitor não se enquadra no programa oficial dos Jogos Paralímpicos

  • Olimpíadas | Kaique Dalapola, do R7

Com autismo e síndrome do X frágil, João Vitor pratica judô desde sete anos

Com autismo e síndrome do X frágil, João Vitor pratica judô desde sete anos

Arquivo pessoal

Ser pentacampeão de qualquer esporte não é uma missão fácil para ninguém, seja qual for a modalidade e categoria. João Vitor Silva Ferreira atingiu esse feito nos Jogos Paradesportivos de Santa Catarina em 2017, aos 20 anos, conquistando cinco vezes o título nos 100 metros costas na natação.

Essa façanha se torna ainda mais estonteante por saber que nesse mesmo ano ele também foi campeão do mundo de Judô DI (deficientes intelectuais), no primeiro e, por enquanto, único mundial da modalidade. O sonho de João Vitor agora é poder disputar os Jogos Paralímpicos um dia.

Como as conquistas demonstram, e nem precisa mais tantos argumentos, João Vitor é um fenômeno do esporte. E de pelo menos uma década para cá, quando ele foi definitivamente diagnosticado com autismo e síndrome do X frágil, não são apenas os triunfos nas competições e inúmeras medalhas conquistadas pelo garoto que mudam a vida da família Ferreira, tão acostumada com esporte desde os anos 1970. A maior realização que o atleta levou para dentro de casa foi dar novo significado para a palavra competição.

Primeira luta foi contra a dúvida

Nenhuma das conquistas do garoto foi da noite para o dia e a luta do garoto também sempre foi pela vida. Tudo começou há 24 anos, quando Giovani Ferreira e Adriana Silva, ainda muito jovens, tiveram João Vitor. “Com apenas dois meses de vida, um bebezinho ainda, ele teve a primeira convulsão. Encostava a nuca no calcanhar de tanto se contorcer”, lembra o pai.

Ninguém sabia o que o menino tinha e as primeiras batalhas da família eram justamente contra o desconhecido e essa dúvida do que ele tinha. Toda vez que manifestava algum problema, a família levava o menino ao hospital, mas os médicos não sabiam precisar o que João Vitor tinha. Era recorrente receitarem diferentes medicamentos, e o menino passou a tomar tantos remédios que passava boa parte do tempo praticamente dopado, conforme recorda o pai.

Mesmo com os problemas de saúde, João Vitor não fugiu da tradição familiar iniciada em 1976, quando o pai de Giovani (avô do João) o colocou com os irmãos no judô para ficarem mais tranquilos. Hoje, a família tem oito faixas pretas, incluindo João Vitor, que é o segundo mais jovem.

Giovani nasceu e iniciou no esporte no Rio Grande do Sul, depois foi com a família para Santa Catarina, onde construiu a vida. Mas foi durante um período que morou no Espírito Santo que vivenciou um momento marcante com o filho. “A gente foi na escola dele e ele estava sozinho sentado no meio da quadra enquanto as outras crianças estavam jogando bola normal”.

Aos sete anos, o menino passou a seguir os passos da família e praticar judô. Em paralelo, fazia natação. Foi esse caminho que a família acreditou para que o garoto tivesse uma vida mais saudável e equilibrada, além de seguir o espírito competitivo com sede de medalhas herdado da família. “A gente sempre esperava que um dia ele ia acordar diferente. Pensávamos que ia virar borboleta e sair do casulo”.

Até que no início da década de 2010 veio o resultado definitivo, quando João Vitor já tinha 13 anos. Foi diagnosticado com autismo e síndrome do X frágil, doenças intelectuais que afetam desde a fala até questões comportamentais. “A grande vantagem do diagnostico cedo é justamente saber como lidar, por isso que digo que a gente sofreu muito”, afirma Giovani.

Não é só o primeiro lugar

João Vitor em conquista na Itália

João Vitor em conquista na Itália

Arquivo pessoal

Em nenhum momento João Vitor esteve fora do esporte. Pelo contrário, a família sempre incentivou a prática e levava ao garoto o histórico familiar, regado por medalhas e muita competitividade, do mais jovem até seu falecido avô que, aos 64 anos, disputou o campeonato sul-americano de judô.

Mas foi João Vitor quem ensinou para toda família que a luta deve ser além dos tatames e as vitórias não são apenas com os melhores resultado entre os competidores — é muito mais do que isso.

Giovani lembra emocionado do dia que passou a repensar o que é o esporte e o que é competir. Foi quando João Vitor tinha 13 anos e foi disputar um campeonato de natação com outras crianças da idade dele e com deficiências intelectuais. Dentre os competidores, havia um que era acostumado a ganhar todas disputas. Mas dessa vez ficou em segundo lugar, pois João Vitor chegou em primeiro.

“Eles demonstram muito o sentimento, dá para ver com facilidade quando estão tristes ou felizes. E o João percebeu que o menino que ficou em segundo estava muito triste. Mas eles ainda iriam voltar à piscina para competir novamente. Então o João chegou em mim e disse que da próxima vez ficaria em segundo, porque quem tinha que ganhar era o amigo, para cada um ser primeiro uma vez. A partir desse momento, passei a aprender o que deve ser a competição e iniciei meu processo de desconstrução”, conta Giovani.

Foi a partir disso que a vida da família começou mudar de sentido. Agora, a principal bandeira dos Ferreiras é pela inclusão, e a luta para que tenha judô para deficientes intelectuais nos Jogos Paralímpicos. Atualmente, o programa oficial da paralimpíadas prevê a modalidade sendo disputada apenas por deficientes visuais.

A família praticamente passou a caminhar em duas frentes. Enquanto Giovani e a família atuavam pela inclusão do esporte para todos, João Vitor voava nas conquistas de medalhas.

O garoto era uma potência na natação em Santa Catarina, e foi campeão cinco vezes dos Jogos Escolares Paradesportivos e dos Jogos Abertos Paradesportivos do Estado, entre 2013 e 2017. Mas foi em 2016, quando estava finalizando ensino médio, tomou a decisão de focar no judô.

Foi o primeiro faixa preta em Judô DI em Santa Catarina e alcançou o topo do ranking da Federação Catarinense de Judô em Paradesportos, entre 2016 a 2018. A lista de conquistas  também é enorme desde que decidiu seguir como atleta da modalidade:

Campeão — Copa São Paulo (Open de Veteranos) - 2016
Campeão — 1ª Copa Judô para Todos em Minas Gerais - 2016
Campeão — J.V. Alcides Baarlo (Holanda) - 2016 
Campeão — Europeu (Itália) - 2016
Campeão — Mundial (Alemanha) - 2017
Campeão — 1ª Copa Judô para Todos em Santa Catarina - 2017
Campeão — Special Needs World Judo Games Beverwijk (Holanda) - 2018
Campeão — 2ª Copa Judô para Todos em Minas Gerais - 2018 
Campeão — Copa Rio - 2018
Campeão — 2ª Copa Judô para Todos em Santa Catarina - 2018 
Campeão — 1º Torneio de Judô para Todos de Americana (SP) - 2018
Campeão — Copa São Paulo (Open de Veteranos e Kata) - 2018 
Campeão — Copa Rio - 2019 
Campeão — 2º Torneio de Judô para Todos de Americana (SP) - 2019
Campeão — 3º Copa Judô para Todos em Santa Catarina – 2019

João Vitor foi campeão mundial de Judô DI

João Vitor foi campeão mundial de Judô DI

Arquivo pessoal

João Vitor também é atleta da Seleção Brasileira de Judô Inclusivo, graduando em Fisioterapia e pós-graduando em Judô Aspectos Metodológicos. Ao lado do pai, participa de palestras sobre judô inclusivo e a importância do esporte na vida das pessoas, sobretudo as crianças e com deficiências.

Nessa luta pelo esporte inclusivo, o projeto Judô para Todos se tornou ABJI (Associação Brasileira de Judô Inclusivo) em novembro de 2020, em meio à pandemia. Giovani é presidente da associação que tem como intuito de ser um facilitador na inclusão social das pessoas com deficiência, e acredita que essa é uma via de mão dupla.

“Foi lidando com o João Vitor e outras pessoas como ele que eu descobri que os deficientes somos nós. Percebi o quanto temos a aprender um com o outro e sigo sendo desconstruído. Conviver com eles e estar abertos nos faz entender que eles não vivem em um mundo paralelo. Estão em um mundo real, mas com visão diferente”.

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