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André Avelar, do R7, em Tóquio, no Japão

Assim como a zika não havia sido páreo para os Jogos do Rio, em 2016, o coronavírus também não derrotou Tóquio 2020. Mais do que isso, a Olimpíada que se encerrou no último domingo (8) trouxe um alento de esperança com atletas vacinados, testados e, por isso, trocando gestos de carinho e amizade como há tempos o mundo pede.

Os Jogos Olímpicos que seriam os da covid-19, com a coerente preocupação da disseminação da doença entre a população japonesa, acabaram se tornando um evento de celebração da ciência. Por mais que a bolha pretendida por Thomas Bach, presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), tivesse estourado nos primeiros dias, não foram as competições que trouxeram o vírus para a capital japonesa.

Nestes tempos difíceis, você dá ao mundo o mais precioso dos presentes: a esperança

Thomas Bach, presidente do COI

Rebeca Andrade, leve, brilhante, ouro e prata para o Brasil nos Jogos de Tóquio (Ricardo Bufolin/Panamerica Press/CBG/Divulgação - 03.08.2021)
Rebeca Andrade, leve, brilhante, ouro e prata para o Brasil nos Jogos de Tóquio Ricardo Bufolin/Panamerica Press/CBG/Divulgação - 03.08.2021

Nesse debate, há ainda quanto cada lado da história fez como reação à pandemia que começou na Ásia, mais precisamente na China, ainda no fim de 2019. O Japão correu para vacinar a sua população às vésperas dos Jogos, mas, até agora, apenas 32,9% dos locais estão completamente imunizados. Para se ter uma ideia, a delegação brasileira tinha 82% de atletas que receberam as duas doses da vacina da parceria entre o COB (Comitê Olímpico do Brasil), o comitê olímpico chinês e a Pfizer.

Com isso, o evento que uniu o mundo inteiro em torno da esperança, como disse Bach, na cerimônia de encerramento, terminou com 458 casos confirmados de covid-19: 29 atletas, 115 membros de delegações, 26 jornalistas, 12 funcionários do comitê organizador, 249 terceirizados e 27 voluntários. O Japão, por sua vez, ultrapassou o primeiro milhão de casos da doença, sendo 15.287 mortos.

Bach e Hashimoto comemoraram Jogos Olímpicos sem nova onda da pandemia da covid-19 (Dan Mullan/Reuters - 8/8/2021)
Bach e Hashimoto comemoraram Jogos Olímpicos sem nova onda da pandemia da covid-19 Dan Mullan/Reuters - 8/8/2021

“Nestes tempos difíceis, você dá ao mundo o mais precioso dos presentes: a esperança”, disse Bach, que, no início, implorou para as autoridades japonesas a presença de público em Tóquio. “O esporte voltou ao centro das atenções. Bilhões de pessoas em todo o mundo se uniram pela emoção, compartilhando momentos de alegria e inspiração. Isso nos dá esperança. Isso nos dá fé no futuro.”

A presidente de Tóquio 2020, Seiko Hashimoto, agradeceu o empenho de todos que fizeram possíveis a 32ª edição dos Jogos Olímpicos. A mulher-forte da organização tem convicção que a vacinação prévia e os testes realizados diariamente nos atletas (a cada quatro dias em jornalistas, por exemplo) garantiram o expressivo número de 0,01% de testes positivos, nos mais de 11 mil atletas.

“Esta noite a cortina cai sobre os Jogos de emoção e inspiração, forjados por cada atleta que participou. Esses Jogos aconteceram em meio a uma grave pandemia e gostaria de expressar minha profunda gratidão a todos os que trabalham nos serviços médicos, a todos que apoiaram e contribuíram para os Jogos e para os nossos anfitriões, o povo japonês", disse.

Do lado verde e amarelo, o Time Brasil tem a certeza de que a confraternização nas medalhas e fraternidade nas derrotas só foram permitidas graças à vacinação em massa e aos verdadeiramente “rígidos protocolos de segurança”. A delegação levou para Tóquio 6 mil testes de antígeno, 68 mil máscaras descartáveis, 2,4 mil máscaras N95 e 400 litros de álcool líquido.

“O Brasil não trouxe o vírus para o Japão, não teve casos positivos, não perdeu atletas por contatos próximos. Sem dúvida, essa é a nossa medalha. Essa é a nossa felicidade”, resumiu a médica do COB, Beatriz Perondi.

Recorde de medalhas
Italo Ferreira vibra com a conquista da medalha de ouro no surfe (Lisi Niesner/Reuters - 27.07.2021)
Italo Ferreira vibra com a conquista da medalha de ouro no surfe Lisi Niesner/Reuters - 27.07.2021

O Brasil fez a sua melhor participação da história. Das 21 medalhas conquistadas, foram sete de ouro, seis de prata e oito de bronze, em uma delegação com 317 atletas de 35 modalidades diferentes — 148 mulheres, 169 homens, na contagem com os atletas “alternates”, que substituiriam os diagnosticados com covid-19, por exemplo.

Do cardápio olímpico do Brasil, 13 modalidades subiram ao pódio. Foram 12 medalhas conquistadas em disputas masculinas e 9 em competições femininas. Somando as modalidades individuais e coletivas, 55 atletas brasileiros voltam do Japão com medalha no peito: 33 homens e 22 mulheres.

Tóquio 2020 vai ficar marcada para os brasileiros pelo brilho de Rebeca Andrade na ginástica artística. Enquanto a estrela dos Jogos, a norte-americana Simone Biles, desistia de várias final por causa de problemas com a saúde mental, Rebeca contagiava com sua graça e energia ao som de 'Baile de Favela'. 

Isaquias Queiroz vibra com sua vitória incrível na canoagem (Yara Nardi/Reuters - 07.08.2021)
Isaquias Queiroz vibra com sua vitória incrível na canoagem Yara Nardi/Reuters - 07.08.2021

Primeiro ganhou a prata no individual geral e depois foi medalha de ouro no salto sobre a mesa. Chegou ainda na final do solo. Foi o melhor desempenho do Brasil na ginástica feminina em toda a história.

Isaquias Queiroz foi força e garra nas remadas sincronizadas para ganhar a final da canoagem C1 1000 metros.  Ele dedicou a vitória ao treinador Jesus Lopes, que morreu de câncer e às vítimas da covid-19 no Brasil.

É um presente para todo o povo brasileiro que passou com muitas dificuldades esses anos, muitas perdas, entes queridos que morreram com covid

Isaquias Queiroz

Mar de ouro
Ana Marcela Cunha venceu a maratona aquática e até o peixinho comemorou (Jonne Roriz/COB/Divulgação -04.08.2021)
Ana Marcela Cunha venceu a maratona aquática e até o peixinho comemorou Jonne Roriz/COB/Divulgação -04.08.2021

Três medalhas de ouro do Brasil foram conquistadas no mar do Japão. No surfe, Italo Ferreira brilhou nas ondas para ganhar o primeiro ouro do Brasil nos Jogos.

Depois foi a vez das velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze repetirem o desempenho da Rio 2016 e se tornarem bicampeãs olímpicas na categoria 49er FX da vela.

E a nadadora Ana Marcela Cunha tirou até os peixinhos da frente do seu caminho para vencer a maratona aquática de 10 km e fazer história.

Hebert Conceição comemora medalha de ouro no boxe em Tóquio (Luis Robayo/Pool/AFP - 07.08.2021)
Hebert Conceição comemora medalha de ouro no boxe em Tóquio Luis Robayo/Pool/AFP - 07.08.2021

O boxe, o skate e a natação foram os esportes que mais medalhas renderam para o Brasil: três.

Com uma preparação intensa e pugilistas determinados, o boxe brasileiro montou um pódio completo em Tóquio com o ouro de Hebert Conceição, a prata de Beatriz Ferreira e o bronze de Abner Teixeira.

Estreante, o skate levou a juventude para a Olimpíada com disputas radicais entre jovens e adolescentes e rendeu três medalhas de prata, com Kelvin Hoefler, Rayssa Leal e Pedro Barros.

Rayssa Leal, 13 anos,  se tornou a mais jovem medalhista da história do esporte brasileiro (Toby Melville/Reuters - 26.07.2021)
Rayssa Leal, 13 anos, se tornou a mais jovem medalhista da história do esporte brasileiro Toby Melville/Reuters - 26.07.2021

Rayssa, de 13 anos, a 'Fadinha do skate' encantou o país com sua alegria e diversão durante a disputa da medalha. Ela se tornou a mais jovem medalhista da história do esporte brasileiro. 

“Fico orgulhosa da minha história e da história de tantas outras skatistas. Quebramos esse preconceito, toda essa barreira. O skate não é só para os meninos, não é só para homens. Hoje posso segurar uma medalha olímpica”

Rayssa Leal

Na natação, o ouro de Ana Marcela Cunha na maratona aquática e os dois bronzes de Bruno Fratus e Fernando Scheffer na piscina recuperaram o prestígio brasileiro na modalidade.

Bruno Fratus beija a mulher Michelle Lenhardt, sua treinadora, após a conquista do bronze em Tóquio (Satiro Sodré/CBDA - 31.07.2021)
Bruno Fratus beija a mulher Michelle Lenhardt, sua treinadora, após a conquista do bronze em Tóquio Satiro Sodré/CBDA - 31.07.2021

O judô conseguiu dois bronzes, com Mayra Aguiar (a primeira mulher a conquistar três medalhas olímpicas seguidas) e Daniel Cargnin, e ainda protagonizou os dramas de Maria Portela, que foi eliminada após decisão polêmica dos juízes, e Maria Suelen Altheman, que rompeu o ligamento do joelho durante uma luta. 

No atletismo, Alison dos Santos foi bronze em uma prova de recorde mundial, e Thiago Braz também conseguiu o bronze no salto com vara.

Alison dos Santos foi medalha de bronze nos 400 m com barreiras (Javier Soriano/AFP - 03.08.2021)
Alison dos Santos foi medalha de bronze nos 400 m com barreiras Javier Soriano/AFP - 03.08.2021

Nos esportes coletivos, o Brasil confirmou sua força no futebol masculino, ganhando a medalha de ouro com uma vitória emocionante na prorrogação contra a Espanha com um gol do reserva Malcom.

Mas a seleção deixou a Olimpíada em meio a uma briga entre o Comitê Olímpico Brasileiro e a Confederação Brasileira de Futebol, que exigiu que os jogadores usassem um agasalho da fornecedora de material esportivo do COB amarrado à cintura na hora de receber a medalha, priorizando a patrocinadora da CBF. No futebol feminino, uma derrota nos pênaltis para o Canadá tirou o time de Marta e Formiga da competição nas quartas de final.

Malcom chuta para fazer o gol da medalha de ouro no futebol (Amr Abdallah Dalsh/Reuters - 07.08.2021)
Malcom chuta para fazer o gol da medalha de ouro no futebol Amr Abdallah Dalsh/Reuters - 07.08.2021

No handebol o Brasil não passou da primeira fase entre homens e mulheres. O basquete brasileiro nem foi, mas os árbitros do país apitaram as finais masculina e feminina da Olimpíada. No vôlei de praia, mais decepção: pela primeira vez desde 1996, quando entrou no programa olímpico, o Brasil não ganhou nenhuma medalha.

Na quadra, o time masculino terminou em quarto lugar uma campanha que teve uma vitória épica sobre a França no final da primeira fase. Mas o time perdeu força ao longo da competição e ficou sem medalha.

Carol Gattaz, 40 anos, a mais velha medalhista olímpica do esporte brasileiro (Valentyn Ogirenko/Reuters - 27.07.2021)
Carol Gattaz, 40 anos, a mais velha medalhista olímpica do esporte brasileiro Valentyn Ogirenko/Reuters - 27.07.2021

Já a seleção feminina foi imbatível até a final, quando caiu diante dos Estados Unidos. A medalha de prata coroou o trabalho do técnico José Roberto Guimarães. A central Carol Gattaz, de 40 anos, entrou na seleção da Olimpíada e se tornou a mais velha mulher brasileira a ganhar uma medalha olímpica. "Sonhos não envelhecem", resumiu Carol.

Conexão com a família

A pandemia impediu que os familiares pudessem viajar até o Japão para acompanhar os atletas nas disputas. O jeito foi torcer de casa e usar a tecnologia para encurtar as distâncias. Foi a Olimpíada em que pai, mãe, esposa, namorado, namorada, todo mundo, virasse as madrugadas no Brasil acordado para torcer pelos seus atletas.

A apresentadora Mylena Ciribelli conversou com vários desses parentes dos atletas no Conexão Família, como o pai de Luisa Stefani e a mãe de Laura Pigossi, que falaram sobre a dupla de tenistas que conseguiu a medalha mais improvável da campanha brasileira. Elas foram inscritas uma semana antes da Olimpíada e conquistaram o bronze olímpico, coisa que nem Guga ou Meligeni conseguiram.

Tóquio 2020/2021 agora é história. A próxima Olimpíada será em Paris, na França, em 2024, exatamente 100 anos depois de os franceses organizarem os Jogos na sua capital. Allez, Paris!

Paris já está pronta para receber a Olimpíada de 2024 (Stephane de Sakutin/AFP - 08.08.2021)
Paris já está pronta para receber a Olimpíada de 2024 Stephane de Sakutin/AFP - 08.08.2021

Reportagem: André Avelar, de Tóquio, no Japão

Produção: Enrico Malizia, Eugênio Goussinsky, Felippe Scozzafave, Gabriel Croquer, Guilherme Fagundes, Hysa Conrado, Kaique Dalapola, Pietro Hayato e Ulisses Oliveira
Edição de fotos: Edu Garcia
Coordenação de conteúdo: Patrícia Junqueira, Paulo Guilherme e Rafael Hakime
Diretor de Conteúdo de Jornalismo: Thiago Contreira
Fotos: AFP, COB, EFE e Reuters