Esportes Maior luta do primeiro negro campeão de boxe foi contra o racismo

Maior luta do primeiro negro campeão de boxe foi contra o racismo

No Dia da Consciência Negra, campeão mundial Jack Johnson simboliza luta pela identidade, em época de intenso racismo nos EUA no início do século 20

  • Esportes | Eugenio Goussinsky, do R7

Johnson derrubou Jeffreis

Johnson derrubou Jeffreis

Wikipedia/domínio público/1910

O debate sobre a consciência negra, celebrada nesta sexta-feira (20), ganhou visibilidade hoje em dia. Mesmo assim, muitos cidadãos negros ainda sofrem grandes dificuldades para se inserir, diante de uma resistência muitas vezes velada, mas preconceituosa, de setores da sociedade. Imagine, então, as dificuldades de um negro, poucos anos após a abolição da escravidão nos Estados Unidos, em uma sociedade que em grande parte era opressora e abertamente racista.

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Com pouco estudo, mas muita consciência, o filho de escravos Jack Johnson, nascido em Galveston (Indiana) em 31 de março de 1878, desafiou os dogmas da intolerância de muitos americanos ainda revoltados por perderem privilégios com a derrota da Guerra de Secessão (1861-1865). Johnson lutou, literalmente, e, como boxeador, soube resistir às pancadas daquela guerra aberta, muito mais fortes e dolorosas do que nos ringues.

"O racismo nos Estados Unidos é estrutural e permeia a fundação da sociedade moderna, que, por um lado, privilegia a liberdade suprema por via do desenvolvimento econômico e da democracia enquanto processo político, mas ainda não conseguiu encarar a questão da democracia racial de forma mais profunda", afirma Marília Carolina de Souza, professora de Relações Internacionais da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), em São Paulo.

Na infância, após permanecer apenas cinco anos na escola, Johnson teve de trabalhar como estivador, para sustento da família. Já praticado na antiguidade, inclusive entre os sumérios (4500 a.c a 1900 a.c), o boxe era um esporte comum durante a Grécia Antiga, mas, após um período de desaparecimento, voltou no século 18, principalmente no Reino Unido, por causa da Revolução Industrial. E da consequente urbanização.

Dos colonizadores ingleses, o esporte chegou aos Estados Unidos. No contexto de Johnson, o boxe era um instrumento de demonstração de força e coragem, em um mundo com leis ainda instáveis, bem como direitos e relações sociais.

Desde jovem, Johnson se inseriu no esporte e, obstinado, o transformou em profissão. E, além da busca da ascensão social, o jovem alto e forte via no boxe (termo provavelmente originário do holandês, boke, pancada) uma forma de firmar a própria identidade negra. Tornou-se, assim, o símbolo de toda uma luta, encampada décadas depois por Muhammad Ali (1942-2016), antes conhecido como Cassius Clay.

"Tudo o que ocorria nos ringues e ao redor de Jack Johnson tinha consequências nas ruas. A cada vitória sua, e não foram poucas, havia protestos violentos de cunho racista. Por este motivo, além de sua incrível capacidade de superação e de se manter com o cinturão por um longo tempo, havia também a capacidade de saber, também para além daquele momento histórico, que o ringue, naquela época, significava força para as lutas que enfrentava fora dele", observa Marília.

Sua primeira luta de repercussão ocorreu em 1901, quando o pugilista, peso-pesado, perdeu para o competente Joe Choynski que, apesar de não ter sido campeão mundial, derrubou o futuro campeão, James Jackson Jeffries.

Mas como o boxe era proibido no Texas, onde aconteceu o combate, Johnson e Choynski foram presos. Na prisão, Choinsky se tornou técnico de Johnson, percebendo que lhe faltava técnica, apesar do grande pontecial. Ficaram amigos.

Desafio pelo título

Mesmo com o trabalho em conjunto com seu treinador, que era branco, Johnson sofreu com o preconceito e não conseguia desafiar os campeões mundiais, pelo fato deles se recusarem a lutar contra um negro.

Ele insistiu, em uma época em que era considerado um perigoso atrevimento tal tipo de desafio. Depois de se tornar o "campeão mundial dos negros" vencendo John Haines, Hank Griffin, Frank Childs e Denver Ed Martin, Johnson desafiou o campeão mundial dos pesos-pesados, James Jeffries, que se negou a lutar contra ele.

Foram anos de tentativas, a última bem-sucedida, após ele seguir o campeão mundial Tommy Burns, indo até o Reino Unido e depois para a Austrália, onde finalmente se realizou o combate e Burns foi derrotado. Diz a lenda que Burns só aceitou participar do combate contra o pugilista afro-americano por causa do cachê de 30 mil dólares.

Na iminência de Burns ser nocauteado, a organização interrompeu a luta no 14º assalto, inclusive com intervenção policial, mas não havia como tirar o título de Johnson, o novo campeão mundial dos pesados, e o primeiro negro a conquistar o título.

A partir de então, houve uma obsessão entre os brancos em reconquistar o cinturão, no que se chamou de "A Grande Esperança Branca", expondo o intenso conflito racial da época. E assim, Philadelphia Jack O'Brien, Tony Ross, Al Kaufman e até mesmo o campeão mundial dos pesos-médios, Stanley Ketchel, que se dispôs a vencer Johnson, foram derrotados.

Foi quando Jeffries decidiu sair da aposentadoria, aceitando lutar contra o grande campeão negro, em combate que atraiu mais de 20 mil pessoas ao ringue em Reno, Nevada, em 4 de julho de 1910, dia da comemoração da Independência dos Estados Unidos.

"Vou participar dessa luta apenas pelo simples objetivo de provar que um homem branco é melhor do que um negro", disse Jeffries. Segundo o Washington Post, o escritor Jack London conclamou Jeffries a "remover aquele sorriso dourado do rosto de Jack Johnson".

Pela própria identidade

Jeffries, que nunca havia caído em combate, foi implacavelmente derrotado, tendo sido derrubado duas vezes, para o desgosto da multidão, que pedia o encerramento antecipado da luta.

O resultado incendiou o país. Conflitos raciais, com barricadas e protestos nas ruas se espalharam por mais de 50 cidades, deixando pelo menos 25 mortos. O negro havia mostrado que a cor da pele jamais é motivo para tornar alguém pior ou melhor.

Johnson, alçado ao estrelato, acumulou uma fortuna com o boxe. Usava dentes de ouro e se tornou dono de boate. Excêntrico e apreciador de champanhe, gostava de passear com um leopardo de estimação. No palco, não escondia seus dons artísticos.

O Post lembrou uma história em que, certa vez, ao ser parado por um guarda por excesso de velocidade, Johnson deu uma nota de 100 dólares, para pagar a multa de 50. Alertado pelo policial, ele respondeu que pretendia acelerar acima do limite também na volta.

Nem a fama, porém, o livrou das perseguições. Ele nunca abriu mão de sua identidade. Chegou a ficar um ano preso, por ter se apaixonado por Lucille Cameron, uma moça branca de 18 anos. Lucille foi uma de suas três esposas, entre 1912 e 1924.

Johnson foi detido algumas vezes, uma delas por transportá-la e atravessar outro estado. A mãe dela, F. Cameron-Falconet, o denunciou por sequestro à polícia de Chicago.

"A busca pela 'esperança branca' não teve sucesso, preconceitos foram se acumulando contra mim, e certas pessoas injustas, ressentidas porque eu era campeão, decidiram que, se não podiam me pegar de um jeito, pegariam de outro", desabafou Johnson na ocasião.

Ele morreu em 10 de junho de 1946, na cidade de Raleigh (Carolina do Norte), aos 68 anos. Lutou até os 60, após ter perdido o título para Jess Willard, em 1915, no 26º assalto (numa luta de 47 assaltos).

Para Marília, o legado de Johnson está aí presente, em movimentos como o "Black Lives Matter", que emergiram após recentes incidentes, como o da morte do cidadão negro George Floyd, asfixiado por um policial branco, em 25 de maio último, em Mineápolis.

"Se hoje, a luta racial ainda está presente no dia a dia norte-americano, imagine no início do século 20, quando todos os direitos dos negros eram negados e Jack Jonhson sequer era considerado um legítimo cidadão", diz.

A professora completa.

"Jonhson foi um grande herói, entre tantos heróis que lutaram muitas vezes de forma solitária contra uma estrutura racial perversa. Sua força colossal em se manter na luta deve servir de exemplo".

A história de Johnson já rendeu filmes e interessados em discorrer sobre a vida de Johnson. Sylvester Stallone anunciou que pretende fazer um filme sobre ele. Tom Hanks também anunciou que dirigirá uma série sobre o lendário boxeador.

Após pedido de descendentes e ativistas, em 2013, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não concedeu perdão póstumo a Jack Johnson. Na gestão de Donald Trump, em maio de 2018, no entanto, a punição foi revogada. E a Justiça, mesmo que tardia, foi feita a este lutador. Em todos os sentidos.

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