Técnicos deixam ética de lado e se mudam para rivais contra Série B

Para a maioria dos treinadores do País, compromisso profissional é algo que eles precisam defender apenas quando os prejudicados são eles próprios

Argel abandonou CSA no meio do caminho pelo 'outro patamar' Ceará

Argel abandonou CSA no meio do caminho pelo 'outro patamar' Ceará

CSA

A ciranda de troca de técnicos na Série A do Brasileirão, nas últimas horas, mostra que o pensamento majoritário entre treinadores nativos ainda é o seguinte: ética profissional é um conceito do qual preciso defender exclusivamente quando o prejudicado sou eu.

Abel Braga foi demitido do Cruzeiro após a derrota por 1 a 0 para o CSA, no Mineirão, nesta quinta-feira (28), que colocou o time mineiro na zona de rebaixamento, a três rodadas do final do campeonato.

Para o lugar de Abel, o desesperado Cruzeiro contratou Adilson Batista, seu quarto treinador em 2019. Adilson era treinador do Ceará até a véspera, quando foi demitido após levar 4 a 1 do Flamengo, no Maracanã.

É verdade que a equipe cearense vinha de duas derrotas e um empate, está na boca do Z4 e rubro-negro ainda curava a ressaca das conquistas da Libertadores e do Brasileirão.

Mesmo assim, ao que os cartolas do Vozão permitem concluir, esperavam uma vitória sobre o Flamengo em pleno Maracanã lotadão, pois condicionaram, ou ao menos ligaram, a derrota à demissão de Adilson que, afinal, deixa a equipe ainda fora da zona da degola. Pois é.

Nesta quinta-feira (29), Abel voltou para seu aconchegante apartamento no Leblon, no Rio. O ex-Ceará Adilson Batista assumiu o Cruzeiro.

E Argel Fucks, comandante do CSA até a vitória da quinta-feira (28) sobre o Cruzeiro, simplesmente abandonou o barco da equipe alagoana no auge da revolta do mar, em 18º lugar na zona de rebaixamento, com 32 pontos, quatro a menos do que o time mineiro, o 17º.

E, não satisfeito, jogou-se no colo da cartolagem do Vozão, assumindo o comando da equipe cearense no lugar de Adilson Batista. Tudo isso após uma vitória maiúscula do CSA sobre um adversário que jamais caiu no Brasileirão.

Uma beleza. Uma maravilha.

Ética e postura profissional decente passaram longe dessa versão limbo do célebre poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. “Com todo o respeito ao CSA, mas o Ceará é um degrau acima neste momento. Estava no CSA, o caçula da competição, com menor investimento, há 30 anos sem disputar a Série A há 30 anos. Agora é um patamar diferente”, teve coragem de desembuchar, sem rubor ou calor no rosto, o professor Argel em sua apresentação no Vozão.

Papinho. Conversa – e sem qualquer “respeito ao CSA”.

Que confiança profissional merece ter um treinador que assume um compromisso com uma equipe que faz tanto sacrifício para chegar e permanecer na Primeirona – exatamente como o próprio Argel lembrou – e a abandona a três rodadas do final justamente quando ela ensaia uma reação a partir de uma vitória difícil e elogiável contra um rival de peso na luta para fugir de Z4?

A mesma do escorpião que pega carona com o sapo para atravessar o rio e depois o pica de morte na fábula conhecida. Quem garante que o sujeito não vá te abandonar log ali na frente quando você mais precisará dele? Quem consegue planejar algo com punhaladas vindas de punhais desse porte?

“A sensação que tenho é exatamente essa: de traição. Não teria dinheiro no mundo que me fizesse largar o clube numa situação dessa. Frustrou uma torcida fantástica, uma diretoria que cumpre rigorosamente os compromissos assumidos e frustrou também uma amizade”, lamentou o presidente do CSA, Rafael Tenório.

Até as lagostas e camarões que passeiam pelos litorais cearense e alagoano consideram que a coisa está mais para isso mesmo: traição.

É preciso dizer que Adilson não teve iniciativa antiética ao atender o chamado do Cruzeiro. Demitido pelo Ceará, recebeu em casa o convite para substituir o já desempregado Abel e chegou a receber boa sorte do antecessor.

Sua dispensa sem piedade do Vozão no apagar das luzes do campeonato ilustra, no entanto, o aval que todo cartola brasileiro acha ter, para fazer o que bem entender quando bem entender, com todos os treinadores contratados.

Se os técnicos nos abandonam e cospem sobre o combinado à primeira proposta surgida no caminho, por que não podemos fazer o mesmo? A norma nada oculta entre cartolas e treinadores é exatamente essa no Brasil – e em duas vias plenas, com mão e contramão.

Um olho por olho de compensação de podridão, bancado em grande parte pela atitude eternamente individualista, egoísta e até pusilânime da suprema maioria dos técnicos, embora sejam eles os primeiros a reclamar quando o resultado os prejudica.

Lembremos de um caso recente altamente ilustrativo. No início de novembro, o jornalista Juca Kfouri noticiou que o ex-técnico do Corinthians, Fábio Carille, teria um acerto para treinar o Atlético-MG em 2020.

O Galo, ainda hoje comandado por Vagner Mancini, desmentiu a informação de forma seca em sua conta oficial no Twitter: “Não procede”, limitaram-se a escrever.

Se Carille de fato recebeu a proposta com Mancini empregado e alguém, que não ele, serviu de fonte para Kfouri, eticamente correto seria o ex-técnico corintiano agradecer o convite e, fosse seu interesse, colocar-se à disposição para conversar em um outro momento, com o Galo sem técnico.

Se não recebeu a proposta, como disse o Galo, e foi ele próprio a fonte falsa de Kfouri, errou de novo. E se, por fim, Carille recebeu o telefonema e não tomou qualquer atitude pública para confirmar o convite, com suas provas e argumentos, diante da negativa do Atlético-MG, escorregou de novo. Alguém mentiu entre Atlético-MG, Carille e a possível terceira fonte que passou a informação para Kfouri, se é que ela existe – só que o Galo se defendeu, e Carille não.

Técnicos brasileiros seguem tratados pelos cartolas dessa forma porque, acima de tudo, tratam todos – e sobretudo eles próprios - também dessa forma.

No caso do Ceará, tudo indica que seus dirigentes e torcedores podem ficar tranquilos porque, a apenas três rodadas e nove dias do final, talvez não tenha tempo sequer de armar outra picada venenosa ao estilo da parábola do escorpião com o sapo.

Mas que é da natureza da maioria da turma, ah, isso é. Lamentável.

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