Corrupção na Fifa
Futebol Fifa 'rifou' Del Nero após ser acusada por investigadores dos EUA

Fifa 'rifou' Del Nero após ser acusada por investigadores dos EUA

A entidade afastou o presidente da CBF no final de 2017 como um sinal de que não estava sendo conivente com a gestão do futebol brasileiro

Fifa 'rifou' Del Nero após ser acusada por investigadores dos EUA

Marco Polo del Nero, presidente afastado da CBF

Marco Polo del Nero, presidente afastado da CBF

Buda Mendes/Getty Images – 17.9.2017

A Fifa só suspendeu Marco Polo del Nero, presidente afastado da CBF, depois que ganhou força a tese entre os investigadores de Nova York que estava protegendo o brasileiro, um dos principais cabos eleitorais de Gianni Infantino na América do Sul. O temor da entidade era ser acusada de cumplicidade. Por isso, afastou temporariamente o dirigente no final de 2017 como um sinal de que não estava sendo conivente com a gestão do futebol brasileiro.

Del Nero foi afastado em dezembro até 15 de março. Sua suspensão pode ser ampliada por mais 45 dias, se a Fifa precisar de mais tempo para completar sua investigação interna.

Fontes próximas à investigação nos EUA confirmaram à reportagem do Estado que a condenação de José Maria Marin e outros cartolas não significa que o inquérito esteja concluído. Na semana que vem, Jeff Webb, ex-vice-presidente da Fifa, deveria conhecer sua sentença. Mas um novo acordo foi estabelecido para que ele colabore por mais seis meses com o inquérito. De forma paralela, o FBI continua investigando a corrupção na entidade máxima do futebol.

A estimativa dos técnicos é de que os documentos confiscados e os indícios podem levar a Justiça norte-americana a conduzir pelo menos mais cinco anos de investigações, em especial sobre tentativas de pessoas dentro da Fifa em abafar escândalos ou suspeitas.

Por dois anos e meio, a entidade com sede em Zurique não tomou qualquer medida contra Del Nero, mesmo depois de ele ser indiciado nos EUA. A situação do brasileiro acabou sendo exposta pelos relatos de testemunhas que apontaram em dezembro, na Corte do Brooklyn, como Del Nero teria recebido e pedido propinas. Ele nega.

DIÁLOGO - Segundo advogados implicados no caso, o que mais preocupou a equipe de defesa da Fifa foi o fato de Del Nero continuar impune no Comitê de Ética da entidade, apesar de todo o conhecimento sobre as suspeitas de desvio de US$ 6,5 milhões (R$ 21,2 milhões).

O risco ficou ainda mais claro depois da tentativa dos advogados do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, de usar a falta de ação da Fifa para apontar um esquema de proteção a Del Nero. Ao tentar convencer a Corte do Brooklyn a permitir que a defesa de Marin pudesse questionar uma das testemunhas sobre o papel de Del Nero, os advogados indicaram para a juíza Pamela Chan que "queriam argumentar sobre a aparente determinação da Fifa de não banir Del Nero e que a Fifa não tomava suas regras de forma séria".

A reportagem do Estado apurou que o diálogo ocorreu entre os advogados e a juíza sem que o júri pudesse escutar. A defesa de Marin e a promotoria foram chamadas para perto de Chan para que o tema fosse discutido.

Ela sugeriu que, sem a presença do júri, os advogados de Marin pudessem interrogar Stephanie Maenni, vice-diretora legal da Fifa sobre como a entidade lidou com o caso de Del Nero. Poucos dias depois, a Fifa agiu e afastou Del Nero temporariamente.

INFANTINO COBROU SAÍDA - O presidente da Fifa, Gianni Infantino já sabia dos problemas que a presença de Del Nero na CBF poderia gerar. Numa reunião em 2017 em Zurique com um dos vice-presidentes da CBF, Fernando Sarney, ele deixou claro que a direção do futebol brasileiro não poderia continuar com Del Nero e que a questão precisaria ser "resolvida".

No início de dezembro de 2017 em Moscou, antes de Marin ser condenado, Infantino deixou claro que o tribunal "reconheceu a Fifa como vítima" de alguns cartolas e que a entidade foi usada para "benefícios particulares". Ele também insistiu que era necessário "fazer uma distinção entre o passado e o futuro". "No passado, houve um ecossistema especial sobre a gestão", admitiu. Segundo ele, as coisas que foram reveladas em Nova York "não podem mais ocorrer".