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Futebol Exposição sobre Barbosa desfaz injustiça com vilão do Maracanazo

Exposição sobre Barbosa desfaz injustiça com vilão do Maracanazo

Museu do Futebol homenageia goleiro, que superou preconceito e foi apontado como responsável por derrota na Copa de 1950

  • Futebol | Eugenio Goussinsky, do R7

Barbosa fez história no Rio

Barbosa fez história no Rio

Agência Estado/27-12-1973

Ao conversar, a vascaína Tereza Borba, de 59 anos, é direta, comunicativa, alegre, viva. Na sua linguagem, não existe a palavra vingança, mas justiça. Filha adotiva do ex-goleiro Barbosa, ela leva todas essas características para trabalhar pela memória do pai, um dos maiores goleiros da história do Brasil, mas que acaba, muitas vezes, sendo lembrado como aquele que levou o gol de Ghiggia na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Barbosa morreu em abril de 2000, aos 79 anos.

Antes mesmo de Barbosa (Moacyr Barbosa Nascimento) morrer, Tereza, que é filha única, incorporou a missão de reconstruir aquela fatídica partida, que entrou para os almanaques como o Maracanazo. Tereza tratou de dar os reais contornos do jogo, inserindo-o em um contexto maior, que se distanciava daquela atmosfera cruel surgida após a derrota: a de fazer de Barbosa o culpado, o bode expiatório.

Aqueles anos 1950, em que o Brasil buscava firmar a sua identidade, para mostrar ao mundo a cara de um país de riquezas, já davam na cara que, nestes momentos de expectativa e inovação, um outro tipo de redes sociais já cancelava. O formato, anterior ao Instagram, Facebook, Telegram e outras plataformas, era outro; a dor poderia ser a mesma.

Vasco dos anos 40 tinha Barbosa como goleiro

Vasco dos anos 40 tinha Barbosa como goleiro

Acervo Pessoal/Museu do Futebol

"A TV ainda era restrita a poucos. O povo recebia apenas as informações do rádio e dos jornais. E nelas, em busca de audiência, eles procuraram um bode expiatório, para vender mais. A partir daí, o boca-a-boca, foi espalhando essas informações cheias de distorção. Barbosa não foi o culpado. Ele foi um Herói da Resistência, um exemplo, e assumi a missão de mostrar isso. Acredito que esteja conseguindo. Está na hora de dar um fim à história de que Barbosa foi o culpado e ressaltar sua trajetória, cheia de títulos e honrarias", afirmou.

Quando ela fala em títulos, se refere a todas as conquistas do goleiro pelo Vasco e pela seleção brasileira. Foram muitas. E o termo "Herói da Resistência", adotado pela filha para descrever a trajetória do pai, toca em um importante ponto: o preconceito no futebol, muitas vezes direcionado aos goleiros.

"Ele sofreu preconceito por muitos anos. Era negro, goleiro e virava alvo dos críticos perversos. Ser goleiro negro no Brasil é muito penoso. O preconceito é maior porque o goleiro é o personagem mais visado e, quando vem uma derrota, vira pretexto para críticas maldosas. Mas Barbosa foi valente, enfrentou tudo, seguiu em frente enquanto o futebol era um esporte de brancos, feito pela elite", destacou.

Seleção brasileira foi vice-campeã na Copa de 1950

Seleção brasileira foi vice-campeã na Copa de 1950

Agência Estado/24-06-1950

Neste momento, Tereza vive uma espécie de ápice nesta sua batalha por justiça. Desde alguns anos atrás, na época da fundação do Museu do Futebol, em São Paulo, ela alimenta a expectativa de uma espécie de reparação. Essa reparação virá a partir deste sábado (19), quando será aberta, no local, a exposição "Tempo de Reação - 100 anos do goleiro Barbosa", que irá vincular homenagens à vida e carreira de Barbosa e aos 150 anos da posição de goleiro.

Na primeira vez que foi ao museu, ela teve um choque, como convidada, ao entrar e, logo no fundo de uma grande sala, ver em um telão a fatídica imagem do gol do Uruguai.

"Um dos meus pedidos era para não destacarem aquela cena, porque era algo injusto. E quando vi, fiquei triste. Lembro-me que, ao voltar para minha casa, em Santos, só chorava na serra. Alguns anos depois, tive a oportunidade de conversar com o pessoal do Museu, que, muito solícito, se reuniu comigo por três vezes, nas quais pude demonstrar tudo o que o Barbosa fez pelo futebol, inclusive o preconceito que sofreu. Então foi planejada essa exposição. Estou a milhão, muito ansiosa por esse momento", contou.

Tempo de Reação

Tereza explica o que levou a exposição a ter essa denominação. Para ela, é tempo de uma reação para que o exemplo do que foi feito com Barbosa não seja seguido.

"Como ser humano, Barbosa foi um exemplo. Muitos poderiam até ter se suicidado com o que ele sofreu. E não falo em relação à Copa, antes mesmo. Ele tinha orgulho de sua origem, consciência de seu potencial e não se curvou. Pelo contrário, ele se sentia honrado com sua atuação naquela final da Copa. Cumpriu seu dever, defendeu seu país com amor e ficou orgulhoso com o vice-campeonato. A causa daquela derrota era bem mais ampla", lembrou.

Na época, o futebol começava a se tornar um cartão postal do Brasil e, com sua enorme popularidade, passou a atrair interesses de todos os lados. Fatores muito além de um gol em que a bola passou rente à trave tiraram o que seria o primeiro campeonato da seleção nacional.

Ser goleiro negro no Brasil é muito penoso. O preconceito é maior porque o goleiro é o personagem mais visado e, quando vem uma derrota, vira pretexto para críticas maldosas

Tereza Borba, filha de Barbosa

"O Neguinho (como ela chamava carinhosamente Barbosa) sempre me contou que eles estavam indo muito bem naquela Copa. Tudo caminhava na direção certa. De repente, mudaram a concentração para São Januário. Por ele era até bom, porque se sentiria mais em casa, jogava pelo Vasco. Mas ele sempre foi contra, dizia que não poderiam ter ido. Aparecia gente só para badalar. Não houve mais concentração, tranquilidade", afirmou.

No dia da final, diz ela, os jogadores foram tratados como verdadeiras marionetes dos interesses da então CBD (Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF, e tão ou mais afundada em polêmicas).

"Foi essa a causa da derrota. Antes do jogo, eles ficaram presos em uma sala, esperando as cerimônias. Não dormiram bem. E nem se alimentaram direito. Estavam com sono e com fome. A ganância dos políticos foi a causadora daquela derrota", observou.

Cabeça erguida

Os mesmos que paparicavam os jogadores, após a partida, nem quiseram mais saber de Barbosa. Se viesse a vitória, o goleiro certamente seria bajulado.

"Mas nada, ele voltou de ônibus. Nunca jogou pelo dinheiro. Sempre jogou por amor ao futebol", disse.

Barbosa ainda atuou por mais alguns anos, inclusive pela seleção brasileira, em 1953. Conquistou mais títulos pelo Vasco, que defendeu ininterruptamente entre 1945 e 1955, antes de sair e depois voltar.

Ele se sentia honrado com sua atuação naquela final da Copa. Cumpriu seu dever, defendeu seu país com amor e ficou orgulhoso com o vice. A causa daquela derrota era bem mais ampla

Tereza Borba, filha de Barbosa

Nascido em Campinas (SP), era apaixonado por futebol e, após perder o pai, ainda menino, se mudou com a família para São Paulo, onde passou a trabalhar no Laboratório Paulista. Por lá, passou a atuar nos campeonatos entre empresas e logo despertou a atenção pelo seu talento.

Jogou, no início, como ponta-esquerda, tendo defendido o extinto Comercial (SP). Mas logo se tornou goleiro e conseguiu vaga no Ypiranga (SP), uma equipe que disputava o Campeonato Paulista.

Quando estava na iminência de ser contratado pelo Corinthians, acabou optando pelo Vasco, em busca de experiências novas em uma outra cidade, já conhecida como Cidade Maravilhosa.

Casado com Clotilde, mãe de Tereza, que veio a falecer em 1997, Barbosa só deixou o Rio de Janeiro nos anos 90, quando foi morar em Santos, chateado pelo fato de não ter podido entrar na concentração da seleção brasileira que disputava as Eliminatórias, em 1993, por causa do estigma daquela derrota.

Tal injustiça, porém, começou a abrir os olhos de muita gente. De repente, se deram conta: "Que abusdo é esse que estamos fazendo?" Isso se encaixou à missão de Tereza que conta com o auxílio de seu marido, José Mauro da Costa, vascaíno, que financia todos os seus projetos, inclusive o de manter em ordem o mausoléu onde o pai está enterrado, na Praia Grande.

"Meu trabalho é difícil, faço tudo sem visar nenhum ganho financeiro. Consegui que o campo principal e a avenida do CT do Vasco levem o nome do meu pai. Ainda vou conseguir fazer o CT receber o nome dele. Muitas vezes pensei em desistir, há muita adversidade. Mas a torcida do Vasco sempre me apoiou. Ela foi determinante para eu seguir em frente. Sou muito grata a essa torcida maravilhosa", conta.

Tereza revela ainda que todo o estigma criado em torno de Barbosa não o abalava.

"Ele sempre foi um homem sorridente, de bem com a vida. Manteve sempre a tranquilidade. Era o sentimento que me passava, desde menina. Ele não ligava para o que falavam, andava de cabeça erguida. Aprendi a vê-lo desta maneira, como um homem ciente de que cumpriu o seu dever e que não alimentava raiva ou culpa", diz.

Barbosa, após o fim da carreira, prestou concurso e se tornou funcionário da Suderj. Passou a trabalhar diariamente no Maracanã, enquanto muitos, sem saber o que falavam, diziam que ele não poderia mais pisar lá.

Para a filha, aquele jogo contra o Uruguai, muito mais do que um castigo, foi uma lição de vida. Em que o futebol revelou estar sempre a serviço de algo maior, que é a própria essência humana. Para o bem e para o mal.

"Ainda tenho contato com o filho do Ghiggia. A família dele foi uma das primeiras a entender a situação. Ghiggia mesmo dizia que, se soubesse o que o Barbosa iria passar, não faria o gol. Era como viam meu pai. Nesta história, Gigghia morreu pobre, meu pai morreu pobre. O dinheiro e as glórias não eram o mais importante, mas sim a dignidade", completa.

Naquele jogo, o Uruguai terminou como campeão dentro de campo. Mas Tereza quer mostrar que fora dele, pelo resto da vida, todos foram vencedores.

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