Diário de bordo: ombro deslocado, caminho errado e as 18h sem parar

Viagem entre o Rio e Lima, no Peru, entra no 5º dia de estrada. Torcedor sofreu lesão, motorista errou caminho e a raiva predomina dentro do ônibus

Fãs do Flamengo tiveram decisão difícil no ônibus

Fãs do Flamengo tiveram decisão difícil no ônibus

Raian Cardoso/Record TV

A aventura de ônibus, entre o Rio e Lima, no Peru, entrou no quinto dia, tudo para ver a final da Libertadores entre Flamengo e River Plate — nesta semana, El Camino Rubro-Negro refaz os km, no diário de bordo, com os detalhes da viagem.

O placar de 2 a 1 para o time carioca foi uma recompensa para os fãs que foram por terra até o estádio Monumental. O repórter da Record TV Raian Cardoso esteve presente nessa epopeia.

Nessa reportagem, você verá o drama de um torcedor, que sofreu um deslocamento de ombro e precisou suportar a dor por horas até achar um posto de saúde. Também verá como ficou o clima no ônibus após 18h ininterruptos de estrada.

5º dia de estrada

A sexta começou bem cedo e, na madrugada, paramos na aduana entre Chile e Peru. Na fronteira, tudo correu bem e a alegria voltou de vez ao rosto dos torcedores. Era uma espécie de anestesia depois de quase cinco dias dentro do ônibus.

A vontade era chegar logo em Lima, resolver hospedagens, moedas e estarem 'prontos para assistirem a final.

O cansaço, a dor física e o estresse mental eram os principais inimigos. Porém, a cada fronteira superada e a cada cidade deixada para trás, o ânimo e o moral dos torcedores se renovavam. Era uma mistura constante de alegria e ansiedade.

Agora, faltando muito pouco para o destino, o clima de apreensão toma o ônibus. Um torcedor teve seu ombro deslocado. Talvez, o motivo tenha sido ficar muito tempo numa mesma posição.

Todos tentaram ajudar, ora com sugestões, ora ao tentar ajeitar o ombro do rapaz. Essas tentativas se deram por alguns minutos, mas o braço não voltou para o lugar.

Encontramos um posto de saúde em uma pacata cidade, mas única médica de plantão não quis colocar o braço no lugar. Disse que só poderia fazê-lo após uma radiografia, para entender o que tinha acontecido.

A profissional medicou o torcedor e nos indicou uma cidade que ficava a 2 horas de distância para tentar resolver o problema. Diante da situação, um torcedor cedeu seu lugar no leito para o machucado.

Chapa esquentou

Depois que o ônibus foi “abandonado” pelos outros dois do comboio, houve vários erros de trajeto. Com isso, o clima no ônibus esquentou, mas para pior. A paciência dos torcedores acabou. O motorista se tornou o bode expiatório. O medo de chegar após a partida agora é real e latente.

Um grupo de torcedores levantou e foi até o motorista, que foi xingado de todos os nomes. De fato, o condutor estava claramente perdido. Estamos atrasados. Os ônibus que estavam conosco no comboio chegaram em Lima há 12 horas, ou seja, meio dia em nossa frente.

A aflição estava no rosto dos torcedores, a testa franzia, os olhos piscavam rápido. Apreensivos, os torcedores colocaram a rota no GPS. Estamos a 12 horas de Lima, são 10h no horário local. Estamos na sexta-feira, o jogo é amanhã, às 15h. Os torcedores realmente estão com medo de não assistirem ao jogo.

O que mais impressiona é a falta de suporte da empresa responsável pela viagem. Temos dois seguranças no ônibus, porém eles se limitam a manter a ordem, que é para o quê são pagos. As três pessoas que estavam responsáveis pela viagem chegaram antes e deixaram nosso ônibus para trás.

Talvez porque os 'sorteados em promoções' estavam nos dois primeiros — assim, não podiam deslizar. Para nós, sobrou fazer uma vaquinha para pagar o pedágio e o combustível do busão, pois o motorista não tinha a moeda peruana.

18h seguidas de estrada

Estamos a 10h andando direto. Após todos os momentos de tensão, a decisão entre os torcedores foi unânime: seguir direto até Lima. Se isso acontecer, ficaremos quase 20 horas andando direto.

No trajeto, nos deparamos, literalmente, com pedras em nosso caminho. Um deslizamento na estrada deixou a via com sistema de pare e siga.

O clima melhorou muito no ônibus. Nada que uma hora andando a beira do precipício não resolvesse. O espírito de união se aflorou mediante o tamanho do perigo. Acho que foi pelo fato de estarem tão pertos da morte. Eu também morri de medo.

O último dia parece o mais difícil. Tudo ia bem, até que paramos em frente a um gigantesco engarrafamento. Obras na via. Como diz o ditado, não há nada tão ruim que não possa piorar.

Começa a chover e escurece. O que já estava aterrorizante ficou ainda mais. A tensão ficou grande, o pavor dominou cada um. Passamos pelo penhasco, mas continuamos sem parar, sem comer, sem tomar banho.

Após 18h seguindo sem parar, não aguentamos e paramos na cidade de Nazca. Achamos um restaurante grande, a comida saiu rápido. Comemos muito bem. Eram 23h no horário local quando acabamos de comer, vamos chegar a tempo em Lima. Parecia que as coisas melhorariam, se não fosse...

Se não fosse o problema com o torcedor que deslocou o ombro. Com muita dor, o rapaz decidiu ir sozinho a um hospital. Após todos saírem do restaurante, sentiram falta dele. Foi quando começou o corre-corre, e após meia hora, ele foi encontrado num hospital próximo.

O torcedor foi medicado e terá que ficar 2h em observação. Surge um dilema, espera e corre o risco de perder o jogo ou segue sem o torcedor e corre o risco de algo grave acontecer?

Era meia noite quando o telefone de alguém tocou. Um segurança recebeu ordem para ficar com o torcedor enquanto todos seguimos viagem.

Estávamos mais pertos do que nunca. Já estávamos no Peru, a 7h de Lima, a 7h30 do estádio Monumental. Era notória a sensação de alívio dos torcedores. Ia dar tempo!

A madrugada chegou e poucos dormiram. A ansiedade é grande e impede a maioria de pregar os olhos. Outros até se medicaram para dormir, pois a chegada seria de manhã e o jogo às 15h no horário local. Ou seja, seria tudo corrido e queriam estar descansados.

Gabigol: artilheiro do Brasileiro faz mais gols ou troca de visual?